O argumento dos defensores da desintoxicação de dopamina parte da ideia de que seria impossível estabilizar o sistema de recompensa, o que nos levaria a querer sempre mais, mas cientistas discordam 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Mulher ao celular — Foto: Freepik Ao contrário do que se costuma pensar, a dopamina, molécula essencial para o funcionamento do nosso sistema de recompensa, não tem como função codificar diretamente o prazer. Tinder, TikTok, Instagram, Candy Crush, para citar apenas alguns exemplos... É comum ouvir que esse tipo de aplicativo é projetado para sequestrar nosso sistema de recompensa, ou seja, o circuito que, em nosso cérebro, afeta nossos desejos, prazeres e emoções e desempenha um papel crucial em processos tão diversos quanto a sexualidade e os vícios relacionados às drogas. No centro desse sistema está a dopamina, uma molécula que participa da antecipação da recompensa. Segundo muitos influenciadores e podcasters, para proteger nosso sistema de recompensa das inúmeras estimulações que recebe diariamente, seria necessário fazer uma desintoxicação de dopamina, privando-se de prazeres. As recomendações para isso são variadas: tomar banhos frios, se expor à luz da manhã, fazer listas de prazeres que devem ser evitados para reiniciar os neurotransmissores... Entre referências à neurociência e discursos sobre bem-estar, bastaram algumas décadas para que a dopamina se tornasse, ao mesmo tempo, a causa dos nossos vícios modernos e a chave para nossa realização pessoal. A psiquiatra de Stanford Anna Lembke chegou a escrever um best-seller, "Dopamine Nation" ("Nação Dopamina") considerado por alguns um manual para fazer essa desintoxicação de dopamina. Nos laboratórios que estudam o funcionamento dessa molécula, porém, como aquele em que trabalho, o discurso é totalmente diferente. Vamos, então, examinar algumas ideias equivocadas. A dopamina é um sinal de aprendizagem Na virada dos anos 1990, o neurofisiologista Wolfram Schultz realizou em macacos uma série de experimentos que se tornaram clássicos. Enquanto os primatas aprendiam uma nova tarefa, ele registrava simultaneamente a atividade de seus neurônios dopaminérgicos, ou seja, os neurônios que produzem dopamina. O exercício era simples: um sinal luminoso anunciava que, alguns segundos depois de ser acionado, chegaria uma pequena quantidade de suco de frutas. Nos primeiros momentos do aprendizado, Schultz constatou que os neurônios se ativavam quando a recompensa chegava. Mas, à medida que o macaco aprendia a associação entre o estímulo e a recompensa, a atividade dos neurônios dopaminérgicos mudava de momento: ocorria assim que o sinal luminoso aparecia e não mais quando a recompensa chegava. E, se o pesquisador não fornecesse o suco, embora ele tivesse sido anunciado pelo estímulo, a atividade dos neurônios dopaminérgicos caía abaixo de seu nível basal. Os neurônios que produzem dopamina, portanto, não codificam o prazer. Afinal, o macaco continua sentindo prazer no momento em que recebe o suco, mesmo quando sua chegada é previsível. Outro exemplo: saber que vamos a um bom restaurante pode nos deixar animados antecipadamente, mas isso não diminui em nada o prazer que sentimos quando os pratos que esperávamos saborear são efetivamente consumidos. Na realidade, a atividade dos neurônios dopaminérgicos mede mais precisamente uma diferença entre a recompensa esperada e a recompensa efetivamente recebida. Em outras palavras, um pico de dopamina não é sinal de um prazer experimentado naquele momento, mas o registro de uma comparação entre nossas previsões de recompensa e a realidade. É o que se chama de erro de previsão da recompensa. Quando uma situação ou ação nos proporciona mais recompensa do que o esperado, o erro de previsão é positivo, e o organismo entende que vale a pena repeti-la. É importante compreender que, nesse contexto, recompensa não significa prazer sentido. É, antes, aquilo que importa para o organismo e que ele podia antecipar em maior ou menor medida. Pode ser, por exemplo, um gole de suco para o macaco de Schultz ou, no nosso caso, o consumo de uma boa refeição ou até mesmo o recebimento de uma boa notícia. O sinal de