Questionamento de direitos políticos femininos não deve ser interpretado como episódio isolado ou mera controvérsia 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Congressistas, vestidas de branco em homenagem ao movimento sufragista feminino, posam para foto no Capitólio, nos Estados Unidos — Foto: AFP/AFP Em 1932, as mulheres brasileiras conquistaram o direito ao voto e deram um passo decisivo para a construção de uma democracia mais inclusiva. Quase um século depois, porém, o país assiste com preocupação ao ressurgimento de discursos que relativizam até mesmo essa conquista elementar. O fato de o voto feminino voltar a ser objeto de questionamentos deveria servir como alerta. A participação política das mulheres jamais foi plenamente incorporada ao imaginário democrático brasileiro. Desde o sufrágio até os dias atuais, a presença feminina nos espaços de poder tem sido continuamente desafiada, contestada ou submetida a condições que raramente são impostas aos homens. A história da democracia brasileira pode ser lida, em certa medida, como a história de uma insistência em manter as mulheres distantes das decisões políticas. Primeiro, por meio de exclusão formal. Depois, por meio de barreiras menos visíveis, mas igualmente eficazes. A ciência política usa a expressão secret garden of politics, ou “jardim secreto da política”, para descrever os espaços pouco transparentes onde as decisões realmente importantes são tomadas. É nesse ambiente que se definem candidaturas, alianças, distribuição de recursos e trajetórias políticas. Embora as mulheres tenham conquistado o direito de participar da política, esses jardins continuam sendo, em grande medida, organizados a partir de estruturas de poder historicamente masculinas. A exclusão, portanto, não desapareceu. Apenas se sofisticou. Esse cenário é particularmente paradoxal porque muitos dos avanços democráticos brasileiros foram impulsionados justamente pela atuação das mulheres. Os movimentos feministas desempenharam papel fundamental na ampliação dos direitos civis e na transformação de demandas historicamente desprezadas em políticas públicas. A construção da Lei Maria da Penha talvez seja o exemplo mais representativo, resultado de décadas de mobilização e articulação entre movimentos sociais, partidos políticos e instituições públicas. Mais que lutar por direitos para si, as mulheres contribuíram para ampliar o próprio significado da democracia brasileira. Os feminismos construíram pontes entre diferentes experiências de desigualdade, incorporando ao debate público questões relacionadas à raça, à classe social, à sexualidade e às múltiplas formas de discriminação. Por isso, o atual questionamento de direitos políticos femininos não deve ser interpretado como episódio isolado ou mera controvérsia do debate público. Trata-se da manifestação mais recente de uma resistência histórica à presença das mulheres na política. Nenhuma democracia se fortalece excluindo vozes. Nenhuma democracia amadurece questionando a cidadania política de metade de sua população. Quase cem anos depois da conquista do sufrágio feminino, o desafio brasileiro continua sendo transformar igualdade formal em igualdade efetiva. Isso significa assegurar que as mulheres não apenas possam votar, mas também participar plenamente dos espaços onde as decisões são tomadas, influenciar agendas públicas e exercer liderança política em condições de igualdade. Porque, quando até mesmo o direito ao voto das mulheres volta a ser colocado em dúvida, o que está em discussão não é apenas a participação feminina. É a própria solidez da nossa democracia. *Lara Gurgel é presidente do Instituto de Relações Governamentais