Em março deste ano, Luiz Antonio Lopes, 63 anos, morador de Nilópolis, na Baixada Fluminense, entrou em contato com a assessores da senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) relatando que conhecia uma jovem de Alagoas que teria sido abusada pelo deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) e engravidado quando tinha 13 anos. Para entregar mais detalhes da suposta denúncia, a testemunha pediu dinheiro para a parlamentar. A história foi compartilhada por Soraya com o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ). Na ocasião, o deputado do PL vivia um embate com governistas na comissão sobre o filho mais velho do presidente Lula, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Aliados do Palácio do Planalto tentavam blindar o primogênito da apuração, enquanto o relator queria investigá-lo — ele pediu a prisão e o indiciamento de Lulinha no relatório final, que foi rejeitado pelo colegiado. Com o clima acirrado, a acusação contra o relator veio à tona na manhã de 27 de março, dia em que o documento com as conclusões da comissão foi apresentado. Gaspar foi interrompido no início de sua fala por parlamentares petistas, que consideravam que ele estava propositalmente demorando a começar a ler o relatório. Lindbergh disse que não iria “perder tempo” e ouviu uma provocação de Gaspar: “Deputado ‘Lindinho’, não estamos falando de Odebrecht. Calma”, afirmou o relator, em referência ao apelido do petista na planilha da empreiteira encontrada na Operação Lava-Jato. “Seu estuprador”, reagiu Lindbergh. Houve tumulto na sessão e troca de acusações em entrevistas fora do plenário. No mesmo dia, Soraya e Lindbergh encaminharam ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, um pedido de investigação sobre o caso. O documento de seis páginas diz que os dois parlamentares tiveram acesso a “informações graves, acompanhadas de registros documentais e conversas que serão apresentados em anexo, indicando, em tese, a prática do crime de estupro de vulnerável”. O caso teria ocorrido há oito anos. Soraya disse a interlocutores que o denunciante pediu dinheiro para dar mais informações, o que interrompeu as conversas. No dia seguinte, Gaspar compartilhou um vídeo em que uma mulher nega ser sua filha e diz que o pai é um primo do deputado. A senadora disse nas redes na ocasião que a mulher apresentada pelo deputado não é a suposta vítima do estupro. A PF levou o caso ao Supremo Tribunal Federal (STF) e, na semana passada, o ministro Gilmar Mendes, relator na Corte, determinou que a senadora preste mais informações. Ela terá 15 dias para fornecer mais elementos da denúncia que recebeu de Lopes. A Procuradoria-Geral da República (PGR) ainda aguarda esclarecimentos para decidir se vai concordar com o pedido de abertura de inquérito feito pela PF. A decisão final é de Gilmar. O comerciante Luiz Antônio Lopes, que apresentou versões opostas sobre o caso de estupro — Foto: Reprodução Gaspar contesta as acusações, pediu ao STF que determine um exame de DNA e entrou com processos no Supremo contra Lindbergh e Soraya por calúnia. Aliados de Flávio manifestaram preocupação com a repercussão do caso, já explorado pelo PT nas redes sociais. — Estou implorando para que haja um DNA. O meu material está à disposição há cinco meses da Justiça. A minha verdade não interessa, o que interessa é a verdade científica — afirmou Gaspar na semana passada. Depoimentos à Polícia Legislativa Dezoito dias após o suposto caso de estupro de vulnerável vir à tona na CPI do INSS, o caso ganhou um novo capítulo. Uma assessora de Gaspar na Câmara prestou um depoimento à Polícia Legislativa no dia 14 de abril e disse que recebeu uma ligação em que Luiz Antonio Lopes afirmava ter conhecimento de uma “armação” para imputar o crime de estupro a Gaspar. Uma semana depois, a assessora depôs novamente e afirmou que o comerciante havia ligado outra vez e dado mais detalhes sobre pagamentos que teriam sido feitos para os envolvidos na suposta articulação para incriminar o relator da CPI do INSS. Trecho do depoimento da assessora de Gaspar — Foto: Editoria de Arte No mesmo dia em que a assessora forneceu novas informações, Lopes prestou depoimento à Polícia Legislativa por meio de videoconferência. Ele apresentou uma versão diferente da que havia prestado inicialmente ao gabinete de Soraya e que fez o caso chegar ao STF. A testemunha afirmou que uma jovem chamada Marcela, que prestou