Aos 46 anos, Cauã Reymond não fecha a porta para a possibilidade de aumentar a família. Em entrevista recente, o ator, que é pai de Sofia, falou sobre o desejo de ter outro filho. A declaração traz à tona uma questão que costuma receber menos atenção quando o assunto é planejamento reprodutivo: existe uma idade-limite para que um homem possa ser pai? A resposta é diferente daquela observada na fertilidade feminina. Homens não passam por uma menopausa e, em geral, continuam produzindo espermatozoides ao longo da vida. Isso, porém, não significa que a capacidade reprodutiva permaneça igual com o passar dos anos. A idade pode estar associada a mudanças no sêmen e nos próprios espermatozoides, além de se somar a fatores ligados à saúde e ao estilo de vida. Por isso, um homem de 40, 50 anos ou mais pode, sim, se tornar pai. Não existe uma idade-limite biológica fixa equivalente à menopausa. Ao mesmo tempo, o avanço da idade paterna merece ser considerado quando um casal planeja uma gestação, sobretudo diante de dificuldades para engravidar ou de outros fatores de risco. A produção contínua de espermatozoides não impede que o envelhecimento provoque alterações no sistema reprodutivo. Entre as mudanças descritas na literatura estão redução do volume seminal, alterações na motilidade e na morfologia dos espermatozoides e aumento da fragmentação do DNA espermático. A idade paterna mais avançada também está associada ao aumento de novas mutações genéticas nos espermatozoides. Isso não significa, entretanto, que um homem mais velho necessariamente terá dificuldade para gerar um filho. As alterações variam de pessoa para pessoa, e os parâmetros do sêmen, isoladamente, não são capazes de determinar se alguém é fértil ou infértil. A avaliação precisa levar em conta o histórico clínico e reprodutivo do casal. Segundo o urologista Mark Neumaier, mestre e doutor com atuação em saúde masculina, a idade não funciona como uma barreira absoluta para a paternidade, mas pode influenciar aspectos relacionados à fertilidade. "Diferentemente da mulher, o homem mantém a produção de espermatozoides durante grande parte da vida. Isso significa que não existe uma idade-limite fixa para a paternidade masculina. No entanto, envelhecer também produz efeitos sobre o sistema reprodutivo. Com o passar dos anos, podemos observar alterações na qualidade seminal, na motilidade e em outros parâmetros relacionados aos espermatozoides. Por isso, um homem de 46 anos pode, sim, ser pai, mas a avaliação individual é importante quando existe o desejo de uma nova gestação", afirma. A idade paterna também entra na conta Durante muito tempo, as conversas sobre fertilidade tardia se concentraram quase exclusivamente nas mulheres. A idade do homem, porém, também faz parte da equação. A Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) afirma que a chamada idade paterna avançada está associada a algumas alterações no sêmen e a um aumento de determinados riscos para a gestação e para a saúde dos filhos. Ainda assim, a entidade ressalta que o risco absoluto para cada criança permanece baixo. A especialista em reprodução humana Rosaly Bustelo Saab explica que não faz sentido analisar a idade do homem de maneira isolada. "A idade paterna é um dos fatores que devem ser considerados quando um casal decide engravidar, mas ela não deve ser analisada isoladamente. É preciso avaliar a saúde geral do homem, o histórico reprodutivo, os hábitos de vida e, principalmente, as condições reprodutivas da mulher. A fertilidade é uma questão do casal, e a investigação deve ser individualizada", destaca. A idade da parceira tem peso importante nessa avaliação. Segundo a ASRM, a idade feminina é o principal fator isolado relacionado à fecundidade, e a redução da fertilidade com o avanço dos anos precisa ser considerada no planejamento. Quando vale investigar a fertilidade Para quem pretende ter filhos depois dos 40, uma consulta médica pode ajudar a identificar condições que eventualmente interfiram na capacidade reprodutiva. O espermograma é um dos exames utilizados nessa investigação e permite analisar características do sêmen. Quando há alterações, o especialista pode solicitar outros testes