Levantamento anual do Conselho Indigenista Missionário responsabiliza impasse do marco temporal pelo aumento de casos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Relatório 'Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil 2025' foi publicado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi) — Foto: Divulgação/Guilherme Cavalli O recrudescimento das violações de direitos territoriais e humanos contra os povos originários do Brasil atingiu níveis alarmantes no ano de 2025, impulsionado pela aprovação e vigência da Lei do Marco Temporal —, pela estagnação dos processos demarcatórios e pela ofensiva de setores do agronegócio e da mineração ilegal. É o que aponta o relatório "Violência Contra os Povos Indígenas no Brasil 2025" publicado pelo Conselho Indigenista Missionário (Cimi), nesta quinta-feira, o país registrou 258 assassinatos de indígenas, um salto em relação às 211 mortes violentas contabilizadas em 2024, além de 1.024 óbitos de crianças de 0 a 4 anos e 1.276 casos de violência contra o patrimônio originário. O documento aponta que o ambiente de insegurança jurídica, agravado por manobras legislativas no Congresso Nacional e pela tentativa do Poder Judiciário de impor "mesas de conciliação", transformou o Estado brasileiro em um ente essencialmente negociador, resultando na desidratação das garantias constitucionais de 1988 e no aumento sistemático de invasões e omissões estatais. A publicação, organizada em três eixos analíticos, revela que a paralisação das regularizações fundiárias é a matriz principal da escalada de conflitos nos territórios. Dos 1.443 territórios e reivindicações de terras indígenas mapeados pelo Cimi em todo o país, 897 (62%) apresentam pendências administrativas pendentes de resolução pelo Poder Executivo, sendo que em 582 desses casos o Estado não adotou sequer qualquer providência inicial, segundo o relatório. Essa morosidade teria aberto margem para 169 conflitos diretos relativos a direitos territoriais e 210 episódios de invasões, exploração ilegal de recursos naturais e danos diversos ao patrimônio, afetando ao menos 151 terras indígenas em 20 estados. Conheça o trabalho do Hospital São Paulo (HSP/Unifesp) e do Ambulatório de Saúde dos Povos Indígenas (ASPIN) 1 de 11 Dr. Clayton Coelho em atendimento em aldeia dos indígenas Wauja — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP 2 de 11 Paciente indígena passa por exame de imagem no Hospital São Paulo, que atende casos de média e alta complexidade. — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP X de 11 Publicidade 11 fotos 3 de 11 Atendimento a paciente indígena no Hospital São Paulo, referência nacional em assistência especializada aos povos indígenas. — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP 4 de 11 Fachada do Hospital São Paulo, na capital paulista, onde o cacique Raoni Metuktire está internado. — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP X de 11 Publicidade 5 de 11 Dr. Douglas Rodrigues em atendimento em aldeia dos indígenas Wauja — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP 6 de 11 Pesquisa ação entre os indígenas Kawaiete — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP X de 11 Publicidade 7 de 11 Oficina de Saúde da Mulher entre os indígenas Wauja — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP 8 de 11 Dr. Douglas Rodrigues em consulta com os indígenas Kaiabi — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP X de 11 Publicidade 9 de 11 Cuidados entre os indígenas Mehynako — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP 10 de 11 Vacinação entre os indígenas Ikpeng — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP X de 11 Publicidade 11 de 11 Pesquisa ação entre os indígenas Yudjá — Foto: Acervo Projeto Xingu - UNIFESP Hospital que trata Raoni acumula seis décadas de experiência na saúde indígena e já realizou mais de 35 mil atendimentos Violências sobem em Roraima No capítulo dedicado às violências contra a pessoa, que somaram 474 ocorrências graves no ano, o estado de Roraima liderou o ranking nacional de homicídios com 82 vítimas, seguido pelo Amazonas com 47 e pelo Mato Grosso do Sul com 37 assassinatos. O relatório destaca ainda a permanência de episódios brutais de racismo e discriminação étnico-cultural, como os 46 casos documentados, dos quais 60% ocorreram em ambientes urbanos ou institucionais como escolas e hospitais. Entre as ocorrências mais graves figura a agressão ocorrida na Ilha do Bananal, no Tocantins, onde um adolescente indígena de 15 anos foi marcado a ferro em brasa para gado enquanto trabalhava para um pecuarista da região. Na dimensão da omissão do Poder Público, os indicadores sociais expõem uma tragédia silenciosa decorrente da falta de saneamento, água potável e atenção básica à saúde. Mortes infantis Dos 1.024 óbitos de crianças indígenas de até 4 anos registrados em 2025 — com maior incidência no Amazonas (306), Roraima (158) e Mato Grosso (123) —, 57% (586 mortes) foram causados por enfermidades possivelmente evitáveis, incluindo 104 mortes por gripe e pneumonia, 85 por infecções intestinais e diarreias e 32 por desnutrição crônica. Paralelamente, o país contabilizou 215 suicídios de indígenas, sendo o Amazonas (77), Mato Grosso do Sul (42) e Roraima (37) os estados mais afetados; 75% das vítimas de suicídio eram jovens e adolescentes de até 29 anos, impactados pelo confinamento territorial e pela falta de perspectivas. A fragilidade das ações estatais também se reflete no retorno contínuo de invasores a territórios que passaram por operações oficiais de desintrusão, como observado na Terra Indígena Sararé, em Mato Grosso — cuja devastação por crateras de garimpo e contaminação por mercúrio estampou a capa da edição —, bem como nas TIs Apyterewa, no Pará, e Karipuna, em Rondônia. O cenário é ainda mais dramático para os povos isolados e de pouco contato: das 119 referências catalogadas pelas equipes de campo do Cimi, apenas 28 são formalmente reconhecidas pela Funai, deixando 91 grupos em isolamento voluntário sem qualquer proteção jurídica e sob risco iminente de extermínio diante do avanço da grilagem e da mineração na Amazônia.