Plano de Lula para quarto mandato põe ajuste fiscal na berlinda e Planalto enquadra GabrielliCoordenador do programa de governo petista, ex-presidente da Petrobras provoca mal-estar na campanha ao defender controle de capital e possíveis mudanças no ar. Crédito: Vera RosaGerando resumoFoto: Felipe Rau/EstadãoAlberto Ramos Diretor do grupo de pesquisas macroeconômicas para América Latina do Goldman SachsDiretor do grupo de pesquisas macroeconômicas para América Latina do banco Goldman Sachs, Alberto Ramos acredita que o próximo presidente — seja Lula ou um nome da oposição — não vai implementar um grande ajuste das contas públicas do Brasil, similar ao que Javier Milei fez na Argentina. “Não vamos ter nem de sombra um ajuste fiscal à la Milei, na Argentina, que é um arrocho nos gastos e o equilíbrio das contas públicas num prazo bastante reduzido”, diz. “Eu acho que isso não vai acontecer em nenhum cenário.”Segundo Ramos, mesmo que o Brasil não enfrente uma crise fiscal severa, carregar uma dívida elevada resulta em crescimento mais baixo, aumento da volatilidade e deixa o País mais vulnerável a qualquer tipo de choque. Publicidade“Quando você está vulnerável, a capacidade de absorver choques fica mais limitada, e qualquer pequeno choque, seja doméstico ou externo, pode gerar uma crise”, diz.A seguir, trechos da entrevista concedida ao Estadão.Como o investidor tem avaliado o aumento do endividamento do Brasil?Claramente, a principal debilidade macroeconômica do Brasil é o fiscal. Não são as contas externas, não é o balanço de pagamentos, não é a conta corrente, não é a balança comercial, não são as reservas. O fundamento mais vulnerável é a dívida pública. E há várias razões para a gente se preocupar. Uma tem a ver com o estoque da dívida, que é muito elevado. Está colado já em 82% do PIB, que é um nível extraordinariamente elevado, mas há outros tipos de qualificações que tornam esse número ainda mais preocupante. PublicidadeQuais são elas?O primeiro é que a dívida continua a aumentar. Portanto, 82% é alto e será maior amanhã. Não vemos, no horizonte relevante, um esforço fiscal que estabilize a dívida pública. É uma dívida que também é bastante onerosa. O custo de carregar essa dívida é alto, porque o juro real estrutural do Brasil é alto. Está provavelmente entre 5% e 6%, e o juro real de curto prazo é ainda mais elevado por causa da política fiscal. E o esforço fiscal é muito insuficiente. Fazendo aquela conta de padeiro de o que é que estabilizaria a dívida pública, em condições normais de temperatura e pressão, seria (um resultado) primário entre 2% e 3% do PIB. Mas temos um déficit. Essa diferença mostra por que a dívida continua a crescer.O governo menciona várias vezes: “A gente já fez um grande esforço fiscal. Esse déficit não é assim tão grande, é pequeno”. É pequeno em relação a quê, exatamente? Em relação ao que é necessário para estabilizar a dívida, é muito pequeno. Aliás, é um déficit. Não é um superávit. Nos últimos três anos e meio, o que nós tivemos foi uma estratégia agressiva de tributar e gastar. A carga tributária aumentou muito, e o gasto público aumentou ainda mais. Já vamos para o quarto ano consecutivo de um déficit fiscal acima de 8% do PIB. Em 2027, será o quinto ano consecutivo de um déficit fiscal nominal acima de 8% do PIB. É um desequilíbrio fiscal muito grande. Claramente, o juro real que a gente tem hoje é o juro necessário para ancorar a macroeconomia, dada a pouca contribuição do fiscal para o equilíbrio macroeconômico. E o contexto é que não foi só o governo que se alavancou. A gente viu também as famílias se alavancarem muito, se endividarem muito. Temos um nível recorde de endividamento. O que é mais interessante é que esse nível de endividamento aumentou muito num período de crescimento razoável, com mercado de trabalho apertado, o salário real subindo a bom ritmo, a criação de emprego subindo a bom ritmo e ainda houve transferências fiscais bastante generosas. Portanto, a renda bruta disponível das famílias cresceu e, apesar disso, elas ainda se endividaram mais para consumir mais. Tudo