A América do Sul se tornou de direita?Eleições recentes pintaram o mapa da região de azul, indicando uma guinada à direita, mas o que está por trás disso?. Crédito: Edição: Ariel LiborioGerando resumoJavier Milei queria mais do que apoiar um amigo contra um rival em uma disputa presidencial quando subiu ao palco de Flávio Bolsonaro naquele 25 de julho, em São Paulo. O argentino buscava projetar sua imagem como o líder desta nova direita que tem vencido eleições na América Latina. Para ele, a arena internacional – seja com Flávio, nas Conferências de Ação Política Conservadora (CPAC) ou no Fórum Econômico de Davos – é como um telão para sua base mais ideológica e sem custos políticos, apontam analistas argentinos.PUBLICIDADEDepois da participação na convenção do Partido Liberal (PL) que oficializou a candidatura de Flávio à presidência, Milei participou da posse da presidente do Peru, Keiko Fujimori, e visitou Daniel Noboa no Equador. Na última semana, ele foi à posse de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, marcando presença em todas as posses de líderes de direita eleitos na região.O argentino também viaja constantemente aos Estados Unidos e a Israel – país palco de sua primeira visita como presidente – marcando uma guinada ideológica na política externa argentina.PublicidadeO presidente argentino Javier Milei com o presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, em Cali, em 7 de agosto de 2026, antes da cerimônia de posse Foto: Presidência da Argentina/AFP“A esfera internacional é muito importante para Milei e seus seguidores. Ele sempre faz questão de manter um perfil internacional e uma presença forte no cenário global, participando de forma relevante de fóruns como Davos e outros. Mas também é muito importante para ele construir redes dentro da ultradireita global”, explica Gabriel Vommaro, professor de Sociologia Política da Universidade Nacional de San Martín e pesquisador do Conicet (semelhante ao CNPq no Brasil).Devido à natureza radical de sua retórica e à sua personalidade excêntrica, ele se tornou uma espécie de campeão da ultradireita global. Para seus seguidores, esse reconhecimento global serve como prova de sua importância, de sua estatura intelectual e de sua relevância como líder político. É motivo de orgulho para seus apoiadores e eleitores, especialmente os mais radicais.Gabriel Vommaro, professor da Universidade Nacional de San Martín e pesquisador do ConicetMilei não esconde que tem favoritos nas eleições presidenciais da América do Sul, algo que quebra protocolos da diplomacia argentina. Ele comemorou a vitória de José Antonio Kast no Chile ano passado e desejou publicamente que seus referentes no Peru, na Colômbia e no Brasil seguissem o mesmo caminho. Na convenção do PL, o libertário foi a atração principal, roubando os holofotes até mesmo de Flávio.“Para Milei, importa muito a validação, principalmente a validação intelectual, isto é, o desejo de ser reconhecido como acadêmico”, complementa Juan Negri, diretor do Programa de Ciência Política da Universidade Torcuato Di Tella. “Ele valoriza a ideia de ser uma figura intelectual de referência para a direita. Daí o seu novo papel como força unificadora por trás da nova identidade de direita na América Latina.”PublicidadeMauro Enbe, internacionalista e professor na Universidade Torcuato Di Tella, explica que, além da personalidade excêntrica, Milei se sente o líder desta nova direita por ter sido um dos primeiros a ser eleito, ainda em 2023, quando a maioria dos países da região vivia uma tímida “onda rosa”. “Milei se vê como o líder, não do trumpismo, mas, nas próprias palavras dele, das ‘ideias de liberdade’”Ele foi uma das primeiras figuras a vencer em um dos maiores países da América Latina ao adotar essa postura de ‘nova direita’. Dado esse alinhamento direto com Donald Trump e a relação pessoal que ele mantém, parece-me que ele realmente se enxerga como um líder, especialmente considerando os outros que o seguiram e se beneficiaram de seu apoio. Mauro Enbe, internacionalista e professor na Universidade Torcuato Di TellaLula: o embate que beneficia a ambosPara Andrés Malamud, cientista político argentino e hoje pesquisador da Universidade de Lisboa, em sua busca se colocar como o referente do trumpismo na região, Milei ignora quem mais pode ameaçar a sua liderança: justamente o amigo Flávio Bolsonaro. “Não apenas a rixa entre Lula e Milei beneficia ambos, como também não é do interesse de Milei que Bolsonaro vença. Se Bolsonaro vencer, ele naturalmente se torna o grande expoente da direita latino-americana. Portanto, para Milei – mesmo que ele goste de Bolsonaro e, no fundo, queira a derrota de Lula –, uma vitória de Bolsonaro não atende aos seus interesses”, argumenta. Publicidade“E note que, ao tentar ajudar Bolsonaro, ele acaba prejudicando a própria causa, pois os brasileiros não veem com bons olhos um presidente argentino vindo fazer campanha para um candidato específico”, completa o pesquisador.Lula não foi o primeiro presidente com quem Milei entrou em embate direito. Antes, o argentino investiu contra o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e contra o então presidente da Colômbia Gustavo Petro, ambos de esquerda.Governo acha que Trump e Milei