Primeira exposição do arquiteto brasileiro no país que mais construiu neste século marca encontro do modernismo com modernidade 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Shenzhen Bay Culture Square, onde a exposição sobre Niemeyer terá sua segunda temporada na China, em abril de 2027 — Foto: Divulgação O arquiteto que redefiniu os contornos do modernismo está prestes a chegar ao país que desafia os limites da modernidade. Oscar Niemeyer jamais pôs os pés nem tem obras na China. Talvez por isso, a primeira exposição de sua obra no país esteja sendo antecipada num nível particular de ansiedade. Por trás da expectativa, está a inspiração que craques do ramo veem como o seu traço inconfundivel: a liberdade de ousar. É um grupo estrelado. Entre os admiradores de Niemeyer está Liu Jiakun, vencedor do Pritzker de 2025, maior prêmio da arquitetura mundial. Conhecido pela fidelidade a seus princípios humanistas, Liu não imita o “estilo único” do brasileiro, como ele o define. Mas tira lições de “seu modo de pensar”. Niemeyer “expandiu a arquitetura moderna a uma nova dimensão, deu-lhe uma imagem poética, romântica e graciosa”, diz Liu. Catherine Benainous, diretora do projeto, começou a pensar na exposição em 2024, depois de trazer Gilberto Gil para um show histórico em Xangai. Para a produtora ‘franco-carioca’, era preciso mostrar aos chineses os grandes nomes do Brasil. Em meio aos percalços do caminho, o que facilitou o processo desde o início foi o prestígio do arquiteto brasileiro: — O nome do Niemeyer nos abriu todas as portas na China — conta. Prevista para dezembro em Pequim, a exposição “Oscar Niemeyer: uma utopia concreta para a China de amanhã” também serve para antecipar as comemorações pelos 120 anos de nascimento do arquiteto, em 2027. Após a capital chinesa, irá para a cidade de Shenzhen, a um museu projetado por um arquiteto que Niemeyer incluiu entre seus discípulos, Ma Yansong. É inevitável pensar no traço do brasileiro olhando as curvas do Shenzhen Bay Culture Square, um espetacular espaço de arte e lazer recém-concluído na cidade tida como o “Vale do Silício” da China. Ma conta que foi um dos cem jovens apontados como herdeiros por Niemeyer a receber uma carta dele quando completou cem anos. Hoje um dos mais renomados arquitetos chineses, ele destila o legado de Niemeyer em uma palavra. — Tudo sobre ele, sua história de vida, as escolhas que fez, é um tributo profundo à liberdade. E essa liberdade brilha em sua arquitetura — diz. A chegada de Niemeyer à China 14 anos depois de sua morte pode parecer extemporânea. Mas o timing é mais que oportuno. Se a China era um país fechado na época de seus trabalhos mais famosos — da sede da ONU (1947) a Brasília (1960) — , hoje é um playground para arquitetos de todo o mundo. No cálculo do historiador Adam Tooze, a China usou mais cimento entre 2011 e 2013 do que os Estados Unidos em todo o século 20. O embaixador André Corrêa do Lago, integrante do júri do Prêmio Pritzker e um dos curadores da exposição sobre Niemeyer na China, prevê que o evento será “uma espécie de descoberta, com o potencial de aumentar a consideração dos chineses pela cultura brasileira." Niemeyer nunca veio à China, mas a China foi até ele, lembra Zhao Pei, especialista em arquitetura latino-americana. Em 1963, Liang Sicheng, um dos pais da arquitetura chinesa moderna, que colaborou no projeto da ONU, foi visitar Niemeyer no Rio. Ainda que não haja projetos do Brasil na China e vice-versa, a conexão é antiga e se manteve, em grande parte graças a Niemeyer, afirma. — Todo estudante de arquitetura conhece Niemeyer. E Brasília permanece como um sonho de modernidade. Designer da exposição de Niemeyer na China, Gustavo Greco tem sentido “um frio na barriga" pela responsabilidade de apresentar um dos ícones da cultura brasileira ao público chinês. Mineiro de Belo Horizonte, sua relação com a obra de Niemeyer vem da convivência com o Conjunto Moderno da Pampulha, do qual seu escritório fez em 2014 a marca para sua candidatura a Patrimônio Cultural da Humanidade. Para Greco, trabalhar com a obra de Niemeyer tem sido inspirador pela capacidade de pensar sem limites e também pelo desafio de conciliar paradoxos. — Tenho gostado disso. Um paradoxo não é necessariamente uma contradição. Ali está o concreto e está a curva. O Brasil é um pouco isso, concorda? — diz.