Eleições nacionais passaram a integrar uma disputa global entre projetos políticos que atravessam fronteiras 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Americanos protestam contra Trump em frente as capitólio estadual do Texas — Foto: Brandon Bell/Getty Images via AFP Há muito tempo a democracia deixou de ser apenas uma questão interna dos países. Eleições nacionais passaram a integrar uma disputa global entre projetos políticos que atravessam fronteiras. De um lado, democracias que procuram preservar instituições, direitos e regras do jogo. De outro, uma extrema direita transnacional articulada, que compartilha estratégias, mobiliza redes de desinformação e busca influenciar processos eleitorais ao redor do mundo. O autoritarismo aprendeu a operar internacionalmente e hoje atua de forma coordenada para enfraquecer instituições democráticas. As fronteiras continuam existindo para os Estados, mas deixaram de existir para aqueles que pretendem corroer a democracia. O Brasil tornou-se terreno estratégico de uma disputa mundial. O resultado da próxima eleição interessará aos brasileiros, evidentemente, mas seus efeitos serão sentidos muito além do país. Quando o governo Trump anuncia um novo tarifaço contra o Brasil, estamos diante de uma ação política destinada a produzir instabilidade às vésperas do período eleitoral. Quando autoridades americanas afirmam que acompanharão atentamente nossas eleições, não fazem uma observação protocolar. Sinalizam que o processo eleitoral brasileiro passou a estar no centro da disputa política internacional. Não por acaso, senadores democratas do Comitê de Relações Exteriores dos Estados Unidos acusaram o governo Trump de promover teorias conspiratórias sobre o processo eleitoral brasileiro e advertiram que desacreditar eleições de outros países corrói a confiança na democracia e a própria credibilidade internacional dos Estados Unidos. Pela primeira vez, a defesa da integridade das eleições brasileiras tornou-se objeto de um embate político dentro das próprias instituições americanas. O governo Trump também decidiu associar o Brasil à prática de terrorismo, ampliando ainda mais o grau de tensão política e diplomática. O objetivo é reforçar um ambiente de deslegitimação que visa a ampliar a instabilidade e enfraquecer a confiança nas instituições brasileiras. Cresce também a mobilização de redes transnacionais da extrema direita para lançar dúvidas sobre a legitimidade do sistema eleitoral. O roteiro é conhecido. Primeiro, desacreditam as instituições. Depois, desacreditam o resultado. Se necessário, desacreditam a própria democracia. E, assim, se cria o terreno fértil para todo e qualquer tipo de instabilidade. Essa é a grande transformação do nosso tempo. As democracias já não são ameaçadas apenas por tanques nas ruas ou rupturas explícitas. São enfraquecidas lentamente pela combinação entre desinformação organizada, pressão econômica, ataques às instituições e erosão da confiança pública. O mundo inteiro reconhece que o Brasil tem um sistema eleitoral confiável. Mas acreditar que isso basta seria subestimar a natureza da disputa que enfrentamos. Nenhuma democracia está imune quando a ofensiva contra ela ultrapassa fronteiras. É justamente por isso que a defesa da soberania brasileira diz respeito a todos aqueles que compreendem que eleições livres constituem um princípio consagrado pela Declaração Universal dos Direitos Humanos como fundamento da legitimidade dos governos. Parlamentares, universidades, organizações da sociedade civil, imprensa e lideranças democráticas de todo o mundo precisam afirmar, com clareza, que a escolha do futuro do Brasil pertence exclusivamente aos brasileiros. Num mundo onde o autoritarismo aprendeu a agir internacionalmente, a democracia também precisa aprender a se defender de forma articulada. A soberania brasileira está em disputa porque, hoje, defender eleições livres em qualquer democracia é defender a própria ideia de democracia. *Rogério Sottili é diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog
Democracia tem de se defender
Eleições nacionais passaram a integrar uma disputa global entre projetos políticos que atravessam fronteiras