isso aconteceu num contexto em que a economia estava indo mais ou menos bem, o que agrava ainda mais.PublicidadeAlberto Ramos, diretor de pesquisa macroeconômica para a América Latina do banco Goldman Sach Foto: Felipe Rau/EstadãoAté quando a economia brasileira consegue suportar esse cenário? Não há como responder até quando. É a mesma coisa que você sair para patinar no gelo e a temperatura vai aumentando. A economia está sobreaquecida e, à medida que esse sobreaquecimento acontece, a espessura do gelo vai diminuindo. Não dá para dizer qual é o momento exato em que o gelo quebra e você cai. Agora, é uma vulnerabilidade macroeconômica. A capacidade da economia para lidar com choques externos fica limitada. Pode ter um acidente, pode não ter, mas a probabilidade de alguma coisa mais nefasta acontecer é maior.Mas o ajuste se mostra inevitável depois da eleição?Seja o presidente Lula reeleito ou seja eleita a oposição, também não acredito que vá haver um grande ajuste fiscal. É um problema que vai se prolongar ainda por vários anos. Mesmo que não tenha uma crise fiscal e financeira, carregar uma dívida elevada tem um custo para a economia, porque mantém o juro real muito alto e prejudica a dinâmica do investimento privado pelo crowding out (quando o aumento dos gastos do governo reduz ou “expulsa” o investimento do setor privado). O governo vai ao mercado buscar recursos de por volta de R$ 35 bilhões por semana. Haja grana. Ele está absorvendo uma fatia muito grande da poupança interna. Estamos falando de um déficit fiscal de 8% do PIB.O sr. poderia detalhar os custos de se carregar uma dívida tão alta? A gente escreveu um paper anos atrás que mapeava os custos de carregar um nível de endividamento elevado. O custo mais analisado é o de uma crise fiscal. O que a gente documenta é que, mesmo que não tenha crise fiscal, carregar um endividamento alto é prejudicial para o equilíbrio macroeconômico. Países que têm endividamento alto tendem a crescer menos no médio e longo prazo. E o canal de transmissão é o crowding out. Ele (governo) acaba captando uma grande parte da poupança privada e o governo, por natureza, não sabe gastar, gasta mal. Quando eu falo em gastar mal, não estou falando de corrupção. É a alocação que é ruim mesmo. Tem muita ineficiência no processo de alocação do setor público. PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADEA gente também comparou regimes de endividamento alto com regimes de endividamento médio e baixo, e o que isso mostrava era que países com endividamento alto tendem a crescer menos e têm muito mais volatilidade macroeconômica. A dinâmica do crescimento, da inflação e dos juros é muito mais volátil. Num ano cresce 4%; no outro ano, contrai 3%. A inflação acelera, desacelera. Gera muita volatilidade, e a volatilidade geralmente tem um custo macroeconômico. A gente também documentou que, nos países com endividamento alto, há uma redução do multiplicador fiscal. Quando o governo tenta estimular a economia gastando mais num cenário em que o endividamento é alto, o impacto desse gasto é menor. A gente viu nos últimos anos do governo Dilma Rousseff que, quanto mais o governo gastava para estimular a economia, mais a macro se deteriorava, mais o crescimento colapsava. Por que isso ocorre?Quando o endividamento é alto e o governo se põe a gastar mais para estimular a economia, o mercado fica nervoso e demanda um prêmio de risco maior. No extremo, o multiplicador fiscal pode até ficar negativo: gasta-se mais e cresce-se menos. O canal de aperto das condições financeiras pode eliminar completamente o impacto do gasto direto na economia. Você pode cair numa situação de dominância fiscal, em que a política monetária perde o poder de controlar a inflação e o câmbio. E, no final, pode até haver uma crise fiscal. Mas, voltando ao meu argumento inicial, até pode ser que dê para fazer um ajuste gradual, mas isso tem o custo de continuar a carregar esse fardo por muito tempo. Mas, pelo cenário que o sr. descreveu, de que nem o Lula nem a oposição devem fazer um grande ajuste, o Brasil não vai cair nesse cenário?O