Há um tipo de arrogância que sobrevive porque parece educação.PUBLICIDADEA pessoa não interrompe, não humilha ninguém em público. Escuta com atenção, faz cara de quem está pensando, até agradece o comentário. Só que, por dentro, já decidiu antes de a conversa começar.Você conhece alguém assim. O problema é que essa pessoa também pode ser você.Eu já fui esse colega. Em algumas reuniões, ainda sou. Depende do dia, do assunto, do humor e de quem está do outro lado da mesa. É por isso que escrevo sobre ele.Sua vontade de estar certo não pode ser maior que a sua vontade de buscar o certo Foto: The 2R Artificiality/Adobe StockA arrogância que todo mundo reconhece é a barulhenta: o sujeito que fala alto, se acha dono da verdade, trata os outros com desdém. Essa as pessoas percebem, porque aparece. A outra é mais perigosa justamente porque aprendeu bons modos. Parece convicção, preparo, experiência. Por isso ninguém corrige. Conheço reputações sólidas que foram morrendo assim, aos poucos, de tanto o dono ficar impossível de corrigir.PublicidadeO que alimenta essa arrogância tem nome simples: vontade de estar certo. Ganhar a discussão, sair da sala com razão, dá uma satisfação difícil de admitir. Dá sensação de inteligência, de controle. Só que essa satisfação cobra um imposto.Eu canso de ver esse fenômeno em entrevistas, e os estudos de Ilan Yaniv sobre aconselhamento explicam por quê: as pessoas costumam dar menos peso ao conselho dos outros, mesmo quando aceitar esse conselho melhoraria a decisão. O motivo é quase banal. A sua ideia vem com bastidor, intenção, contexto, justificativa. A do outro chega só como frase. Por isso ela parece mais fraca do que é. No fim, a pessoa piora a própria decisão para continuar dona dela.Talvez por isso uma das melhores estratégias de influência seja ajudar o outro a reconhecer a decisão como dele. Há uma vaidade humana básica em jogo: quase ninguém gosta de sentir que foi convencido. As pessoas aceitam melhor uma ideia quando conseguem contar a si mesmas que chegaram lá por conta própria.Toda conversa vencida tem um custo: a informação que você recusou receber. Às vezes a conta é pequena, uma ideia melhor que você ignorou. Às vezes é cara: um talento que para de discordar, um sócio que se cala, um filho que desiste de explicar.Um jeito simples de perceber isso em você: observe a primeira reação quando alguém discorda. Curiosidade ou defesa? Repare também se as suas perguntas querem aprender ou só procurar brecha no argumento. E, se, no fim da conversa, você sai com uma dúvida nova ou apenas com a mesma certeza, agora melhor argumentada.PublicidadeE o custo sobe com o cargo. Quanto mais alto você chega, menos gente se dispõe a corrigir você. O problema é que silêncio em volta costuma parecer validação. A pessoa confunde ausência de confronto com acerto.PUBLICIDADENo Brasil, há um agravante. Aqui, muita gente ainda confunde respeito com silêncio. O gestor que precisa ter razão encontra gente concordando em volta, mesmo quando a sala inteira já percebeu o problema. E silêncio não corrige ninguém. O erro desse gestor vira política interna, protegido pelo cargo, até o dia em que a conta aparece.Leia tambémComo vencer a síndrome do impostor sem virar arrogante? Conheça o método científico usado por CEOsSenioridade não cura imaturidade no trabalhoO mecanismo segue você para fora do escritório: o almoço de família em que você já decidiu antes de ouvir, a discussão de casal virando tribunal, o grupo de WhatsApp onde responder importa mais do que entender. A forma muda. O motor é o mesmo: a pessoa não está ali para descobrir nada. Está ali para vencer.Tenho um caderno antigo com frases que ouvi e das quais discordei na hora. Na reunião, eu tinha certeza de que o outro estava errado. Meses depois, relendo aquelas anotações, descobri que em metade delas quem estava errado era eu. A outra metade eu prefiro acreditar que não.PublicidadeNão estou dizendo que você precisa concordar com tudo. Gente sem posição também não constrói nada. Defender ideia é parte do trabalho, e ninguém cresce sem sustentar o que pensa. O problema começa quando defender a ideia fica mais importante do que descobrir a verdade.Sua vontade de estar certo não pode ser maior que a sua vontade de buscar o certo.Aquele colega do começo provavelmente vai ler esta coluna e concordar com tudo. Capaz até de mandar para alguém, pensando naquela pessoa que precisa ler. É assim que essa arrogância sobrevive: o dono nunca acha que o texto é sobre ele.