Aos moldes de Trump, novo líder traz uma guinada à direita para a nação andina, prometendo bombardear laboratórios de cocaína na selva, construir 'megaprisões' e reduzir drasticamente o tamanho do Estado 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Abelardo de la Espriella, antes de tomar posse como presidente da Colômbia — Foto: Luis ACOSTA / AFP Abelardo de la Espriella tomou posse como presidente da Colômbia nesta sexta-feira. O novo presidente, que se autodenomina "O Tigre", foi eleito com a promessa de lançar uma guerra contra as guerrilhas ligadas ao narcotráfico e inaugurar uma nova era de estreitas relações com os Estados Unidos. O extravagante ex-advogado traz uma guinada à direita para a nação andina governada até então pela esquerda, prometendo bombardear laboratórios de cocaína na selva, construir "megaprisões" e reduzir drasticamente o tamanho do Estado. Em uma quebra de tradição, a posse ocorrereu na cidade tropical de Cali, no sudoeste da Colômbia, capital da salsa, e não no Congresso, na mais formal Bogotá. A cerimônia contou com a presença de figuras influentes da direita, incluindo o presidente da Argentina, Javier Milei, e Todd Blanche, secretário da Justiça interino dos Estados Unidos. O presidente cessante, o líder esquerdista Gustavo Petro, não participou do evento em Cali, deixando a residência presidencial na capital no início da tarde acompanhado de alguns familiares e funcionários. O ex-presidente, que não teve comunicação direta com Espriella, deixa o palácio presidencial apesar de considerar o novo presidente "ilegítimo". — Espero que se lembrem de nós — disse ele. — Adeus, liberdade e vida. A apertada vitória de Espriella no segundo turno, em junho, pôs fim a quatro anos do primeiro governo de esquerda da Colômbia. — Estamos começando uma nova era! — declarou ele em seu discurso de vitória, após derrotar o rival de esquerda Ivan Cepeda por menos de um ponto percentual. Cepeda, antes da posse de Espriella, declarou que a "esquerda será resistência" após o fim do mandato de quatro anos de Petro. — Lutaremos até o limite e além para preservar as conquistas que alcançamos nestes anos — proclamou o senador e ex-candidato durante um evento matinal em Barranquilla. 'Plano Colômbia' Após quatro anos de desavenças diplomáticas com os Estados Unidos, o presidente americano, Donald Trump, agora terá um aliado importante em Bogotá. Espriella baseou sua campanha na promessa de combater com firmeza os poderosos traficantes de drogas do país, com o auxílio dos Estados Unidos. Seu chamado "Plano Colômbia II" faz referência a um acordo multimilionário firmado com Washington na década de 2000, com o objetivo de combater os cartéis de drogas e grupos de esquerda. Após autoridades colombianas da nova gestão viajarem a Washington no mês passado, um alto funcionário da defesa dos EUA anunciou a nova parceria militar com a Colômbia que, segundo Espriella, elevará a um "novo patamar" uma aliança historicamente sólida. Espriella designou Medellín como o centro da nova aliança regional do presidente Trump de combate ao tráfico: o Escudo das Américas. O governo Trump definiu como prioridade combater os traficantes na América Latina. Ao responsabilizar cartéis e quadrilhas de drogas pela crise de overdoses nos Estados Unidos e por alimentar a violência criminosa, o governo classificou mais de dez grupos da região como organizações terroristas e autorizou o uso de força letal contra eles. Autoridades dos EUA criaram uma coalizão regional e uma força-tarefa militar de combate aos cartéis, envolvendo outras 18 nações, e compararam essa iniciativa às campanhas militares americanas contra a al-Qaeda e o Estado Islâmico. O governo Trump também pressionou líderes latino-americanos a permitir que forças dos EUA realizassem ataques conjuntos em seus territórios, e o presidente republicano tem exaltado operações com participação americana que resultaram na morte de líderes de um grande cartel no México e de uma quadrilha transnacional na Venezuela. Ações anteriores dos EUA para combater o tráfico de drogas na América Latina tiveram sucesso limitado — e a ofensiva mais recente despertou preocupações de que operações militares possam ameaçar a soberania dos países e colocar civis em risco. Antes da eleição de Espriella em junho, o governo Trump havia feito poucos progressos com a Colômbia, o maior produtor mundial de cocaína e, tradicionalmente, o aliado mais próximo de Washington na região. Ainda no cargo de presidente, Petro, por sua vez, criticou a estratégia de combate ao tráfico de Trump e classificou como assassinato os ataques militares dos EUA contra embarcações que, segundo a administração Trump — sem apresentação de provas —, transportavam drogas ao largo da costa da América do Sul. Tais ataques já mataram pelo menos 221 pessoas. As autoridades dos EUA impuseram sanções a Petro, retiraram a certificação da Colômbia como parceira no combate ao narcotráfico e ameaçaram cortar a ajuda ao país. Os grupos armados da Colômbia — que incluem antigas guerrilhas de esquerda e grupos paramilitares de direita — estão envolvidos há muito tempo no tráfico de drogas, mas expandiram significativamente suas atividades nos últimos anos, em meio à crescente demanda global por cocaína. Os grupos se multiplicaram e se espalharam por mais partes do país, e o número de combatentes aumentou de cerca de 13 mil em 2022 para quase 27 mil no ano passado, segundo pesquisadores de conflitos.