Divulgação da faixa ‘Sal Grosso’ do álbum ‘Equilibrium II’ joga luz sobre trabalho de coletivo que levou o dancehall para a região 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Grupo, que em sua versão mais enxuta tem as dançarinas Agatha Queen (à esq.) e Isa Czar, o DJ High Tuco e o MC KBrum, inspirou Anitta em seu mais recente álbum — Foto: Marina Calderon Quando foi divulgada a música “Sal grosso”, segunda do álbum “Equilibrium II”, que acaba de ser lançado por Anitta, muita gente pensou tratar-se de um feat da cantora com BaianaSystem ou IZA, cujos trabalhos têm sido influenciados pela música jamaicana. Nada disso. A sonoridade da faixa foi inspirada na Baixada Fluminense, mais especificamente em Duque de Caxias. Lá, o coletivo Jamaicaxias, liderado por KBrum — que divide os vocais com a diva do funk —, vem contribuindo há dez anos para o fortalecimento de uma cena voltada aos ritmos periféricos, baseada no soundsystem (festas de paredão formado por potentes caixas de som) e na cultura do dancehall, uma das vertentes do reggae. A gravação jogou luz sobre o movimento que nasceu da percepção dos integrantes do coletivo — formado por 13 pessoas —, de que não havia uma cena dancehall na região e quem queria curtir as festas de paredão precisava se deslocar até o Rio, onde esses eventos aconteciam. Foi aí que surgiu a ideia de criar o movimento para disseminar na Baixada Fluminense esse gênero musical nascido nas ruas de Kingston, capital da Jamaica, no fim dos anos 1970, e que ganhou também as periferias no Brasil. —A ideia era fazer o nosso encontro, para que as pessoas não precisassem mais sair daqui. Fomos até um amigo que tinha um bar, o Bar do Russo, no centro de Caxias, bastante frequentado pela galera que faz artes na cidade, e começamos a fazer as festas aos domingos, chamadas inicialmente de Dancehall no Bar do Russo — conta KBrum. O público começou a prestigiar e a encher o evento, que logo passou a ser apelidado de “Jamaica de Caxias”. Daí para virar “Jamaicaxias” foi uma questão de tempo. De 2016 a 2020, foi mantido o formato de bailes e festas, com encontros mensais, sempre aos domingos, do fim da tarde até o fim da noite. Os eventos faziam tanto sucesso que a situação se inverteu. Em vez de os moradores da Baixada Fluminense se deslocarem até outros pontos do Rio para participar desse tipo de festa, os cariocas é que estavam descobrindo a força dessa manifestação cultural em Duque de Caxias. Shows na capital Junto ao novo público passaram a surgir convites para shows na capital. Nesse ano, o Jamaicaxias já se apresentou três vezes no Circo Voador, na Lapa, abrindo noites para grupos e artistas como Black Alien, Ponto de Equilíbrio e Anelis Assumpção. Ainda subiu ao palco de outros espaços cariocas como a Fundição Progresso, também na Lapa, e o Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá, além de participar de diversos eventos pela cidade. Paralelamente, fez collab (parceria) para algumas marcas importantes. Essa nova demanda acabou mudando o perfil do coletivo, que trocou as festas e os bailes pelos palcos, com uma formação mais enxuta, composta por KBrum, que atua como MC, pelo DJ High Tuco e as bailarinas Isa Czar e Agatha Queen. Também contribuiu para a mudança o fechamento do Bar do Russo, com a decisão de seu proprietário de se aposentar e abandonar o negócio. — É nesse formato (de banda) que a gente se apresenta hoje, fazendo um movimento que fez acionar o radar de muita gente, a ponto de chegar na Anitta — afirma KBrum. O radar de Anitta foi acionado por um de seus produtores, Enzo Dicarlo, que já conhecia o trabalho do artista da Baixada e de seu coletivo. Ele conta que ao receber a faixa e perceber que se tratava de um dancehall meio dub, que pedia uma voz forte, nova e diferente, o primeiro nome que veio à mente foi o do líder do Jamaicaxias. —Acho que o KBrum é uma das vozes mais influentes da nossa cena underground há muito tempo. Ele tem uma autenticidade e uma força musical e criativa únicas que, na minha visão, precisam ser escutadas. Acredito que quando ele ocupa um espaço de tanta visibilidade, não só carrega a história dele e a voz, mas, sim, a cena inteira que ele vive e respira junto — diz o produtor musical, que tem trabalhos com artistas como Marina Sena. Em outro patamar Ao receber o convite, KBrum achou que era só para cantar, mas descobriu que participaria também como compositor ao lado de outros autores que admirava como Pablo Bispo, artista da Zona Oeste do Rio — com músicas gravadas por IZA, Glória Groove e Pablo Vittar — que fez o refrão interpretado por ele (“Sal grosso, reza, vela, fósforo/ Em Madureira City, você tem que respeitar”). E mais: que seria a segunda música de destaque do álbum, com direito a clipe gravado numa pedreira em Guaratiba, no dia 15 de julho, única ocasião em que esteve frente a frente com Anitta. O vídeo já acumula mais de 5,5 milhões de visualizações no YouTube, desde o lançamento no fim de julho. Já a faixa, disponibilizada na mesma ocasião, soma mais de 4,5 milhões de acessos no streaming, com picos diários de 389 mil reproduções apenas no Brasil. Essa visibilidade ajuda a colocar KBrum e o coletivo do qual ele faz parte em outro patamar. Apesar desse sucesso todo ainda não ter se revertido em dinheiro, ele já começou a receber alguns convites para outros trabalhos e, o mais importante, viu o acesso às suas músicas no streaming saltar de 5 mil para mais de 1 milhão em apenas três dias. Já é mudança suficiente para fazer o artista de 38 anos, nascido no Complexo da Manguerinha — onde seus pais ainda vivem —, cujo nome de batismo é Paulo Henrique Brum, sonhar com dias melhores. —A ficha está caindo aos pouquinhos. Ainda estou entendendo esse lugar onde fui colocado e o que a gente ainda vai acessar, porque não tem como eu seguir sem o Jamaicaxias — confessa. Há até pouco tempo, KBrum — que mora no Jardim Primavera com a mulher e companheira de coletivo, Isa, e o filho Rudah, de 14 — se dividia entre a música e a venda de móveis de escritório com o pai. Dos outros integrantes, somente as bailarinas já vivem de sua arte há mais tempo. No momento, o artista prepara o primeiro álbum, “Raggaleluia”, que sai até outubro. O primeiro single,“Pussy”, já está no streaming.