dopamina não marca a refeição em si: ele marca a diferença entre a refeição esperada e aquela que realmente tivemos. Ao contrário, se realizamos uma ação que nos proporciona menos recompensa do que esperávamos, talvez seja necessário reconsiderar essa escolha na próxima vez que ela se apresentar. Essa interpretação estruturou toda a pesquisa sobre aprendizagem por reforço, baseada no ajuste das ações de acordo com suas consequências passadas. De fato, a marca do erro de previsão da recompensa é encontrada tanto em seres humanos quanto em camundongos. Na realidade, a dopamina é, ao mesmo tempo, um sinal de aprendizagem, que ajusta o valor que atribuímos às ações, e um sinal de motivação. A previsão de valor é útil tanto para definir as ações que devem ser realizadas quanto para continuar comparando o resultado real da ação com aquilo que havia sido previsto. Em outras palavras, a dopamina nos indica que podemos gastar energia para obter uma recompensa. Quando o aprendizado está consolidado, o sinal de dopamina desaparece por si só. Drogas e recompensas aleatórias: uma falsa comparação A argumentação dos defensores do conceito de desintoxicação de dopamina parte da ideia de que seria impossível estabilizar o sistema de recompensa, o que nos levaria a querer sempre mais. No caso dos aplicativos de celular, as notificações, as curtidas e a rolagem infinita fariam parte de um mesmo mecanismo de sequestro: ofereceriam recompensas incertas e, portanto, surpreendentes, capazes de produzir picos repetidos de dopamina. Com o tempo, o sistema de recompensa se esgotaria, como acontece sob o efeito das drogas, e ficaríamos cada vez menos sensíveis aos prazeres comuns. A desintoxicação seria, então, uma maneira de reiniciar esse sistema. Essa analogia, porém, não é pertinente. Drogas como cocaína e opioides aumentam os níveis de dopamina de maneira farmacológica, intensa e prolongada, independentemente de qualquer previsão de recompensa. O cérebro não consegue absorver esse aumento porque ele é forçado quimicamente. Uma das respostas do organismo é, portanto, reduzir o número de receptores de dopamina na superfície das células. O resultado é a tolerância bem descrita entre usuários crônicos, que os leva a aumentar as doses ou multiplicar o consumo. Uma notificação recebida aleatoriamente no smartphone é de outra natureza: trata-se de uma recompensa clássica, cujo valor e caráter imprevisível aprendemos simultaneamente. Como as condições para obtê-la variam, existe, de fato, um pequeno aumento da atividade da dopamina, chamado de efeito de curiosidade — é imprevisível, portanto interessante —, mas ele dura apenas algumas frações de segundo. Medimos isso recentemente em camundongos em uma tarefa de jogo. O animal precisava escolher entre várias opções cuja probabilidade de recompensa era diferente. Enquanto ele tomava sua decisão, acompanhávamos em tempo real a atividade dopaminérgica de seus neurônios. Diante de uma opção incerta, detectamos, de fato, um pequeno aumento da atividade, mas da ordem de uma fração de segundo. Sua magnitude, portanto, não tem qualquer comparação com aquela resultante do consumo de drogas. Se a simples imprevisibilidade de um resultado provocasse dependência por si só, ficaríamos viciados em um simples jogo de dados, sem qualquer aposta em dinheiro! De fato, a redução dos receptores, que acompanha o uso de estimulantes, não é observada entre jogadores compulsivos: um comportamento, mesmo repetido e incerto, não desgasta o sistema como uma droga faz... O sofrimento relatado por algumas pessoas em sua relação com as telas é real, mas atribuí-lo a uma saturação do sistema dopaminérgico leva à proposição de soluções que não atingem o mecanismo correto, porque rolar a tela não é comparável ao consumo de cocaína. Tentar otimizar os hormônios é um beco sem saída A teoria segundo a qual existiria em nosso cérebro um nível adequado de determinada molécula é sedutora porque é fácil de compreender. Mas está errada. Sob uma camada de vocabulário da neurociência, ela se assemelha, na realidade, à antiga teoria dos humores: a saúde seria uma questão de equilíbrio entre alguns fluidos ou substâncias bem identificados, equilíbrio que