O presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, baseou sua campanha na promessa de combater com firmeza os poderosos traficantes de drogas do país, com o auxílio dos Estados Unidos. Ele assume o cargo nesta sexta-feira, mas seus planos de parceria com as forças americanas já estão em andamento e podem transformar a Colômbia em peça-chave dos esforços do governo Trump para militarizar o combate ao tráfico de drogas em toda a região. Após autoridades colombianas da nova gestão viajarem a Washington no mês passado, um alto funcionário da defesa dos EUA anunciou uma nova parceria militar com a Colômbia que, segundo ele, elevaria a um "novo patamar" uma aliança historicamente sólida. E Espriella designou Medellín como o centro da nova aliança regional do presidente Trump de combate ao tráfico: o Escudo das Américas. O governo de Donald Trump definiu como prioridade combater os traficantes na América Latina. Ao responsabilizar cartéis e quadrilhas de drogas pela crise de overdoses nos Estados Unidos e por alimentar a violência criminosa, o governo classificou mais de dez grupos da região como organizações terroristas e autorizou o uso de força letal contra eles. Autoridades dos EUA criaram uma coalizão regional e uma força-tarefa militar de combate aos cartéis, envolvendo outras 18 nações, e compararam essa iniciativa às campanhas militares americanas contra a Al-Qaeda e o Estado Islâmico. O governo Trump também pressionou líderes latino-americanos a permitir que forças dos EUA realizassem ataques conjuntos em seus territórios, e o presidente republicano tem exaltado operações com participação americana que resultaram na morte de líderes de um grande cartel no México e de uma quadrilha transnacional na Venezuela. Ações anteriores dos EUA para combater o tráfico de drogas na América Latina tiveram sucesso limitado — e a ofensiva mais recente despertou preocupações de que operações militares possam ameaçar a soberania dos países e colocar civis em risco. Antes da eleição de Espriella em junho, o governo Trump havia feito poucos progressos com a Colômbia, o maior produtor mundial de cocaína e, tradicionalmente, o aliado mais próximo de Washington na região. O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, fala durante uma entrevista à AFP no Palácio Presidencial Casa de Nariño, em Bogotá, em 4 de junho de 2026 — Foto: RAUL ARBOLEDA / AFP O presidente em exercício, Gustavo Petro, de esquerda, criticou a estratégia de combate ao tráfico de Trump e classificou como assassinato os ataques militares dos EUA contra embarcações que, segundo a administração Trump — sem apresentação de provas —, transportavam drogas ao largo da costa da América do Sul. Tais ataques já mataram pelo menos 221 pessoas. Aliado mais disposto Espriella, um conservador convicto que nunca ocupou cargos públicos, apresenta-se como um aliado muito mais disposto. Durante a campanha, ele elogiou as operações de interceptação de embarcações promovidas por Trump e conquistou muitos colombianos com a promessa de combater os traficantes armados "com a ira de Deus". Os dois governos não perderam tempo. Após reunir-se com autoridades de defesa em Washington, o futuro ministro da Defesa da Colômbia, general Jorge Eduardo Mora, afirmou que a estratégia recém-anunciada, denominada Plano Patriota 2.0, marca “uma nova etapa de cooperação, integração e ação conjunta”. Os dois países discutiram planos para fornecer inteligência e apoio dos EUA às Forças Armadas da Colômbia para missões de combate ao narcotráfico, extraditar traficantes capturados e retomar a erradicação aérea de plantações de coca, segundo autoridades americanas, que falaram sob condição de anonimato. O cronograma para as operações conjuntas não está claro. Um ex-alto funcionário do governo Trump afirmou que houve pressão da Casa Branca e de altos dirigentes do Pentágono para apresentar resultados logo após a posse de Espriella, mas observou que os comandantes militares dos EUA defendiam a necessidade de mais planejamento. O Departamento de Defesa não quis fazer comentários além de uma declaração emitida no mês passado. A Casa Branca encaminhou as perguntas ao Departamento de Estado, que afirmou em um comunicado: "Estamos prontos para apoiar os esforços da Colômbia para fortalecer suas forças de segurança, derrotar narcoterroristas e organizações criminosas e acabar com os fluxos de imigração ilegal." Os grupos armados da Colômbia — que incluem antigas guerrilhas de esquerda e grupos paramilitares de direita — estão envolvidos há muito tempo no tráfico de drogas, mas expandiram significativamente suas atividades nos últimos anos, em meio à crescente demanda global por cocaína. Os grupos se multiplicaram e se espalharam por mais partes do país, e o número de combatentes aumentou de cerca de 13.000 em 2022 para quase 27.000 no ano passado, segundo pesquisadores de conflitos. Mesmo com a escalada do tráfico de drogas armado, disse