O medicamento age nos receptores do sistema nervoso central, reduzindo o estímulo dopaminérgico e de 'recompensa' 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A anedonia tem sido um efeito comum relatado por quem utiliza canetas emagrecedoras — Foto: Shutterstock RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 11/06/2026 - 15:55 Efeitos emocionais das canetas emagrecedoras preocupam especialistas Canetas emagrecedoras como a tirzepatida estão gerando queixas de anedonia e queda de libido. Usuárias relatam perda de prazer em atividades cotidianas e sociais, apesar da eficácia na perda de peso. O medicamento age no sistema nervoso central, reduzindo estímulos de recompensa. Especialistas alertam para acompanhamento médico, devido aos impactos emocionais e no bem-estar. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Desde a adolescência, a promotora de eventos Renata Bassi, de 56 anos, segue a cartilha das dietas. Após falhar em inúmeras tentativas com o combo reeducação alimentar e exercícios físicos, decidiu, há dois meses, iniciar o tratamento com tirzepatida, a “canetinha” de Mounjaro. O plano inicial era emagrecer pouco mais de dez quilos, mas após a primeira picada, viu a empolgação e a alegria rotineiras despencarem, assim como os números na balança. “Não tirou apenas a minha vontade de comer, mas também a de viver. Antes, acordava todos os dias animada e ligava o som, fazia meu café. Mas, aos poucos, não queria fazer mais nada”, explica Renata. “Eu e meu marido adorávamos tomar uma cervejinha aos fins de semana. Agora, não tenho vontade de beber, de sair com os amigos, de falar com as pessoas. Moro em Santos (no litoral paulista), e nem à praia vou mais. Minha libido, que já estava baixa por causa da menopausa, foi a zero”, continua. Mesmo tendo alcançado ótimos resultados na balança, a promotora de eventos não quer continuar o tratamento. “A experiência tem sido muito ruim, principalmente os efeitos na minha saúde mental.” Conhecida como anedonia, a falta de prazer em atividades antes agradáveis e rotineiras não está cientificamente atrelada ao uso de canetas emagrecedoras, mas surge cada vez mais em relatos como o de Renata. Entretanto, vale lembrar que o medicamento age nos receptores do sistema nervoso central, reduzindo o estímulo dopaminérgico e de “recompensa”. Outro ponto de atenção é a alteração na libido. De acordo com o médico José Afonso Sallet, titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, mesmo não sendo classificado como efeito colateral, quando a perda de peso é induzida por uma forte modulação química cerebral e gastrointestinal, pode acontecer. “Nas mulheres, a dinâmica é mais sensível às flutuações calóricas e ao estresse físico do emagrecimento rápido, o que pode afetar os hormônios hipofisários, resultando em queda de libido e até em irregularidades menstruais temporárias”, destaca ele. Para a endocrinologista Tarissa Petry, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, a redução da libido durante o tratamento costuma ser temporária, melhorando com os ajustes de dose, perda de peso e melhora da autoestima. Mesmo assim, essa queda costuma gerar sofrimento. “Alguns pacientes relatam culpa, preocupação com o relacionamento e falta de ânimo. Por isso o acompanhamento médico é essencial para o ajuste de expectativas e medicação”, diz ela. A vida da funcionária pública Janaína Amaral, de 45 anos, também ganhou tons cinzentos. Ela usa as canetas emagrecedoras desde 2018, já perdeu 16 quilos e atualmente, continua o tratamento com Mounjaro para estabilizar o peso. “Tenho medo de voltar a engordar. Mas, no último ano, perdi até a vontade de ver filmes. Resolvo as coisas do dia a dia, mas nada me apetece. Tomo medicamento para depressão desde 2007 e faço terapia, mas estou mais apática e até um pouco ranzinza”, desabafa. Para não se sentir com uma “mulher das cavernas”, Janaína se força a sair eventualmente. “Estou tentando ao máximo não perder os laços sociais. Achava que emagrecer traria um aumento da autoestima e, consequentemente, mais prazer, só que tem sido o contrário.” Ainda assim, não pensa em parar: “Desde que continue com este peso, eu me contento de não ter prazer. Triste, né?”. Em meio a este cenário, é impossível desassociar os efeitos emocionais do uso indiscriminado das canetas e à pressão nas redes sociais pelo ideal de corpo e performance. “O antes e depois postado traz uma promessa silenciosa de que emagrecer transforma não só o corpo, mas a vida inteira. O peso na balança muda, mas os problemas que existiam antes não evaporam, e descobrir isso pode trazer tristeza e até sintomas depressivos”, afirma o psiquiatra e professor da PUC-Rio, Ricardo Ewbank Steffen. Para o psiquiatra Alexandre Saadeh, a comunicação entre paciente e médico é imprescindível. “Com a caneta, algumas pessoas se sentem melhor e mais ‘pé no chão’, saem daquele ritmo automático de celular, bebida e festinha”, diz. Mas, atenção: se a perda do prazer for intensa, alerta Saadeh, é interessante mudar o medicamento ou ajustar a dose. “Quem tem depressão pregressa também precisa entender se a caneta vai trazer mais benefícios do que prejuízos, e o quanto é possível lidar com os efeitos adversos.” Porque nem toda perda vale a pena.