fazem dobradinha para tumultuar eleições e ajudar FlávioPara auxiliares de Lula, estratégia combinada inclui reforço do gabinete do ódio nas redes sociais para lançar dúvidas sobre urnas eletrônicas. Com o espanhol, a crise escalou depois que o argentino chamou de corrupta a mulher de Sánchez, Begoña Gómez, que era investigada por corrupção. Milei se recusou a pedir desculpas ao primeiro-ministro e a consequência foi a retirada do embaixador espanhol de Buenos Aires. O país ficou cinco meses sem embaixador até normalizar as relações.PublicidadePUBLICIDADECom Petro, as trocas de farpas foram muitas, até que em 2024 o argentino chamou o colombiano de “comunista assassino”, o que levou a protestos de Bogotá. A Colômbia convocou seu embaixador de volta e a situação só se revolveu meses depois.Nada a perderSegundo os analistas, Milei o faz porque tem a convicção de que não sofrerá represálias. É, na verdade, um jogo de ganha-ganha. Ele inflama seu eleitorado mais ideológico e fiel – que é cerca de 30% – que vê com bons olhos um embate com líderes de esquerda; não espanta eleitorado moderado, porque para eles o mais importante é a agenda econômica; e as relações comerciais e diplomáticas – aqui em termos burocráticos – seguem apesar das rupturas políticas.“Ele não perderá seu eleitorado por apoiar os Bolsonaro, José Antonio Kast ou a direita. Se ele chegar a perder sua base ideológica central — isto é, os eleitores que o escolheram por não quererem nenhuma outra opção —, isso se deverá a fatores econômicos, e não à política externa ou a quem ele decida apoiar”, opina Mauro Enber.PublicidadeNo momento, o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, foi convocado ao Brasil e não tem previsão de retornar à Argentina. O embaixador argentino, Daniel Raimondi, voltou domingo, 9, para Buenos Aires. Nada impede, porém, de as relações se normalizarem daqui alguns meses, como ocorreu com Espanha e Colômbia.O presidente da Argentina, Javier Milei, acena ao chegar para a cerimônia de posse do novo presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella Foto: LUIS ACOSTA/AFP“Nenhum dos três, Sánchez, Petro ou Lula, tinha interesse em escalar o conflito, pois nenhum deles têm interesse nacional em entrar em choque com a Argentina. Ciente disso, Milei cria uma desconexão: ele mantém a política externa – assinando um acordo Mercosul-UE como se fossem aliados próximos – ao mesmo tempo em que insulta justamente as pessoas com quem firma esses acordos. E essa desconexão joga a seu favor”, discorre Andrés Malamud.Para Milei, essa crise não representa um problema grave, pois não afeta investimentos nem o comércio, que são suas prioridades. De certa forma, essa dinâmica favorece ambos os lados: permite a Milei, como direitista, criticar a esquerda, enquanto os presidentes de esquerda se beneficiam ao serem alvo de um direitista de postura agressiva.Andrés Malamud, cientista político e pesquisador da Universidade de Lisboa.Ruptura na política externaCom seu jeito errático e a intenção de liderar um bloco de direita regional, Milei trouxe para a política externa Argentina um momento de ruptura dos governos anteriores, ao menos em termos retóricos. Publicidade“Os presidentes anteriores, independentemente de sua filiação política, respeitavam muito mais a forma como a diplomacia e a política externa são conduzidas”, afirma Mauro Enbe. “Eles eram muito mais formais e, acima de tudo, evitavam confrontos com nações aliadas economicamente, como é o caso do Brasil. Algo com que Milei simplesmente não se importa.”Ele repete Mauricio Macri ao se voltar mais aos Estados Unidos à União Europeia do que ao Sul Global, mas o faz de forma mais personalista. “A abordagem de Milei envolve muita grandiloquência. Não se trata mais apenas de se alinhar à União Europeia ou aos Estados Unidos; trata-se do ‘Ocidente’. Tudo gira em torno do anticomunismo”, afirma Juan Negri. “Também há o componente trumpista, ou seja, uma política externa menos institucionalizada, mais ligada a contatos individuais e mais voltada para os negócios.”O principal sinal de uma postura mais ideológica está nas purgas que o presidente promove no Ministério de Relações Exteriores de tempos em tempos. Em uma dessas, caiu a chanceler Diana Mondino depois de uma votação na ONU a favor de Cuba que desagradou a Milei.PublicidadeA política externa, na verdade, se tornou o palco ideal para o que Milei chama de “guerra cultural”. Segundo ele, existe uma batalha de narrativas entre a esquerda e a direita – e esquerda estaria ganhando por ser mais unida, por isso a direita precisa formar uma rede para lutar pela “liberdade”. Nessa batalha, toda a esquerda mundial está contra ele e sua agenda de reformas libertárias, a qual ele defende sozinho – a batalha bíblica de Davi e Golias. Foi sob essa ótica que o argentino acusou Brasil, México e o Partido Democrata americano de financiarem uma “campanha anti-argentina”. “Acredito que Milei e seu círculo mais próximo de intelectuais têm plena consciência da importância central da guerra cultural. É aí que Milei investe recursos, tempo e esforço. Para ele, a guerra cultural é, essencialmente, uma guerra econômica”, explica Gabriel Vommaro, que pesquisa as redes de ultradireita na Argentina.Publicidade