Os responsáveis pela plataforma respeitam ordens judiciais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Jovem acessa a plataforma Discord no celular — Foto: Domingos Peixoto/Agência O Globo No último dia 22 de julho, uma menina de 13 anos foi encontrada morta em Naviraí, cidade em Mato Grosso do Sul. Ela tirou a própria vida numa transmissão ao vivo, por um servidor do Discord. Na semana seguinte, a primeira-dama Janja Lula da Silva pediu o banimento da plataforma do Brasil. É o tipo de frase que tem surgido com alguma frequência. O Discord, que sempre aparece nas notícias quando ligado a alguma atividade criminosa, começa a soar a gente demais como um ambiente do submundo. Não é. Mas existe uma razão para quem comete crimes o escolher para isso. O Discord é uma empresa pequena e privada, com sede em San Francisco, na Califórnia. Nasceu para atender a uma necessidade bastante particular de quem joga videogames on-line, acompanhado de amigos. Quem joga assim, noite adentro, vendo a mesma tela de jogo, precisa também conversar. A plataforma Discord oferecia uma solução. Não importa que jogo você esteja jogando, permite criar um ambiente de voz aberto para todos os jogadores conversarem, não importa em que canto do mundo estejam. Depois, a plataforma evoluiu. Ganhou espaço para conversas por chat, como num grupo de WhatsApp. Os assuntos podem ser organizados por tópicos, como em fóruns ou no Reddit. E é possível transmitir vídeo ao vivo. Mas, porque nasceu como plataforma para gamers, o Discord tem uma diferença de arquitetura grande para quem o compara a uma rede social. Quem entra no Facebook, no X ou no Instagram vê o mundo lá dentro. A maioria dos perfis é pública, e somos apresentados a uma imensa quantidade de conteúdo. O Discord, não. É baseado em servidores fechados. Cada um pode abrir um servidor gratuitamente. Só entra quem for convidado. Uma estrutura assim faz do Discord um bicho único na internet. Permite conversas como WhatsApp, permite transmissões ao vivo em vídeo como Instagram ou YouTube, mas apenas para quem foi convidado. A empresa se financia vendendo assinaturas — são duas modalidades, uma a US$ 3, a outra a US$ 10. Não oferecem muito. Os usuários podem usar uma gama maior de figurinhas para se comunicar numa, têm melhor qualidade de áudio e vídeo na outra. Isso faz dessa uma empresa bastante pequena para os padrões do Vale do Silício. A arquitetura impõe outra dificuldade: como cada servidor é fechado ao mundo, aberto apenas a quem tem acesso, moderar conteúdo se torna bastante mais complexo. Sim, esses ambientes privados tornam a plataforma atraente para quem deseja cometer crimes. Mas o comando da empresa não tem uma postura de confronto como Elon Musk, do X, ou Pavel Durov, do Telegram. Quando as autoridades os convocam, eles aparecem. Respeitam ordens judiciais. Sua dificuldade é de outra natureza. A plataforma cresceu muito, cresceu muito rápido e cresceu particularmente no Brasil. O país é o segundo em importância no Discord. Não cresceu apenas em razão de crime ou de jogos. Qualquer um que deseje montar uma comunidade sobre qualquer tema, de jogo de botão a criação de abelhas, descobrirá rapidamente que sua melhor opção a baixo custo é o Discord. Um sem-número de pequenas empresas, principalmente as com cultura digital, usa Discord como seu sistema de comunicação interno. A proibição geral da plataforma criaria um pesadelo instantâneo para incontáveis startups brasileiras. No Discord, não há algoritmo empurrando desinformação, não tem bilionário trumpista. Há um espaço de conversas, e essas conversas refletem quem deseja tê-las. São milhões se divertindo, trabalhando, explorando o mundo. Isso não quer dizer que o sistema do Discord não tenha pendências por resolver. As principais são duas. Primeira: controle maior de idade de quem está lá dentro — não é possível controle absoluto; afinal, adolescentes sempre encontram válvulas de escape, mas é possível controlar mais. E a outra: muitas plataformas são mais capazes de interromper as conversas entre crianças, adolescentes, com adultos fora de sua esfera imediata de contato — o Discord deixa os menores expostos demais a esse assédio. Nós não proibimos prédios com escritórios e apartamentos trancados a chave só porque, num ambiente privado, crimes possam ocorrer. Então não deveríamos proibir uma plataforma digital por ela se basear em ambientes privados, não públicos. A privacidade ainda é necessária para todos nós. E, sim, é em privado que crimes ocorrem. Mas ninguém manda demolir prédios depois dos crimes por negligência da equipe de portaria.
Banir o Discord do Brasil não é solução
Os responsáveis pela plataforma respeitam ordens judiciais