seria possível manter por meio de uma boa higiene de vida. A ideia de que é possível determinar uma concentração ideal de moléculas não se restringe à dopamina. O neurologista americano Andrew Huberman, estrela dos podcasts, mas alvo de críticas de outros cientistas por sua tendência a extrapolar e se manifestar fora de sua área de especialização, propõe protocolos precisos para ajustar não apenas a dopamina, mas também o cortisol, a serotonina e a testosterona — outras moléculas que influenciam nossos comportamentos afetivos e cognitivos e são chamadas de neuromoduladores. O problema é que essas substâncias não funcionam como fluidos independentes cujos níveis poderiam ser ajustados separadamente. Como resumiu o neurocientista britânico de renome mundial Peter Dayan, especialista em neuromodulação e aprendizagem, em uma revisão de referência publicada em 2012, os neuromoduladores interagem continuamente. Dopamina, serotonina e cortisol influenciam uns aos outros, às vezes de maneira cooperativa, às vezes em competição, dependendo do contexto e da região do cérebro envolvida. Além disso, mesmo quando analisada isoladamente, a dopamina não exerce sempre a mesma função. Graças a uma tecnologia chamada optogenética, que permite controlar, por meio da luz, a atividade de determinadas proteínas, é possível ativar com precisão os neurônios dopaminérgicos de um camundongo enquanto ele toma uma decisão. Com meus colegas, mostramos que o efeito dessa ativação depende inteiramente daquilo que o camundongo está fazendo. Se ele está em um ambiente no qual aprendeu que um objetivo é desejável e acessível, a ativação dos neurônios dopaminérgicos aumenta sua motivação para alcançar esse objetivo. Se nada de especial o espera, a mesma ativação neuronal — e, portanto, a produção de níveis semelhantes de dopamina — não produz nenhum efeito observável. Não é possível, portanto, modular os efeitos da dopamina da mesma maneira que se aumenta ou diminui o volume de um alto-falante por meio de um botão: a influência dessa molécula depende dos objetivos que o organismo tem naquele momento. Prestar atenção ao contexto Se a ideia de uma cura de desintoxicação de dopamina não tem nenhuma base científica sólida, isso não significa que não devamos mudar nossos comportamentos! O sono, a atividade física e o tempo passado ao ar livre têm efeitos comprovados sobre a saúde física e mental. Desligar-se das telas para dormir mais cedo, praticar exercícios ou sair para caminhar realmente produz efeitos positivos sobre o bem-estar. Mas eles não são resultado de uma suposta otimização hormonal decorrente de um protocolo capaz de resolver milagrosamente todos os problemas. Pesquisas recentes mostram que não é apenas o valor de nossas ações que é recalculado, mas também o valor das próprias recompensas. Um mesmo prazer não tem o mesmo valor dependendo do estado em que nos encontramos: uma refeição não tem o mesmo valor quando estamos com fome ou acabamos de sair da mesa, e esse estado de fundo se desloca lentamente, de acordo com nossas condições de vida, como o cansaço acumulado, o isolamento ou a maneira como o trabalho nos desgasta. O sistema dopaminérgico ajusta continuamente o valor de determinada ação — como acessar as redes sociais — em relação a todo o resto. As consequências, portanto, não dependem de um protocolo individual, mas de um ambiente global. O sistema compara permanentemente a recompensa que obtemos com aquela que esperávamos, mas aquilo que constitui uma recompensa para nós em determinado momento pode mudar ao longo da vida. Em vez de se privar de todo prazer na esperança de reiniciar o sistema de recompensa, é mais pertinente perguntar em quais condições coletivas temos a oportunidade de dormir bem, quais são as causas daquele estresse no trabalho que nos incomoda, e assim por diante. Dar aos indivíduos ordens para se otimizar é transferir para cada um a responsabilidade de encontrar em si mesmo, apesar do ambiente, um nível ideal de dopamina... que não existe! *Jérémie Naudé é pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica (CNRS), neurobiologia experimental e teórica, no Instituto de Genômica Funcional, Universidade de Montpellier, França