risco é latente e é crescente. À medida que a dívida aumenta, mais provável é que o gelo venha a quebrar. Um dia dá errado. Quando você está vulnerável, a capacidade de absorver choques fica mais limitada, e qualquer pequeno choque, seja doméstico ou externo, pode gerar uma crise.PublicidadeEu queria voltar a uma questão: o governo Lula tem uma preferência declarada, a de acreditar muito no poder redentor da geração de crescimento por meio do gasto público. Agora, acho que também haverá algum entendimento de que não dá para repetir (essa estratégia). Se o presidente Lula for reeleito, não dá para repetir, no Lula 4, a mesma estratégia agressiva de tributar e gastar, porque, se isso for repetido na mesma dosagem, a probabilidade de as coisas degringolarem é alta. Agora, sabendo disso, é provável que haja algum ímpeto de controle do crescimento do gasto. Eu não acredito que vamos ver medidas de ajuste fiscal de corte de gastos. Mas, se o gasto crescia a 6% (ao ano) em termos reais, pode ser que cresça a 3%. E um cenário de vitória da oposição?Parece que, talvez, haja um entendimento filosófico de que a questão fiscal é mais séria. Mas é preciso apoio político do Congresso. O que eu apostaria seria em uma estratégia gradual de dois, três, quatro anos de ajuste fiscal. Não vamos ter nem sombra de um ajuste fiscal à la Milei, na Argentina, que é um arrocho nos gastos e o equilíbrio das contas públicas num prazo bastante reduzido. Eu acho que isso não vai acontecer em nenhum cenário.Como fica a margem de manobra do Banco Central nesse cenário que o sr. descreveu?Fica com uma margem de manobra limitada. Particularmente neste ano, que é de eleição, há o aumento do gasto fiscal, do parafiscal e as medidas de crédito. E o Banco Central está tentando reduzir a demanda porque o hiato do produto está positivo, a inflação de serviços está alta e ele está tentando restringir um pouco a coisa. E aí vem o agente fiscal e estimula a economia. Um puxa para a direita; o outro puxa para a esquerda. Isso reduz a potência da política monetária. Reduz os graus de liberdade do Banco Central para calibrar a política monetária. Não só reduz, mas obriga o Banco Central a adotar um viés restritivo de política monetária muito maior do que se o fiscal fosse outro. O País não deve voltar a ver o juro de um dígito tão cedo, então?Não deve chegar tão cedo, a não ser que a gente dê sorte de, talvez, haver um choque externo que contribua para reduzir (os juros). Pode ser até via apreciação do câmbio ou até por uma desaceleração mais abrupta da economia. Mas o que interessa é o juro real. Eu diria que o juro real vai ser restritivo ainda por um bom período de tempo e não se vislumbra o momento em que a política monetária possa chegar ao nível neutro. O sr. descreve um cenário com o Brasil andando numa camada de gelo num momento em que o mundo está mais difícil. Qual pode ser o impacto desse contexto internacional para a economia brasileira?É um cenário incerto, é um cenário volátil. Há um conflito na Europa, entre Rússia e Ucrânia; há um conflito no Oriente Médio; há uma fricção geopolítica entre Estados Unidos e China. É um mundo complicado. E tem o Fed (Federal Reserve, BC dos EUA) ameaçando que vai subir os juros. Há fatores que beneficiam o Brasil e há fatores que não beneficiam o Brasil, como o preço de petróleo elevado. O Brasil é um exportador e, por esse canal, não está entre os perdedores, mas também, se esse choque de petróleo reduzir o crescimento global, não é tão bom para o Brasil. E se esse choque de petróleo levar a um impacto na inflação por meio dos preços dos combustíveis e dos alimentos e levar o Fed a uma toada mais restritiva, eu diria que isso não ajuda o Brasil. Eu diria que o mundo é incerto, requer uma certa calibração fina, quer da política fiscal, quer da política monetária, mas o maior desafio é doméstico, não externo. 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Entrevista | ‘Não vamos ter nem sombra de um ajuste fiscal à la Milei no Brasil’, diz economista do Goldman Sachs
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