O mundo muda sem que a árvore declare guerra ao mundo. Cada árvore corrige discretamente um erro da paisagem 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Baobá na Quinta da Boa Vista — Foto: Márcia Foletto No meu quintal vem crescendo um baobá. É jovem, e embora já bastante alto, o seu tronco ainda não se parece com os dos baobás do minúsculo asteroide B-612, onde vivia o Principezinho, de Antoine de Saint-Exupéry. Daqui a alguns anos encontrará o muro próximo. Talvez o derrube. Talvez o assimile. Com o tempo certo — o extenso tempo das grandes árvores — estas acabam por assimilar tudo o que lhes cresce ao lado. Na virada do século vi um eucalipto irromper do interior de um tanque de guerra abandonado à beira de uma estrada, no interior de Angola. Voltei a vê-lo anos depois e era já uma árvore enorme. O tanque, outrora um sólido e poderoso instrumento de morte, lembrava agora uma espécie de colar ferrugento. Não conheço nenhum monumento erguido pelos homens à paz — à vitória da vida sobre a brutalidade da guerra! —, tão expressivo quanto aquele eucalipto. A minha árvore preferida é a mulemba, que, no Brasil, em alguns terreiros de candomblé, tem também o nome de odan e importantes funções no culto aos orixás. As mulembas são entidades enormes, à sombra generosa das quais muitas vezes se organizam cerimônias mágicas, mercados populares, casamentos ou comícios. Também servem de abrigo a escolas. Inúmeras vezes, tanto em Angola quanto em Moçambique, encontrei crianças estudando sob a lenta folhagem de magníficas mulembas. Além disso, mulembas, gameleiras, figueiras-da-índia e outras árvores da mesma família (moráceas), são famosas por incorporarem objetos. Já vi imagens de figueiras-da-índia com bicicletas, placas de trânsito e até antigas divindades de pedra incorporadas nos troncos. Na ilha de Moçambique, onde vivo, passeio muitas vezes ao longo de uma alameda de centenárias figueiras-da-índia, num dos jardins da cidade. Algumas assimilaram por completo o muro baixo que separa o jardim da calçada. Penso muito naquele abraço vegetal como uma lição de sabedoria. Mais importante do que derrubar muros é retirar-lhes a condição de fronteira. Vejo uma diferença profunda entre a forma como os homens e as árvores enfrentam obstáculos. A Humanidade tende a responder ao confronto com mais confronto. As árvores crescem, transformando a terra, o ar e a luz em matéria viva. Enquanto fabricam os troncos, os ramos e as folhas, os muros deixam de ser fronteiras, os tanques de guerra esquecem o seu passado assassino e os velhos deuses aceitam ser transformados em luz sólida. O mundo muda sem que a árvore alguma vez tenha declarado guerra ao mundo. Cada árvore corrige discretamente um erro da paisagem. No lugar onde a carcaça daquele tanque arde em ferrugem, abraçado ao eucalipto, ocorreu em tempos uma batalha terrível. Muitos soldados morreram. A natureza trabalha em silêncio para repor a harmonia. Olho para o baobá do meu quintal e imagino o dia em que encontrará o muro. Espero ter tempo para assistir ao lento milagre através do qual a luz, ganhando peso e vida, se transforma num largo tronco, enquanto o muro desaprende lentamente o ofício de separar.