serviços no quiosque de sorvetes de que era dono em um shopping na Zona Norte do Rio, foi cooptada por Lindbergh e por um assessor do petista para se passar por “Jailma”. De acordo com o depoimento, ela seria “preparada para conceder entrevista sob identidade falsa”, afirmando ser de Maceió e ter sido abusada por Gaspar na adolescência. Comerciante apresenta nova versão em depoimento sobre Gaspar — Foto: Editoria de Arte Lopes acrescentou que a própria conta bancária foi usada para receber valores supostamente viabilizados por um assessor que seria ligado a Lindbergh, em um total de R$ 16.500. Ele apresentou dois comprovantes Pix: um de 14 de fevereiro, de R$ 10 mil, e outro de 28 de março, de R$ 2.500. Peça-chave em denúncia de suposto estupro de vulnerável envolvendo vice de Bolsonaro O trabalhador rural Pedro Villar Maldonado, autor do Pix de maior valor, disse que não conhece Lopes. Já o aposentado Sergio Machado de Azevedo, responsável pelo menor repasse, negou conhecer o denunciante e não deu detalhes da transferência. — Deve ter sido alguém que pediu para transferir, que não tinha dinheiro. Não tenho detalhes disso e não recebi nada da Polícia Legislativa. Melhor aguardar que eles me convoquem — afirmou por telefone. Procurado, Lindbergh negou ter participado de qualquer armação e disse que chegou a encaminhar áudios de Lopes à PF, relatando a existência da jovem, para que se investigasse o suposto estupro de vulnerável. — Nós tínhamos áudios, então havia a obrigação de entregá-los para a PF. Não sou eu que vou ter que provar isso. Tem uma menina mesmo na história, mas não estamos conseguindo localizá-la mais. E esse cara (Lopes) é um picareta. Vivia vendendo a história e de uma hora para outra vai para o lado do Gaspar — disse Lindbergh. Uma semana depois de prestar depoimento como testemunha, em 30 de abril, Lopes se filiou ao PL, mesmo partido de Flávio e Gaspar. Presidente do diretório do PL em Nilópolis, Dean Carlo Senra disse que não sabe quem é o comerciante: — Não conheço. Ele pode ter feito a filiação pela internet. Sem apresentar provas Na semana passada, após o deputado do PL ser anunciado vice de Flávio, Lopes disse ao GLOBO ter provas da denúncia de estupro levada ao gabinete de Soraya, mas não as apresentou. Ele enviou prints de uma tela de WhatsApp mostrando áudios enviados para uma assessora de Gaspar, em 23 de abril, data em que ambos prestaram depoimentos à Polícia Legislativa. Por telefone e em mensagens enviadas à reportagem, Lopes disse ter se aproximado da jovem, que ele chama de “Jailma”, quando ela chegou ao Rio, há oito anos. De acordo com esta versão, ela foi acolhida por sua família, e hoje vive com o seu sobrinho numa chácara em Tombos, no interior de Minas Gerais. O comerciante disse, sem apresentar provas, que a propriedade teria sido comprada com dinheiro enviado por Gaspar. A reportagem visitou o local indicado por Lopes, mas moradores da região dizem que não conhecem a suposta vítima. Área rural de Tombos (MG), onde viveria a suposta vítima de Gaspar, segundo comerciante — Foto: Alexandre Cassiano Após o depoimento de Lopes à Polícia Legislativa ser encaminhado ao STF na segunda-feira, o comerciante voltou a sustentar a versão de que reúne provas sobre o suposto caso de estupro, mas seguiu sem apresentá-las. — Não tenho idade para mentir, mas prefiro me eximir de tudo isso. Que cada um carregue a sua cruz. Já vi muita coisa, e a corda sempre arrebenta do lado do mais fraco. Tenho provas de tudo que eu falo. Não só provas verbais, mas com embasamento — disse Lopes ao GLOBO. Lopes já foi alvo de um processo movido por um empresário que o acusou de calúnia por ter denunciado, sem provas, que uma suposta falsificação de assinatura em uma alteração do contrato social de uma empresa. Lopes fez a acusação em declaração apresentada em cartório em 2024, mais de 23 anos após o suposto episódio. Em vídeos divulgados nas redes sociais, ele se apresenta como “Mohamad Lopes”, diz ser “instrutor de tiros com armas de grosso calibre” e afirma fazer “manutenção e montagens de armas”. Ele também relatou ter ido com amigos a Brasília no dia dos atos de 8 de janeiro de 2023 que depredaram as sedes dos Três Poderes e fez ataques ao ministro Alexandre de Moraes e parlamentares de esquerda, como o próprio Lindbergh. Em um post, disse que pode ocupar uma vaga no Gabinete de Segurança Institucional (GSI) em um eventual governo de Flávio Bolsonaro.