Desde o pós-guerra, os Estados Unidos transformaram o “soft power” em um dos pilares de sua política externa. A influência americana não era construída apenas com bases militares ou poder econômico, mas também por universidades, ciência, cultura, cooperação internacional e ajuda humanitária. Era uma forma de exercer liderança tornando-se um país que outros desejavam seguir. Donald Trump alterou essa lógica. Em vez de investir hoje para construir influência amanhã, sua política externa passou a privilegiar ganhos imediatos. A atração deu lugar à negociação. A influência passou a ser tratada menos como um ativo diplomático e mais como um contrato comercial. A política externa americana parece menos baseada em atração e mais em transação. Trump faz uma guinada na política externa (na foto, no Salão Oval da Casa Branca, na quinta-feira, 6 Foto: Alex Brandon/APPUBLICIDADETrump transformou o jogo externo num sistema de trocas: proteção militar em troca de maiores gastos dos aliados, tarifas em troca de concessões comerciais, acesso ao mercado americano em troca de investimentos produtivos, apoio estratégico condicionado ao acesso a minerais críticos e cadeias de suprimentos, alianças condicionadas a benefícios concretos.Nenhuma decisão simboliza melhor essa mudança do que o desmonte da Usaid. Durante mais de seis décadas, essa agência foi um dos mais importantes instrumentos do “soft power” americano. Não distribuía apenas medicamentos, alimentos ou assistência técnica. Distribuía influência. PublicidadeCada hospital financiado, cada campanha de vacinação, cada programa de combate à Aids reforçava a presença dos Estados Unidos em regiões onde rivais estratégicos também disputavam espaço. Ao desmontar a Usaid, o governo não cortou apenas despesas. Abriu mão voluntariamente de um dos instrumentos mais eficazes de influência internacional já construídos pelos Estados Unidos. A maior agência humanitária do mundo praticamente desapareceu. Em poucos meses: cerca de 83% dos programas foram encerrados, cerca de 5,2 mil contratos foram cancelados, dezenas de bilhões de dólares deixaram de ser aplicados em saúde, alimentação e assistência internacional. Algumas projeções indicam que, se o financiamento não for substituído, até 2029 poderão ocorrer aproximadamente 6,6 milhões de novas infecções e 4,2 milhões de mortes adicionais por Aids.A ajuda humanitária nunca foi apenas filantropia. Era geopolítica financiada com vacinas, hospitais e programas de combate à pobreza. O custo do seu desmonte não será medido apenas em vidas perdidas, mas também na influência que os Estados Unidos decidiram deixar de exercer. Na geopolítica, poder também se conquista por abandono. A China não precisou gastar mais para ampliar sua influência. Bastou que os Estados Unidos gastassem muito menos. Vale ler tambémCustos de credibilidade do BC não compensam possíveis ganhos decorrentes da redução da SelicA guerra no Irã fracassou; qual será o próximo passo de Trump?Qual o Estado brasileiro com mais filhos sem a presença dos pais nos lares? Publicidade
A mudança americana: com Donald Trump, os EUA abriram mão de um dos pilares de sua política externa
Em vez de investir hoje para construir influência amanhã, a nova política externa da Casa Branca privilegia ganhos imediatos; a atração deu lugar à negociação







