Todos os anos, no outono, quando as temperaturas começam a cair, um passarinho começa também uma longa jornada. Medindo cerca de 20 centímetros de comprimento, o bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus) foge do frio das regiões Sul e Sudeste do país e voa milhares de quilômetros em direção à floresta amazônica, aproveitando o calor tropical.

A migração do bem-te-vi é uma das mudanças de hábitos que o inverno provoca nos animais brasileiros. Mesmo sem as paisagens cobertas de neve típicas do clima temperado, a estação derruba termômetros em boa parte do país, além de alterar padrões de chuva.

"Em regiões tropicais e subtropicais, as alterações ocorrem no movimento e na dieta. Os animais modificam o consumo de alimentos dependendo da disponibilidade sazonal", explica o pesquisador Roberto Fusco, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.

No caso das aves, apenas cerca de 10% das espécies brasileiras migram —pouco na comparação com outras regiões do planeta, segundo o ornitólogo Marco Aurélio Pizo, professor na Unesp de Rio Claro, em São Paulo. Algumas vêm do sul do continente americano em direção ao Sudeste do Brasil, mas a maior parte tem uma movimentação semelhante à do bem-te-vi-rajado.