Livro com foco em duas mortes deve ser adaptado para o cinema 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Edifício Copan — Foto: Edilson Dantas / Agência O Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você O enredo de "Crime no Copan" explora a complexa dinâmica dos cerca de 5 mil moradores do edifício projetado por Oscar Niemeyer, conectando o passado histórico do local a temas contemporâneos como desigualdade e corrupção. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Histórias que se passam em edifícios ou construções icônicas sempre provocam novas conexões entre pessoas e lugares. Talvez o exemplo clássico disso tenha sido o livro “O corcunda de Notre-Dame”, do escritor francês Victor Hugo. Na época, a catedral estava sob o risco de ser demolida e o enorme sucesso do romance não apenas impediu isso como incentivou sua restauração. No Brasil, a Igreja de Santa Bárbara, em Salvador, foi palco da peça teatral “O Pagador de Promessas”, escrita por Dias Gomes. Adaptada para o cinema por Anselmo Duarte em 1962, ganhou a Palma de Ouro, no Festival de Cannes, tendo sido a primeira vez, e até agora única, em que um filme brasileiro levou o principal prêmio para casa. Mais recentemente, Julián Fuks escreveu o livro “A ocupação”, que se passa no Hotel Cambridge, no Centro de São Paulo. Hoje em dia, o edifício se tornou um complexo residencial com moradias populares após ter sido ocupado por movimentos sociais. Seguindo essa vertente, é curioso que o lançamento “Crime no Copan”, do jornalista Victor Bonini, se passe justamente no presente, com o prédio icônico de São Paulo no centro da narrativa. Na vida real, o Edifício Copan esperou dez anos para a aprovação de sua reforma, época em que ficou bastante degradado. Recentemente, porém, o edifício recebeu um alto valor para a nova etapa da obra de recuperação da fachada original e estrutura, também foi anunciado que seu antigo cinema reabriria em 2027. Na ficção de Bonini, a reforma não é aludida, mas há um auditório abandonado onde sangue é encontrado e diversos tipos de moradores residem nos apartamentos, como o subsíndico Santiago; a artista plástica Cecília; a maquiadora Agnes; e Lavínia, a moradora mais antiga do prédio. O livro, que já nasce com a promessa de uma adaptação para o cinema pela produtora Camisa Listrada Filmes, tem o foco em duas mortes suspeitas que passam a ser investigadas. Primeiro, morre Theo, filho do síndico; depois, Lorenzo, seu pai. ‘O fascínio das palavras’, de Leonardo Fróes O poeta Leonardo Fróes (1941-2025) foi também tradutor, ensaísta e resenhista sagaz. Esta obra reúne seus principais ensaios de literatura. Foto: Divulgação ‘Medo e raiva’, de Renato Noguera Em uma cultura que tenta nos silenciar e reprimir, os sentimentos de medo e raiva são tão naturais quanto a alegria e o amor. Neste livro, o filósofo Renato Noguera busca desconstruir estereótipos sobre esses afetos e explora como narrativas míticas de diversas tradições percebem esses impulsos ancestrais. Foto: Divulgação ‘Talvez falte um poema’, de Alexandra Maia Poeta e produtora de cinema, Alexandra Maia organizou esta sua mais recente coletânea em quatro movimentos: Fratura, Espiral, Fenda e Asa. Os poemas podem ser lidos como capítulos de uma mesma história. Não há uma narrativa linear, mas um fluxo em que passado e presente se atravessam continuamente. Foto: Divulgação ‘Meio quente’, de Hito Steyerl Doutora em Filosofia, a documentarista alemã Hito Steyerl investiga como imagens deixaram de ser portadoras confiáveis de verdade e passaram a compor fluxo instável e absurdo. Articulando arte, tecnologia e política, analisa como o novo regime está ligado à economia digital, colapso ambiental e inteligência artificial. Foto: Divulgação ‘Papai’, de Christian Robinson Na obra, uma dupla de pais e filhotes surge a cada página: há os pais que carregam, ensinam, brincam e protegem. Há também os que erram, mas continuam por perto, com um colo para oferecer. Os que são presentes mesmo à distância. Entre gestos de carinho, o livro acompanha pais que cuidam e aprendem junto com os filhos. Foto: Divulgação Amizades improváveis O relato começa com a narração crua dos fatos a partir do ponto de vista de vários personagens, característica que pode ter vindo da formação de Bonini e também de sua recente atuação como roteirista, junto a André Sturm, no filme brasileiro “A Conspiração Condor”, que estreou este ano. A morte de Lorenzo é analisada como provável suicídio no começo, enquanto que o assassinato de Theo parece uma tentativa de roubo. Em meio às lembranças da noite do crime, diversos personagens formam ou acentuam amizades improváveis, mas, ainda assim, cheias de segredos. À medida que essas confidências são reveladas, entendemos que o caso é complexo, evocando ocorrências reais com síndicos brasileiros envolvidos em esquemas corruptos. Apesar de o edifício estar no centro da narrativa da obra e evocar ares de crime de quarto fechado, logo nos damos conta de que o local é praticamente uma pequena cidade. O edifício, que existe desde 1966 e foi projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, é assim descrito pelo narrador: “Cada uma dessas escamas é um lar: 1.160 no total, separados em seis blocos (...) A dinâmica da vida de Lorenzo sempre foi a de um político. Ele, aliás, adorava esbanjar que, com os cinco mil condôminos do Copan, tinha mais responsabilidades que muitos prefeitos por aí.” Como em todo livro policial, o leitor é cativado por um mistério a ser desvendado, mas o principal mérito desse lançamento é a construção da vida íntima dos personagens e suas relações não apenas com as vítimas, mas com o próprio prédio. Em um dos melhores momentos da narrativa, somos alçados ao ano de 1978, quando um grupo de amigas prostitutas tentava se desvencilhar das amarras de seu cafetão em plena ditadura militar ao mesmo tempo em que procurava ter qualidade de vida. Longe de ser um relato desancorado, Bonini amarra os anos anteriores ao presente, mostrando como o passado do prédio e dos condôminos influencia a história atual. Assim, desigualdade social, preconceito e ambição têm implicações palpáveis no enredo, fazendo o livro assumir ares de thriller urbano. Por fim, o autor consegue também o feito de alçar o Copan ao imaginário popular e terminamos a leitura imaginando quantas histórias o local guarda, quem são as pessoas que já moraram ali e de que forma elas, assim como os personagens, tornaram-se expressões da própria cidade. Bruna Meneguetti é jornalista