Kevin Whitaker, embaixador dos EUA na Colômbia de 2014 a 2019, as Forças Armadas da Colômbia foram prejudicadas por cortes de verbas, e dezenas de generais foram afastados durante a gestão de Petro. O planejamento e a execução de operações constituem um ciclo que melhora com a repetição, disse ele, “e esta é uma Força Armada que, nos últimos quatro anos, simplesmente não tem realizado isso no mesmo nível de antes”. Demonstração de força Retomar a erradicação aérea da coca — a planta utilizada para produzir cocaína — também exige planejamento, segundo especialistas. A erradicação com o herbicida glifosato foi proibida pela Colômbia em 2015, em resposta a alertas da Organização Mundial da Saúde sobre os efeitos à saúde humana. Ambos os governos estarão ansiosos por uma demonstração de força logo de início, disse Gimena Sánchez, diretora para a região dos Andes no Washington Office on Latin America (WOLA). O governo dos EUA, que tem divulgado imagens impactantes de operações militares contra supostos traficantes, pode estar buscando mais registros desse tipo no período que antecede as eleições de meio de mandato de novembro. Por sua vez, Espriella provavelmente apostará em ações de grande impacto, afirmou Sánchez, inaugurando seu mandato com iniciativas voltadas para chamar a atenção. Mirar os líderes de grupos de tráfico demonstrou ter pouco efeito em longo prazo no comércio de drogas, disse ela. O Gabinete presidencial de Espriella não respondeu a um pedido de comentário. O Plano Patriota original foi uma ofensiva militar apoiada pelos EUA na década de 2000, que mobilizou milhares de soldados colombianos contra grupos rebeldes de esquerda, como as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). A iniciativa integrava o Plano Colômbia, um programa americano multibilionário destinado a fornecer ajuda militar e outras formas de assistência. Ex-integrantes das Farc treinam novo recruta com fuzil em acampamento nas montanhas ao norte de Medellín, em 31 de agosto de 2018 — Foto: Federico Rios Escobar/The New York Times Ele desferiu golpes significativos contra as Farc, que acabaram concordando em se dissolver ao assinar um acordo de paz histórico em 2016. No entanto, uma comissão da verdade constatou que o Plano Patriota também resultou em violência extrema por parte das forças estatais, incluindo execuções extrajudiciais. Combater os traficantes tem sido, há muito tempo, um desafio para as Forças Armadas da Colômbia. Esses grupos operam em terrenos de difícil acesso e, por vezes, vivem em meio à população civil. Para complicar ainda mais a situação, eles agora ultrapassaram as fronteiras colombianas, estendendo sua atuação para a Venezuela e o Equador. Outro obstáculo, segundo especialistas em conflitos, é que muitos menores foram recrutados por grupos de tráfico, em parte para evitar ataques aéreos. Não está claro quanto de ajuda poderia chegar agora à Colômbia. No passado, o país foi o maior beneficiário de assistência de segurança dos EUA na região. No entanto, durante o primeiro ano do segundo mandato de Trump, essa ajuda foi reduzida a menos da metade — caindo de US$ 400 milhões para cerca de US$ 187 milhões —, de acordo com um relatório da administração Trump enviado ao Congresso. 'Espécie de protetorado' Com Espriella agora no cargo, especialistas afirmam que a torneira pode ser reaberta. Mora, o futuro ministro da Defesa, declarou que o Plano Patriota 2.0 ajudaria a restaurar as capacidades militares da Colômbia. Segundo o jornal colombiano El Tiempo, espera-se que a parceria reforce a frota de helicópteros do país e forneça tecnologia de proteção contra drones, uma vez que grupos armados estão recorrendo cada vez mais a esse tipo de combate. Iván Cepeda fala a apoiadores após derrota na Colômbia e pede "vigilância" — Foto: RAUL ARBOLEDA/AFP O plano tem sido alvo de críticas por parte da esquerda. O senador Iván Cepeda — a quem Espriella derrotou por uma margem estreita nas eleições de junho — disse em entrevista: — O que está em discussão é uma estratégia para submeter a Colômbia a outra soberania e transformá-la em uma espécie de protetorado. Espriella havia planejado inicialmente realizar sua cerimônia de posse em uma base militar situada em uma zona de conflito, em vez de na capital. Os legisladores acabaram aprovando a transferência do evento para Cali, uma cidade próxima àquela região. Nesta semana, as autoridades colombianas informaram ter interceptado um ônibus que transportava cerca de 450 quilos de explosivos destinados a atacar instalações militares e policiais durante a posse. A polícia afirmou que o ataque havia sido planejado por um grupo dissidente das Farc.
'Plano Patriota 2.0': Governo Trump acelera cooperação militar com colombiano Espriella, que toma posse hoje
Planos de parceria podem transformar a Colômbia em peça-chave dos esforços dos EUA para militarizar o combate ao tráfico de drogas em toda a América Latina









