Eu não sabia que era biofílica. Pássaros me transmitem paz e bem-estar. Mesmo em ano eleitoral 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A saíra-sete-cores é o pássaro mais estonteante, com um tom turquesa que parece IA. E adora mamão — Foto: Ruth de Aquino Não há pets mais independentes que os meus. Não posso chamá-los de domésticos, não temos uma relação de dependência, apenas amor e assombro. Só moram comigo de dia. Eu os alimento. E eles me alimentam de volta, com beleza e música. Um privilégio, num momento em que somos bombardeados com as ameaças de um ciclone extratropical e as pesquisas Quaest. Aprendo com a personalidade de cada pet. Com o som e as cores de cada um. A confiança mútua estabelecida, não fogem, ninguém se sente ameaçado. São outros PETs que me metem medo. Os Políticos ExtraTerrestres. É só escutar Renan Santos que dá vontade de fugir para outro lugar, baby. Meus pets voam. De manhã, me chamam com cantos, trinados, assobios, gemidos, estridentes ou graves, longos ou curtos. Exigem, na algazarra, a água rosada com néctar (nunca açúcar, faz mal). Disputam o mamão. A banana. Já tive cachorro em Teresópolis, o Brown, era um vira-lata metido a perdigueiro. Já tive um gato preto de olho verde em Londres, e o batizei de Gato, nome exótico para os ingleses. Descobri só agora os benefícios do birdwatching. Em bom português, a observação de pássaros. Que é muito mais do que o nome sugere. Observação remete a passividade. Mas, para conquistar as aves, não basta olhar. É preciso estudar os costumes e escutar. Descobrir quem está cantando. Para isso existem apps, e o Merlin Bird é o melhor e gratuito, do Cornell Lab. Você treina o ouvido. Eu tinha uma orquestra e não sabia. Imaginar que vivi 30 anos neste apartamento sem desconfiar que eles eram tantos e viviam tão perto. Fico feliz por não estarem presos. Não saberia conviver com gaiolas. O visitante mais animado é a cambacica, que parece miniatura de bem-te-vi, ela vem em grupos alvoroçados, como adolescentes em férias. O mais arisco é o beija-flor, que chega zumbindo, como se a varanda lhe pertencesse, batendo as asas até 90 vezes por segundo. A mais hipnotizante é a saíra-sete-cores, com um tom de turquesa que parece IA. É como um arco-íris em formato rechonchudo. O mais fofo e viciado em mamão é o sanhaço, e eles são muitos. Os meus favoritos são o cinzento azulado e o sanhaço-do-coqueiro, verde oliva. Com os bicos, deixam trilhas simétricas nas frutas. Há outros que não considero meus pets, e sim visitantes esporádicos. O sabiá-laranjeira é um. Outros são o suiriri, periquito, tiê-sangue. Esses eu não crio. Conheci um observador e fotógrafo de pássaros, João Quental, e com ele aprendi que binóculos mais potentes não são os melhores porque nos perdemos no zoom. João viaja atrás de pássaros. Cuba, Panamá, Costa Rica, África do Sul, Gana foram destinos recentes. Enquanto escrevo, está nos Andes na Bolívia. Já registrou mais de 3 mil espécies no Brasil e no mundo. Publicou livros. Formado em Letras, descobriu o gosto quase por acaso, numa viagem à África com a mulher Raffaella. “Esse é o momento em que a atividade vira vício. Você começa a ver os livros, e começa a ver o que não viu. Começa a pensar em voltar para fotografar o que não fotografou. Aos poucos, se dá conta de que existem aves também na sua cidade, e que não é preciso ir à África para fotografá-las”. O Estado do Rio tem mais de 800 espécies de aves. A Europa inteira tem 540. A cidade do Rio é a maior metrópole de aves do mundo. É um pecado não aproveitar. “O contato com a Natureza combate o estresse e a depressão. A ciência chama isso de biofilia. O Rio é biofílico e nem sabe”, diz Henrique Rajão, professor de Biologia na PUC e guia de passeios mensais de birdwatching no Jardim Botânico. Eu também não sabia que sou biofílica. A Natureza ensina. Plantas e pássaros me transmitem paz. Mesmo em ano eleitoral.