Gravação mostra juiz sugerindo venda do Banco Santos ao Master e indicando advogados a herdeirosÁudio revela conversa entre juiz da falência do Banco Santos e herdeiros de Edemar Cid Ferreira sobre venda para o Banco Master e acordo para fim do processo. Crédito: Reportagem: Luiz VassalloGerando resumoO corregedor-nacional de Justiça, Mauro Campbell, afastou do cargo o juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho, da 2.ª Vara de Falências de São Paulo, responsável por julgar a falência do Banco Santos. A decisão foi tomada após o Estadão revelar a gravação de uma reunião entre Furtado e herdeiros do Banco Santos em que o juiz sugeriu a venda do banco ao Master, de Daniel Vorcaro, e a contratação de advogados pela família. Detalhes da ordem do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) estão sob sigilo. Procurado, Furtado não se manifestou sobre a decisão. Quando questionado pela reportagem sobre a gravação, negou irregularidades na conversa e afirmou que dá atendimento “igualitário” às partes. Também disse que suas decisões vinham sendo confirmadas em instâncias superiores. PUBLICIDADEO encontro cuja gravação foi obtida pelo Estadão aconteceu em agosto 2024, sem a presença da defesa da família, meses após a morte do banqueiro Edemar Cid Ferreira, controlador do Santos. Estavam presentes os três filhos do banqueiro: Rodrigo, Eduardo e Leonardo. À época, o escândalo do Banco Master não havia estourado. Daniel Vorcaro só seria preso em 2025. Havia diversos fundos e bancos fazendo sondagens sobre a compra de ativos e créditos da massa falida. Furtado sugeriu, mais de uma vez, que a venda ao Master seria a melhor solução para encerrar o caso. Disse também que a família sairia do processo e que abriria mão de ações de responsabilização movidas contra os herdeiros de Edemar. Quem organizou o encontro foi um administrador judicial que não tem procuração para representar nenhuma parte envolvida no processo. Juristas afirmaram à reportagem que a conduta é imprópria e deveria ser apurada pelo CNJ. PublicidadeJuiz quer ir a Brasília encontrar corregedorA decisão de afastar o juiz foi tomada nesta quarta-feira, 12, após a publicação da reportagem. No mesmo dia, a Corregedoria do Tribunal de Justiça de São Paulo ordenou que houvesse uma correição extraordinária - uma espécie de auditoria surpresa - no gabinete de Furtado. Fórum João Mendes, no centro de São Paulo, onde funcionam as varas de falência da capital Foto: Marcelo Godoy/EstadãoA defesa de Paulo Furtado entregou à Corregedoria e ao CNJ um documento mostrando que processos de sua vara estavam em dia. Os advogados do juiz afirmaram ao corregedor-nacional de Justiça, Mauro Campbell, que o magistrado estava disponível para viajar a Brasília e prestar pessoalmente esclarecimentos sobre o caso. PublicidadeCNJ suspendeu falência e afastou síndicoAtendendo a um pedido da família de Edemar, Campbell já havia suspendido em julho a falência e afastado o síndico Vânio Aguiar, responsável por administrar a massa falida do Banco Santos. Os herdeiros de Edemar haviam pedido o afastamento de Furtado do caso. Ele havia sido mantido na ocasião, mas o CNJ cobrou dele esclarecimentos sobre uma série de acusações de irregularidades feitas pela família ao órgão. Leia tambémGravação mostra juiz sugerindo venda do Banco Santos ao Master e indicando advogados a herdeirosFalência do Banco Santos tem mais de 20 anos na Justiça e guerra entre ex-banqueiro e síndicoProcurado, Vânio não se manifestou. No processo, sua defesa tem afirmado que Edemar quer pôr a culpa na administração da falência “depois de ver desbaratado seu esquema de ocultação de obras de arte no exterior, de arrecadação de seus bens em nome de offshores e de falsas doações por sua cônjuge de recursos vindos do além-mar”. PublicidadeOs familiares de Edemar não se manifestaram. Banqueiro foi preso e teve obras leiloadasHá mais de 20 anos no Judiciário de São Paulo, a falência do Banco Santos foi marcada pelo leilão milionário de obras de arte, prisões de seu controlador, Edemar Cid Ferreira, e duras disputas judiciais em torno de seu patrimônio.Edemar Cid Ferreira, ex-dono do Banco Santos, faleceu em 2024 Foto: Wesley Gonsalves/EstadãoO banqueiro chegou a ser preso duas vezes. Foi condenado pela Justiça Federal por formação de quadrilha, gestão fraudulenta, desvios, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. A pena chegou a 21 anos de prisão.PublicidadeDepois, foi solto e conseguiu a anulação da ação em que foi condenado e a absolvição em outro processo criminal. Após ter sua mansão de R$ 21 milhões leiloada, além de obras de arte, Edemar faleceu em janeiro de 2024, morando em um apartamento alugado no Morumbi.Banco teve falência conturbada e guerra com síndicoFundado na década de 1980, por Edemar Cid Ferreira, o Santos foi alvo de intervenção do Banco Central em 2004. À época, estimava-se que o rombo era de R$ 700 milhões. Correntistas entraram em desespero porque saques foram limitados a R$ 20 mil e o site do banco ficou fora do ar.Chefe do Departamento de Supervisão do Banco Central, Vânio Aguiar foi nomeado interventor do Santos. Em 2005, foi nomeado pelo então presidente do BC, Henrique Meirelles, como liquidante do banco. Ele foi o autor do pedido de falência do banco.Ao longo dos últimos anos, Vânio também tomou medidas como o bloqueio de bens de Edemar no exterior, como era o caso de recursos em offshores. Edemar e seus familiares entraram em guerra com o síndico e acusaram supostas irregularidades na administração da massa falida. Juiz nega irregularidadesO juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho afirmou que “não tem conhecimento da alegada gravação clandestina de conversa travada no gabinete oficial” de sua “Vara, no ano de 2024, nem, muito menos, de seu inteiro teor”.Publicidade“De todo modo, adianto-lhe que, no longo exercício jurisdicional da falência do Banco Santos S/A, como, aliás, em todos os processos em que tenho atuado, todas as minhas decisões sempre foram e estão submetidas a amplo controle recursal pelos tribunais competentes, que, de regra, as têm confirmado na inteireza, assim como sempre foi e continua garantido atendimento irrestrito e igualitário às partes e interessados”, disse.Vale ler tambémUma política de desenvolvimento regional à altura da AmazôniaReforma tributária: brasileiro se assusta com alíquota de 28%, mas já paga imposto maiorSaída menos dolorosa para o BRB é a separação de ativos e a venda do banco, como ocorreu nos anos 90
CNJ afasta juiz do Banco Santos gravado sugerindo aos herdeiros venda ao Master e troca de advogados
Corregedor-nacional de Justiça, Mauro Campbell, decidiu afastar juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho após ‘Estadão’ revelar gravação em que ele sugere venda para o Master; procurado, Furtado não se manifestou








