O vídeo também foi obtido por O GLOBO e pode ser visto abaixo. O material faz parte do processo judicial que levou a condenação dos policiais pelo Tribunal de Justiça Militar. As imagens flagraram a atuação dos agentes na Favela da Caixa D'Água, no bairro de Cidade Tiradentes. As gravações mostram os jovens já rendidos, sentados no chão e cercados por policiais. O 1º sargento Amauri dos Santos olha para um dos colegas e aponta para a câmera corporal antes de se agachar em um corredor estreito, onde estavam dois jovens. Logo depois ele retira um revólver, arma que, de acordo com a investigação, não integrava o patrimônio da Polícia Militar. Diante dos adolescentes, ele coloca uma munição no tambor, gira o mecanismo e aponta a arma para a cabeça de um deles. As imagens registram ainda o policial encostando o revólver na região do pescoço e da têmpora da vítima, em uma cena descrita pela acusação como uma simulação de execução. A filmagem foi recuperada pela Corregedoria da PM mediante uma auditoria interna. À época, as câmeras utilizadas pelos agentes operavam no chamado modo Recall, tecnologia que mantinha registro contínuo das ocorrências, mesmo quando o policial não acionava manualmente o equipamento. O sistema armazenava retroativamente as imagens e acabou registrando integralmente a ação dos agentes, incluindo momentos em que alguns deles aparentam tentar esconder o equipamento ou se posicionar fora do seu alcance. Segundo o Ministério Público Militar, a operação teve início após policiais receberem informações sobre a atuação do tráfico de drogas na comunidade. Durante a incursão, dois adolescentes foram abordados e passaram a ser interrogados pelos agentes. Para os promotores, a prática configurou tortura mediante grave ameaça. Na denúncia, o Ministério Público sustenta que os adolescentes foram submetidos a intenso sofrimento físico e psicológico com o objetivo de fornecer informações sobre a localização de drogas e sobre integrantes da facção criminosa que atuaria na região. O tribunal acolheu o entendimento e considerou que a violência empregada pelos agentes tinha caráter deliberado e não guardava relação com qualquer necessidade operacional. Outro policial condenado no processo foi o cabo Sandro da Silva Nascimento. Mais filmagens mostram o agente segurando um dos adolescentes pelo pescoço enquanto aponta uma pistola em sua direção. Em outro trecho, ele aparece conduzindo os jovens até uma viatura estacionada nas proximidades. Segundo os autos, Sandro também participou das diligências posteriores realizadas dentro da comunidade e auxiliou outros policiais durante as buscas em imóveis. A investigação também concluiu que os agentes ingressaram em residências sem autorização dos moradores e sem mandados judiciais. Em uma das casas, os policiais encontraram porções de drogas e outros materiais associados ao tráfico. Em outra, familiares acompanhavam a ação dos agentes. Nenhum dos moradores, segundo o processo, consentiu formalmente com a entrada dos militares. A sequência das imagens permitiu à Corregedoria reconstruir o deslocamento dos policiais pela comunidade e identificar a participação individual de cada um dos envolvidos. Um dos pontos que mais chamou a atenção dos investigadores foi o comportamento dos policiais diante das câmeras corporais. Em diversos momentos, os agentes parecem demonstrar conhecimento de que estavam sendo gravados. O sargento Amauri, por exemplo, chega a fazer gestos em direção ao equipamento preso ao uniforme. Em outras ocasiões, policiais desviam o corpo, cobrem parcialmente a lente ou deixam o enquadramento da câmera. Para a acusação, houve uma tentativa deliberada de dificultar o registro dos fatos, o que fundamentou a condenação por fraude processual. Apesar disso, a tecnologia Recall garantiu a preservação das imagens. Diferentemente do modelo atualmente empregado pela Polícia Militar paulista, que depende de acionamento pelo agente ou pelo Centro de Operações, o sistema então utilizado realizava gravação contínua. A auditoria conduzida pela Corregedoria também identificou inconsistências relacionadas ao material apreendido durante a operação. Conforme os autos, drogas e outros objetos recolhidos pelos policiais foram colocados em uma das viaturas, mas não constavam posteriormente nos registros oficiais da ocorrência. A ausência dos itens motivou a acusação de peculato contra parte dos envolvidos. Ao todo, nove policiais militares foram denunciados pelo Ministério Público Militar. Na última quarta-feira, o Tribunal de Justiça Militar condenou o sargento Amauri dos Santos a 12 anos e cinco meses de prisão pelos crimes de tortura, abuso de autoridade, fraude processual e peculato. Já o cabo Sandro da Silva Nascimento recebeu pena de quatro anos e dez meses, em regime semiaberto, pelos crimes de tortura e abuso de autoridade. Outros sete policiais, entre eles o soldado Eduardo Uchôa Vieira de Oliveira, tiveram os processos desmembrados e aguardam julgamento. As defesas dos agentes sustentam que os fatos devem ser analisados individualmente e afirmam que irão recorrer das decisões proferidas pelo TJM. Em nota exibida pelo Fantástico, a Polícia Militar informou que ampliou o número de câmeras corporais em operação no estado e que acompanha continuamente o desempenho da tecnologia empregada pela corporação. A instituição afirmou ainda que os equipamentos representam um instrumento importante para o fortalecimento da transparência e para o aperfeiçoamento dos protocolos de atuação policial.
'Roleta russa': PM acusado de tortura apontou para câmera corporal antes de simular execução; veja vídeo
Nas imagens, jovens já rendidos por policiais são alvo de tortura em São Paulo; caso ocorreu em fevereiro de 2025, mas imagens vieram à tona após reportagem do Fantástico







