O Brasil tem potencial de ser um exportador de soluções de baixo carbono — e não apenas um comprador das tecnologias de descarbonização desenvolvidas no exterior. A avaliação é do assessor especial do ministro da Fazenda, Rafael Dubeux, um dos coordenadores do Plano de Transformação Ecológica, que vê na agenda climática uma estratégia para ampliar a competitividade do país e atrair investimentos. Em entrevista ao Valor, durante evento organizado pela Amcham na SP Climate Week, na quarta-feira (5), Dubeux fez um balanço das principais frentes da política econômica voltada à transição ecológica. Segundo ele, instrumentos como o Tropical Forest Forever Facility (TFFF), o mercado regulado de carbono, a harmonização das taxonomias verdes e os títulos soberanos sustentáveis podem posicionar o Brasil como fornecedor de ativos da economia de baixo carbono. "O Brasil pode virar um grande vendedor de soluções de baixo carbono", afirmou. Na visão do assessor, essas soluções incluem tanto créditos de carbono — florestais e industriais — quanto instrumentos financeiros e tecnologias ligadas à transição energética, como combustíveis de baixo carbono e hidrogênio de baixa emissão. O objetivo é fazer com que o país deixe de importar tecnologias de descarbonização para se tornar um exportador de ativos associados à economia verde. Entre as iniciativas em andamento, Dubeux destacou a coalizão internacional do mercado de carbono, que classificou como "uma das propostas que eu mais me entusiasmo". Segundo ele, a iniciativa busca contornar um problema estrutural das negociações climáticas, que é a necessidade de unanimidade nas decisões das conferências do clima da ONU, o que frequentemente reduz a ambição das propostas para alcançar consenso. A coalizão reúne, de forma plurilateral, apenas os países dispostos a adotar um teto de emissões declinante ao longo do tempo, em um trabalho paralelo ao das negociações. Para Dubeux, trata-se de uma solução "politicamente viável" e "eficiente". A meta de longo prazo é ampliar a precificação do carbono e criar incentivos para que outros países também adotem mecanismos semelhantes. Segundo o assessor, a coalizão avançou em maio, quando uma reunião em Florença, na Itália, definiu sua estrutura de governança, incluindo secretariado executivo e comitê gestor. O grupo reúne atualmente União Europeia, China, Reino Unido, Noruega, Canadá, México, Coreia do Sul e outros países, além do Brasil. Um novo encontro, previsto para setembro, na China, deverá definir o plano de trabalho dos próximos entregáveis, começando pela harmonização dos critérios de mensuração, reporte e verificação (MRV). Dubeux explicou que a coalizão não integra formalmente o Acordo de Paris nem o Artigo 6, mas dialoga com os mesmos objetivos. Na visão dele, esse esforço pode posicionar o Brasil como "um grande fornecedor de crédito de carbono de baixo preço para o mundo, tanto florestal, quanto industrial", e não apenas como comprador de tecnologias de descarbonização desenvolvidas em outros países. Questionado sobre as críticas à integridade dos créditos de carbono e ao risco de greenwashing, Dubeux atribuiu os problemas ao mercado voluntário no passado e concentrado em créditos florestais de preservação e reflorestamento. Segundo ele, a ausência de um regulador único permitiu o surgimento de metodologias com diferentes níveis de rigor. Na avaliação do assessor, o mercado regulado de carbono, cuja implementação está em curso no país, muda essa lógica ao estabelecer um teto de emissões declinante e exigir sistemas de MRV (mensuração, reporte e verificação) de alta integridade. Apenas nesse contexto créditos florestais poderão eventualmente ser utilizados como compensação (offset) de emissões industriais. "Vai mudar por completo essa percepção de integridade de crédito de carbono", afirmou. "Deixa de ser uma questão florestal, vira uma questão de indústria, de atividade econômica." Sobre a implementação do mercado doméstico, Dubeux lembrou que a lei foi sancionada há dois anos e que, no ano passado, foi criada a Secretaria Extraordinária do Mercado de Carbono, comandada por Cristina Reis. O governo mantém aberta consulta pública para definir os setores que, na primeira fase, terão de apresentar sistemas de MRV. A expectativa é incluir cerca de sete