Campanhas eleitorais são imprevisíveis, e podem condicionar fortemente os governos que delas saem. No Brasil, o tópico do ajuste fiscal estrutural tende a ser visto como "kryptonita" eleitoral, já que mexe com vacas sagradas como a indexação do piso previdenciário e do BPC ao salário mínimo (que aumenta em termos reais) e a correção dos gastos com saúde e educação, hoje atrelados à evolução da receita.PUBLICIDADEO cenário é bem conhecido do brasileiro. Candidatos "acusam-se" mutuamente de pretender fazer o ajuste estrutural mexendo naqueles temas tabus. Tipicamente, se a pecha pega num determinado candidato de que tem a intenção de repensar a indexação do piso previdenciário e de programas sociais ao mínimo, ou de racionalizar a trajetória da despesa com saúde e educação - sendo, assim, "contra os pobres" -, seus números nas pesquisas despencam e ele ou ela se inviabilizam eleitoralmente.O desenvolvimento da campanha, no entanto, pode colocaressas questões econômicas menos ou mais no centro do palco.Em 2014, a campanha de Dilma Rousseff acusou a candidata Marina Silva de pretender tirar a comida da mesa do trabalhador por defender a independência do Banco Central; e Aécio de intencionar fazer o ajuste que a própria presidente reeleita tentou realizar chamando o superfiscalista Joaquim Levy para o Ministério da Fazenda.O resultado desastroso do cavalo de pau entre a campanha e o segundo mandato de Dilma materializou-se na forma do derretimento quase instantâneo da popularidade da presidente, ferindo de morte a governabilidade e levando ao impeachment em 2016.PublicidadeJá em 2022, um dos motes importantes da campanha de Lula foi de que Bolsonaro tinha uma política de destruição do Estado, cuja faceta financeira era o estrangulamento de recursos patrocinado por Paulo Guedes. Adicionalmente, Bolsonaro penalizou os pobres, ao não reajustar em termos reais o salário mínimo, e o funcionalismo, ao manter os níveis nominais dos salários em boa parte do setor público federal.Uma campanha nesse estilo engendrou um compromisso com o eleitorado e o sistema político de levar a cabo um grande aumento do gasto, que veio com a PEC da Transição e mais de R$ 150 bilhões adicionados à despesa pública.Lula inverteu o ciclo político e iniciou seu mandato com o pé no acelerador do gasto. A aposta parece ter dado certo, com a ajuda do esforço de aumento da receita tributária empreendido por Fernando Haddad. Há menos de dois meses do primeiro turno, Lula mantém o favoritismo, mas num quadro ainda de eleição apertada.A grande pergunta, porém, é que tipo de governo a partir de 2027 a campanha deste ano vai condicionar. É possível alimentar um moderado otimismo com a notícia de que Lula deve reforçar o compromisso com a estabilidade fiscal e o controle da inflação no seu programa junto ao TSE, conforme matéria de Gabriel Hirabahasi e Célia Froufe, da Agência Estado.Lula está competindo este ano praticamente só com candidatos de direita que, em tese, seriam mais propensos à austeridade fiscal. Além disso, a pauta eleitoral parece que vai ser tomada prioritariamente por temas como criminalidade e valores. Há ainda o fato de que a candidatura de Flávio Bolsonaro vai se mostrando repleta de fragilidades, o que pode sugerir ao campo petista que talvez - pelo menos por enquanto - não seja preciso repetir a estratégia de terra arrasada que levou à reeleição de Dilma.PublicidadeO período eleitoral mal começou e campanhas, como apontado no início desta coluna, costumam ser imprevisíveis. A sinalização de compromisso com a responsabilidade fiscal por parte do principal candidato, porém, é um bom augúrio.Fernando Dantas é colunista do Broadcast e escreve às terças, quartas e sextas-feiras (fojdantas@gmail.com)Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 7/8/2026, sexta-feira.Vale ler tambémO privilégio silencioso de quem tem poder dentro das empresasInflação volta a ficar abaixo do teto da meta, mas BC não dá pistas sobre novos cortes de jurosGênio da lâmpada: IA interpreta literalmente o que pedimos, sem levar em conta o que achamos óbvio
Opinião | Que tipo de governo esta campanha eleitoral vai condicionar?
Ajuste fiscal estrutural é tabu eleitoral no Brasil. Mas sinais de Lula reforçando compromisso fiscal no programa ao TSE dão algum ânimo num pleito dominado por segurança e valores.










