Outro dia, me atrevi a ir ao Chora, um lugar de jovens modernos e conversados. Para minha alegria, eles têm uma farta carta de drinques autorais e clássicos 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Café Carajillo no Chora, em Botafogo — Foto: Divulgação / João Fuentes Sou do tempo em que o carioca acordava tarde, passava na padaria, pedia a mesma média de todo dia e chegava na praia dizendo que tinha tomado um brunch. O jogo virou, e hoje a cidade tem bons lugares para ficar de preguiça na mesa até mais tarde, com cardápios que só mantêm o pão na chapa por educação e vão além do pingado. Brunches têm uma licença social que libera qualquer um para beber antes do meio-dia sem maiores julgamentos. Geralmente, são coquetéis mais leves, alegres, com espumante, para fazer aquela cosquinha no nariz virar sorriso. Mas também podem dizer muito sobre a noite anterior. Figurinha fácil nessas mesas, o bloody mary é um famoso “cura-ressaca” pelos benefícios do suco de tomate e pela alta concentração de água no aipo que vem na guarnição. A vodca é um detalhe. Das bebidas com borbulhas, dispenso a mimosa. Acho a combinação simpática, realmente a perlage do espumante lembra os pompons da flor que batiza o drinque. Mas prefiro guardar o suco de laranja para ocasiões melhores. Kir royale me lembra as sobremesas com licor de cassis típicas dos anos 1980. Fecho com o bellini, pelo purê de pêssego branco que tem sabor de férias em alto-mar. Não tive a sorte de beber um no Harry´s Bar, em Veneza, onde foi criado. Mas a gente tinha um excelente aqui, no Fasano, antes de o Gero migrar para dentro do hotel. Como nunca estive numa coffee-party, busco fazer a festa de café em café. Outro dia, me atrevi a ir ao Chora, um lugar de jovens modernos e conversados. Para minha alegria, eles têm uma farta carta de drinques autorais e clássicos já para as primeiras horas do dia, e que chegam brilhando à mesa. O barato é que muitas das bebidas são feitas com os cafés especiais do dia, o que transforma o carajillo de amanhã em algo diferente do de hoje. O licor 43 é o mesmo, mas o café, quanta diferença. Foi tentando fazer diferente que Salvatore Calabrese, o Maestro, como é conhecido na coquetelaria mundial, criou o mais famoso clássico moderno matinal. Em meados dos anos 1990, sua esposa insistia para ele botar alguma coisa no estômago, além do espresso de todos os dias. Um pão com geleia de laranja que fosse, já estava bom. Quebrando todas as regras de coquetéis diurnos até então, ele criou o breakfast martini, com gim, licor de laranja, limão e uma bailarina de geleia de laranja. Não deveria ser bem isso que ela imaginava, mas deu certo. Como não preciso incluir mais nada na minha dieta, pelo contrário, se tivesse que escolher um coquetel para chamar de meu nas manhãs, seria o garibaldi. Apenas dois ingredientes: Campari e suco de laranja. Uma combinação simples, só que de execução complicada. Ali o que pega não são os insumos, mas o preparo. O suco de laranja precisa ser espremido na hora e a coqueteleira deve dançar sem perder o ritmo para deixar a mistura aerada. A graça está toda na textura, que equilibra os sabores. Apesar do bitter italiano, é uma combinação brasileiríssima. Explico o porquê. Seja brilhando nas prateleiras dos bares mais badalados da cidade ou tomando poeira num cantinho esquecido de um botequim, todo bar sempre tem uma garrafa de Campari. A laranja, a gente arruma fácil, e a ginga, a gente tem de sobra. Isso só tem no Brasil.
Entre a mimosa e o pão na chapa: brunches têm uma licença social que libera qualquer um para beber antes do meio-dia
Outro dia, me atrevi a ir ao Chora, um lugar de jovens modernos e conversados. Para minha alegria, eles têm uma farta carta de drinques autorais e clássicos
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