de acordo com o histórico de cada paciente. A avaliação também pode ser indicada antes mesmo de uma tentativa prolongada, especialmente quando existem fatores que merecem atenção. "Quando existe desejo de paternidade e há preocupação com a fertilidade, não é necessário esperar uma dificuldade aparecer para buscar orientação. Uma consulta pode avaliar fatores de risco, histórico clínico, medicamentos utilizados, hábitos de vida e indicar exames quando houver necessidade. O objetivo é entender como está a saúde reprodutiva daquele homem naquele momento", diz Dr. Mark. Há ainda aspectos que independem diretamente da idade. Tabagismo, obesidade, consumo excessivo de álcool, sedentarismo, algumas doenças, determinados medicamentos e outras exposições podem interferir na função reprodutiva masculina. Por isso, olhar para a saúde de forma ampla também faz parte do planejamento de uma gravidez. "A fertilidade masculina não depende apenas da idade. Sono adequado, alimentação equilibrada, atividade física, controle do peso, ausência de tabagismo e acompanhamento de doenças crônicas também são importantes. Por isso, quando um homem pretende ser pai mais tarde, cuidar da saúde como um todo também é uma forma de cuidar da saúde reprodutiva", acrescenta. E se a gravidez não acontecer naturalmente? Quando a gestação não ocorre, o próximo passo não é necessariamente partir direto para a fertilização in vitro. A estratégia depende dos resultados da investigação e das características de cada casal. Entre as possibilidades estão o acompanhamento do ciclo, a inseminação intrauterina e a fertilização in vitro, além de abordagens específicas em situações selecionadas. "A indicação depende de fatores como idade da mulher, tempo de tentativa, qualidade do sêmen, reserva ovariana e possíveis alterações encontradas na investigação", observa Rosaly. Em alguns casos, também podem ser considerados exames ou tratamentos relacionados à qualidade do material genético dos espermatozoides. A necessidade, porém, deve ser avaliada individualmente, e não determinada apenas pelo número de anos do futuro pai. "Não existe uma conduta única para todos os casais. Dependendo dos resultados da investigação, podemos optar por acompanhamento da ovulação, inseminação intrauterina ou fertilização in vitro, entre outras estratégias como tratamentos para redução da fragmentação do DNA espermático e testes genéticos para avaliação dos embriões em casos selecionados. A indicação depende de fatores como idade da mulher, tempo de tentativa, qualidade do sêmen, reserva ovariana e possíveis alterações encontradas na investigação", completa. Afinal, existe uma idade máxima? Não há um ponto específico a partir do qual um homem deixe biologicamente de produzir espermatozoides e, portanto, fique impossibilitado de ser pai. A realidade, contudo, é mais complexa do que simplesmente considerar a produção dessas células. Com o envelhecimento, alguns parâmetros seminais podem se modificar, enquanto determinados riscos associados à idade paterna aumentam. As evidências disponíveis não significam que uma gestação com um pai mais velho terá necessariamente complicações: a maior parte dos filhos de homens em idade paterna avançada não apresenta problemas de saúde relacionados à idade do pai. Para quem deseja ampliar a família mais tarde, a questão, portanto, não é estabelecer um número definitivo, mas entender o cenário individual. Histórico médico, qualidade do sêmen, hábitos de vida, idade da parceira e tempo de tentativa são alguns dos elementos que ajudam a orientar as decisões. "O mais importante é entender que paternidade tardia não significa necessariamente infertilidade. Homens na faixa dos 40, 50 anos ou mais podem ser pais. Mas, diante do desejo de uma nova gestação, especialmente quando existem fatores de risco ou dificuldade para engravidar, procurar avaliação médica permite tomar decisões com mais segurança e informação", conclui Dr. Mark.
Fertilidade masculina muda com a idade? Entenda o que acontece ao longo da vida
A produção de espermatozoides continua ao longo dos anos, mas o envelhecimento pode alterar sua qualidade e outros aspectos relacionados à saúde reprodutiva








