Um novo conjunto de vídeos de câmeras acopladas a coletes mostram os policiais militares Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima, do 16° Batalhão da PM - o mais letal da cidade - atirando em um homem que estava desarmado e com as mãos para cima em uma casa de Paraisópolis, a maior favela de São Paulo, na Zona Sul. O caso ocorreu em julho do ano passado. No último dia 30, os dois soldados foram absolvidos pelo Tribunal do Júri, sob a justificativa de legítima defesa, mas tanto o Ministério Público quanto os assistentes de acusação vão entrar com recurso para anular o julgamento. A alegação é que a tese da absolvição é contrária às provas nos autos. Já a defesa dos policiais sustentou, no julgamento, que as imagens das câmeras corporais representam apenas um recorte da ocorrência de Paraisópolis e podem levar a interpretações equivocadas. Veja abaixo o vídeo. As imagens são fortes. Essas não são as primeiras imagens do caso, já houve outras, mas as atuais mostram também momentos que antecederam a execução de Igor Oliveira de Moraes Santos. Há também conversas entre os agentes após os tiros. Os outros dois homens que estavam com ele não foram atingidos e acabaram presos. O novo material foi publicado pelo G1 e obtido pelo GLOBO. Nas imagens, é possível ver os três rendidos. Santos, o de blusa clara, é o único alvejado em duas oportunidades. As marcas dos tiros ficaram também expostas na parede. – Já era, perdeu. Ideia de homem, certo, senhor? – disse a vítima, antes de ser atingida pelo primeiro tiro. Na sequência, o mesmo policial que atirou manda ele levantar e, novamente com as mãos para cima, é atingido na barriga. Após os disparos, os soldados conversaram entre si e não sabiam que as câmeras estavam ligadas. Após a ocorrência, um superior dos policiais foi ao local e os interrogou. "Senhores, como é que foi aí? Alguém pode explicar como é que foi desde o começo?", indagou o oficial. "Atrás da cama, toda hora ciscando ali. Abaixa a mão, abaixa a mão, abaixa a mão. Na hora que eles abaixaram ali a gente [atirou]. Até teve um que meio que sacou", disse um dos soldados. Não havia, pelas imagens nenhum homem armado além dos policiais. Em nota enviada ao G1, Gabriela Amoras Silva, Jonatha Carvalho Matos e Wilson Zaska, advogados que atuam como assistentes de acusação e representantes dos familiares de Igor Moraes de Oliveira, afirmaram respeitar a soberania das decisões do Tribunal do Júri, mas entendem que a absolvição foi "manifestamente contrária às provas produzidas nos autos". "Durante a instrução processual e o julgamento, foram apresentadas provas que demonstram que Igor foi morto quando já estava rendido, impondo a responsabilização dos acusados. Diante disso, serão adotadas todas as medidas legais cabíveis para submeter a decisão ao reexame do Tribunal de Justiça", afirmaram. Os advogados informaram ainda que já recorreram da sentença e disseram confiar que o Tribunal de Justiça restabelecerá a correta aplicação da lei, determinando a realização de um novo julgamento pelo Tribunal do Júri. O MP-SP disse em nota que respeita a decisão dos jurados, mas, discordando dela, interpôs recurso de apelação ao final do julgamento, considerando a decisão manifestamente contrária à prova dos autos. Reação imediata A morte de Igor causou uma onda de protestos naquele dia em Paraisópolis, com incêndios, depredações e conflitos com a PM. No dia seguinte, o porta-voz da corporação, o coronel Emerson Massera, afirmou que dois agentes Robson Noguchi de Lima e Renato Torquatto da Cruz foram presos em flagrante por homicídio doloso após a análise das imagens das câmeras. — A análise nos indicou que a morte do Igor Oliveira não foi dentro de padrões que nós esperávamos, dentro das excludentes de ilicitude. Visualizamos, pelas câmeras, que dois PMs que atiraram no Igor o fizeram já com o homem rendido e a providência tomada foi a prisão em flagrante — falou o coronel durante coletiva de imprensa. Nessa ocorrência, os agentes estavam usando o novo sistema de câmeras corporais do estado, em que as gravações não são ininterruptas, mas precisam ser acionadas pelos agentes. Um dos policiais que estava na ocorrência acionou a câmera em determinado momento, e a partir daí “todas as câmeras acabaram acionadas pelo sistema Bluetooth”. O modelo usado pela corporação faz com que, quando uma câmera é acionada por um policial, todas as que estiverem em um raio de 20 metros de distâncias também são automaticamente acionadas, pela tecnologia de georreferenciamento. Batalhão mais letal Como mostrou O GLOBO no fim do ano passado, o 16° Batalhão da PM é o mais letal de São Paulo. A unidade a que pertencem os policiais do caso de Igor Oliveira de Moraes Santos acumula casos controversos e é o batalhão titular da área com o maior número de mortes em decorrência de intervenção policial na capital paulista. Nos últimos 12 anos, 398 mortes em decorrência de intervenção policial aconteceram na área do 16ºBPM/M, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, atualizados até setembro de 2025. O GLOBO analisou as ocorrências e constatou que ao menos 40% desses óbitos, ou 162, foram em áreas que ficam dentro de favelas ou até 200 metros delas. Os dados mostram que 2024 foi o segundo ano mais letal do batalhão, com 43 óbitos, só perdendo para 2018, quando foram registradas 48 mortes. Em 2025, até setembro, foram 18 casos.