“Eu sou assim. Sempre fui. Quem não se adapta, problema da pessoa.”PUBLICIDADEVocê já ouviu alguma versão disso. Talvez com outras palavras. Talvez sem palavra nenhuma, só no comportamento.Repare que a frase quase sempre chega como credencial. Quem fala está se apresentando bem. Está dizendo que é coerente, que não finge, que você sabe com quem está lidando. Por isso é tão difícil contestar em reunião. Discordar de um comportamento é possível. Discordar de “eu sou assim” parece discordar da pessoa.Boa parte do meu trabalho, em quase 20 anos, é sentar na frente de executivos que estão pensando em sair. É um momento raro, porque a pessoa fala sem filtros. Não está negociando nada com quem fica. Eu pergunto por que ela quer sair e, quase sempre, a conversa chega em alguém que nunca entendeu como ela funcionava. Já ouvi as duas pontas da mesma história em semanas diferentes. Primeiro o gestor, orgulhoso de ser justo porque tratava todo mundo igual. Depois, o profissional que ele tinha acabado de perder, resumindo anos de convivência em uma frase: ele nunca entendeu como eu funcionava.E esse gestor não era um monstro. Era um sujeito orgulhoso de ser coerente.PublicidadeLeia tambémSe você acha que política corporativa é bajulação, você já perdeuTer razão pode estar destruindo a sua carreiraAgora repare em outra coisa. Essa frase só funciona de cima para baixo. Quando um diretor diz que é assim, ele é sincero. Tem personalidade. É dono do próprio estilo. Quando um analista diz exatamente a mesma coisa, ele é difícil de lidar, não quer se desenvolver, tem problema de relacionamento, e aquilo entra no ciclo de avaliação e nos feedbacks. A frase é idêntica. O que muda é o cargo de quem fala. O direito de não se adaptar é distribuído por hierarquia. Quem tem poder declara como é. Quem não tem, descobre como precisa ser.O líder que se blinda no “eu sou assim” está liderando os fantasmas do próprio passado. Ele sobreviveu a um gestor duro lá atrás e concluiu que dureza forma gente. Como se virou sozinho, acha que ajuda atrapalha. E, como gosta de sinceridade brutal, parte do princípio de que o resto do mundo também gosta.Tem uma variação dessa frase que soa mais generosa e engana mais gente ainda: “eu sou o líder que eu gostaria de ter tido.” Ele decidiu sozinho, lá atrás, o que teria sido bom para ele, e aplica em todo mundo sem perguntar se serve. É o mesmo mecanismo, só que com verniz melhor.Isso normalmente não é má-fé. Ele só tem um caso como referência: a própria carreira. É a única que acompanhou por dentro, do começo ao fim, mas nunca fez o teste mais importante: separar o que deu certo por causa do jeito dele do que deu certo apesar desse jeito. Com um caso só, esse teste não existe. Só existe a conclusão fácil. O que era contexto vira método.A adaptação acontece de qualquer jeito. O que muda é quem faz o esforço. Se o líder não se ajusta a ninguém, o time inteiro se ajusta a ele. E isso vira um esforço enorme. Parte do expediente das pessoas passa a ser prever o gestor. Saber a que horas falar com ele, em que humor está, se deve mandar um e-mail ou esperar a reunião de segunda. O que é melhor não perguntar hoje. Conheci uma analista que sabia o humor do diretor pelo jeito que ele pendurava o paletó na cadeira. Rimos disso na época. Hoje eu penso na quantidade de talento gasto nessa meteorologia. Esse esforço não entra em relatório nenhum e não produz nada.PublicidadeLíder que se blinda no “eu sou assim” está liderando os fantasmas do próprio passado Foto: atipong - stock.adobe.comTem um agravante quando, além de rígido, o gestor é imprevisível: o time não tem uma regra fixa para seguir, só um alvo que se move o tempo todo. Um estudo publicado no Academy of Management Journal encontrou algo contraintuitivo: variar entre tratamento justo e injusto pode gerar mais estresse do que um tratamento consistentemente ruim. A previsibilidade, mesmo quando ruim, permite que a pessoa se prepare. A inconsistência tira isso dela.PUBLICIDADEMas tem um ponto importante aqui. Existe líder de personalidade forte que entrega resultado, numa fase de virada em que alguém direto e claro é exatamente o que o negócio precisa. Isso também é verdade. O que eu observo é que a conta desse líder costuma chegar atrasada. Ela aparece dois anos depois, quando ele perde três pessoas boas em seis meses e ninguém consegue explicar direito o motivo. Ou na hora da sucessão, quando a área dele não formou ninguém para assumir. E aqui entra a distinção que quase nenhum líder faz.O que precisa valer igual para todo mundo é o critério. O que se espera, o que é inegociável, o que define se o trabalho ficou bom. Isso não se ajusta por pessoa. Se você exige excelência de um e releva do outro porque o outro é mais simpático, você está sendo injusto, e o time percebe antes de você.O que varia é a dose. A frequência com que você acompanha. O tom com que você cobra. O quanto você chega perto ou dá espaço. Justiça exige consistência no critério, não uniformidade no tratamento.PublicidadeAjustar a dose costuma dar mais trabalho do que manter o mesmo tom com todo mundo. É acompanhar de perto o executivo sênior que você acabou de contratar, aquele que todo mundo assume que sabe se virar porque tem 20 anos de estrada. Vejo essa cena o tempo todo: ninguém explica nada para ele, porque explicar pareceria ofensa, e seis meses depois a contratação naufraga. Dá trabalho também na conversa com o melhor técnico do time, quando você diz com clareza que ele não vai virar gestor e explica o motivo, em vez de promover e deixar que descubra sozinho. E aparece quando você percebe que alguém está passando do limite, mesmo entregando muito, e precisa frear justamente quem está dando resultado.Você não precisa mudar de personalidade para isso. Seus valores continuam os mesmos. O que precisa cair é a exigência de que o time inteiro funcione do jeito que funciona com você.Da próxima vez que você pensar “eu sou assim”, faça uma pergunta antes: quanto do tempo do seu time hoje é gasto tentando te decifrar? Se você não souber responder, o custo já existe. Ele só está sendo pago por outra pessoa.Vale ler tambémInflação volta a ficar abaixo do teto da meta, mas BC não dá pistas sobre novos cortes de jurosGênio da lâmpada: IA interpreta literalmente o que pedimos, sem levar em conta o que achamos óbvioRefinanciamento da Alloha alerta para dívida de provedores de internet