segmentos, entre eles papel e celulose, refino, alumínio, aço e aviação, escolhidos por concentrarem parcela relevante das emissões, reunirem poucas empresas e já contarem com sistemas de monitoramento relativamente maduros. A segunda fase está prevista para 2029 e a terceira para 2031. Alinhamento de taxonomias Outra frente destacada por Dubeux é a busca por maior comparabilidade entre taxonomias verdes, os sistemas que classificam quais atividades econômicas podem ser consideradas sustentáveis. O Brasil lançou sua própria taxonomia pouco antes da COP30, somando-se às iniciativas já existentes na União Europeia, China e outros países. Segundo ele, a diversidade de critérios dificulta a atuação dos investidores internacionais. "Para o investidor que quer navegar ali entre as várias oportunidades de investimento, às vezes é difícil lidar com critérios completamente diferentes", disse. Na COP30, o Brasil ajudou a lançar uma iniciativa internacional, com participação do Banco Mundial, da Climate Bonds Initiative (CBI) e de outras organizações, para aproximar essas classificações sem unificá-las. A expectativa é apresentar os primeiros princípios comuns desse esforço durante a COP31. Financiamento climático e para economia verde No financiamento climático, Dubeux afirmou que o Tropical Forest Forever Facility (TFFF) continua avançando e minimizou o risco de que prioridades distintas de países como Turquia e Austrália atrasem a consolidação do fundo. "O fundo não é para o Brasil, é um fundo para florestas tropicais. Então não é só o Brasil que tem interesse em que ele se viabilize", afirmou. Segundo ele, o mecanismo difere dos tradicionais fundos de doação por funcionar como um veículo de investimento. Os aportes são remunerados e o capital é devolvido ao fim da operação. Depois das contribuições iniciais de Brasil e Indonésia, de US$ 1 bilhão cada, vieram Noruega, Alemanha, França e outros países. Hoje, o TFFF soma cerca de US$ 6,7 bilhões em aportes anunciados — dois terços da meta de US$ 10 bilhões prevista para o primeiro ano, que o governo pretende alcançar até a COP31. O Brasil continua negociando novas contribuições de China, Japão, Canadá, Reino Unido, Holanda e Coreia do Sul, embora ainda não existam compromissos formais. Segundo Dubeux, os entraves restantes são técnicos e variam conforme a legislação de cada país, como a forma de classificar contabilmente os aportes. "O que falta, no fundo, é o país tomar essa decisão de aportar realmente o recurso", afirmou. Plano de Transformação Ecológica Ao fazer um balanço do Plano de Transformação Ecológica, que completa cerca de três anos, Dubeux reconheceu que a principal dificuldade tem sido comunicar um programa que reúne mais de 200 iniciativas distribuídas por diferentes ministérios. "O objetivo é como a gente muda o modelo econômico para um modelo econômico que traga mais inovação tecnológica, mais produtividade, mais renda e, ao mesmo tempo, menor impacto ambiental", resumiu. Entre os principais resultados, ele citou a aprovação da Lei do Mercado de Carbono, da Lei do Combustível do Futuro, da Lei do Hidrogênio de Baixo Carbono e das emissões de títulos soberanos sustentáveis. Também destacou a expansão do Fundo Clima, cujo desembolso passou de cerca de R$ 200 milhões a R$ 300 milhões por ano para R$ 27 bilhões neste ano, além do programa Ecoinvest, que, segundo ele, já mobilizou mais de R$ 100 bilhões. "Não é projeto simbólico, projeto piloto. São projetos em escala para esse novo padrão de desenvolvimento econômico", afirmou. Questionado sobre novas emissões de títulos soberanos sustentáveis, Dubeux confirmou que o Tesouro Nacional mantém um programa permanente de emissões, sem calendário fixo, realizando operações conforme as condições do mercado internacional. A última emissão ocorreu no ano passado, e "uma nova poderá ocorrer em 2026 caso o cenário de juros globais se torne mais favorável". Segundo ele, o impacto dessas emissões vai além da captação de recursos pelo governo. "A emissão por si só cria uma curva de juros de títulos sustentáveis, que abre as portas para empresas brasileiras que querem fazer a emissão de títulos sustentáveis empresariais poderem usar essa curva de juros como referência", afirmou, destacando que as emissões privadas nesse mercado cresceram desde então.