Caso só veio à tona porque antigos equipamentos registravam continuamente a rotina dos policiais; modelo atual depende de ativação e preserva apenas os 90 segundos anteriores ao acionamento 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 PM faz roleta-russa com adolescente e é condenado por tortura — Foto: Reprodução/TV Globo RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 20/07/2026 - 18:06 Substituição de câmeras corporais da PM-SP gera críticas e dúvidas judiciais O sistema de câmeras corporais da PM de São Paulo, crucial para a condenação de policiais por tortura, foi substituído por um modelo que grava apenas 90 segundos antes da ativação, limitando a fiscalização contínua. Essa mudança, motivada por economia, gerou críticas e questionamentos judiciais sobre a transparência e eficácia na redução da letalidade policial. O caso de tortura só foi descoberto devido à revisão dos registros antigos. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO As imagens que levaram à condenação de dois policiais militares por tortura, abuso de autoridade, fraude processual e peculato em São Paulo só vieram à tona após uma auditoria de rotina nos registros das antigas câmeras corporais utilizadas pela Polícia Militar. O caso, revelado pelo Fantástico, pôde ser reconstituído porque os equipamentos registravam continuamente a jornada dos agentes, ainda que sem áudio e em baixa resolução. A tecnologia, porém, já não existe: o modelo foi substituído pelo governo paulista e deu lugar a um sistema que depende do acionamento das câmeras para preservar as imagens. No fim de 2024, o governo paulista realizou uma nova licitação para renovar as câmeras corporais da PM. O leilão foi vencido pela Motorola, que passou a substituir gradualmente os equipamentos fornecidos antes pela Axon. Com a mudança, deixou de existir o modelo de gravação contínua adotado anteriormente. Uma das justificativas para a troca, segundo o governo do estado, era que o armazenamento contínuo gerava muita despesa. Segundo a SSP, o contrato com a Motorola representava uma economia anual entre 30% e 50% em relação ao anterior, além de ampliar o número de equipamentos disponíveis. No modelo anterior, as câmeras gravavam toda a jornada dos policiais, sem áudio e em baixa resolução. Quando o equipamento era acionado, a qualidade da imagem aumentava e a captação de áudio era iniciada. Já o sistema da Motorola preserva apenas os 90 segundos anteriores ao início da gravação e depende de acionamento pelo policial, pelo Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) ou por gatilhos automáticos previstos em protocolo. Entre eles, estão o despacho de ocorrências pelo 190, a ativação em locais próximos a um equipamento que já esteja gravando e a possibilidade de religamento remoto após uma interrupção manual do registro. Câmeras corporais flagram PM realizando 'roleta russa' contra jovem durante operação em SP O fim da gravação ininterrupta foi questionado judicialmente pela Defensoria Pública de São Paulo e acabou chegando ao Supremo Tribunal Federal (STF). Por determinação do então ministro Luís Roberto Barroso, foi criado um grupo de trabalho com representantes da Defensoria, do Ministério Público, da Polícia Militar e da Secretaria da Segurança Pública para definir parâmetros de avaliação, metas e os mecanismos de transparência para o novo modelo. Apesar das metas, o fim do modelo anterior é visto como um retrocesso para Luiza Correa de Magalhães Dutra, doutora em Ciências Criminais pela PUCRS e especialista em segurança pública. Para ela, sem a gravação ininterrupta, a capacidade de fiscalização da atividade policial fica reduzida, já que dificilmente um agente acionará voluntariamente a câmera enquanto ultrapassa os protocolos de abordagem. — No momento em que o policial pode acionar e controlar a câmera, a produção das imagens passa a ser muito do que ele quer que a gente veja — afirma Luiza. Na sua avaliação, a substituição da gravação contínua também cria pontos cegos na fiscalização e representa um movimento na direção oposta ao observado nos últimos anos, quando o uso das câmeras foi associado à redução da letalidade policial em São Paulo. — É um retrocesso. A gravação ininterrupta era um ponto basilar para qualquer política pública que pretendesse mudar as ações do dia a dia da polícia — ela diz. Segundo a decisão do Tribunal de Justiça Militar (TJM-SP), a investigação que levou a prisão dos policiais começou de maneira incomum. Nenhum dos adolescentes procurou a polícia para denunciar as agressões. O caso chegou à Corregedoria da PM após uma auditoria de rotina das câmeras corporais. Foi a análise dos registros, descrita pelo Ministério Público como feita "vídeo por vídeo, frame por frame", que permitiu reconstruir a ação dos agentes. Em nota ao Fantástico, a Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) afirma que ampliou em 50% o programa de câmeras corporais, que atualmente conta com 15 mil equipamentos, e que acompanha permanentemente o funcionamento da tecnologia para aprimorar a transparência e a segurança das intervenções policiais. Procurada pelo GLOBO, a SSP-SP não respondeu aos questionamentos sobre a capacidade do modelo atual de câmeras corporais de registrar integralmente uma ocorrência semelhante. A reportagem perguntou, entre outros pontos, se as imagens exibidas pelo Fantástico teriam sido preservadas pelo sistema atualmente em uso, em quais situações a gravação é acionada automaticamente, se há possibilidade de uma ocorrência deixar de ser registrada. O espaço segue aberto. 'Roleta-russa' As imagens mostram o então sargento Amauri dos Santos colocando uma munição em um revólver não pertencente à corporação, girando o tambor e apontando a arma para a cabeça e o pescoço de um adolescente rendido. O cabo Sandro da Silva Nascimento também aparece pressionando o pescoço de uma das vítimas, dando um tapa em seu rosto e apontando sua arma em sua direção. Para a Justiça Militar, os adolescentes já estavam completamente dominados quando passaram a ser torturados. Segundo os magistrados, o sofrimento físico e psicológico foi "empregado deliberadamente" para obter informações sobre locais supostamente utilizados para armazenar drogas na comunidade, levando os policiais a novas diligências. "A evolução cronológica dos fatos demonstra, de forma inequívoca, que foi imposto sofrimento físico e psicológico às vítimas, o que não constituiu mero excesso, abuso episódico ou simples atitude irregular, mas instrumento deliberadamente empregado para obtenção de informação", diz outro trecho da sentença. Após as ameaças, Amauri e Sandro conduziram um dos adolescentes até a Rua Vicente José Cabral e entraram em diversas residências da Favela da Caixa D'Água sem mandado judicial, segundo o TJM. Em um dos imóveis, moradores acompanhavam a ação. A Justiça Militar considerou ilegais as incursões Amauri foi condenado a 12 anos e cinco meses de prisão pelos crimes de tortura, abuso de autoridade, fraude processual e peculato. Sandro recebeu pena de quatro anos e dez meses, em regime semiaberto, por tortura e abuso de autoridade. Ao Fantástico o advogado de Sandro sustentou que a conduta do cabo configurava apenas uma transgressão disciplinar, tese rejeitada pela Justiça. Eduardo Uchoa e outros seis policiais são réus e ainda serão julgados. Em nota, a defesa de Uchoa afirmou que acredita na inocência do soldado. Outros sete policiais ainda respondem ao processo. A defesa de Amauri não quis comentar o caso, o espaço segue aberto.