Tribunal concluiu que não havia provas para manter a acusação; análise técnica das imagens apontou que o disparo que atingiu a viatura partiu da arma de um dos policiais 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Frame da câmera corporal mostra o visor de um celular marcando 0h40, horário que coincide com o registro temporal da gravação e foi usado para validar a sincronização das imagens — Foto: Reprodução RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 24/07/2026 - 17:00 Câmeras Corporais Provam Inocência de Jovens Acusados no RJ A Justiça do Rio de Janeiro ordenou a soltura de dois jovens presos desde 2024 acusados de tentativa de homicídio contra PMs, após câmeras corporais refutarem a versão policial. O Tribunal de Justiça concluiu que o tiro que atingiu a viatura partiu de um policial, não dos jovens. A decisão destacou a falta de provas e perícias, enquanto a Defensoria Pública ressaltou a importância das câmeras como evidência. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A Justiça do Rio determinou a soltura de dois jovens presos desde outubro de 2024 após concluir que não havia provas suficientes para mantê-los acusados de tentativa de homicídio contra dois policiais militares durante uma perseguição em São Gonçalo, na Região Metropolitana. Em decisão unânime, a 8ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio (TJRJ) decidiu que Renan dos Santos Nascimento Silva e Douglas Mendes da Silva não devem mais responder por esse crime no Tribunal do Júri e revogou a prisão dos dois. A decisão também beneficiou Alessandro Soares Bandeira, que continuará preso porque responde a outra acusação. O caso ocorreu na madrugada de 28 de outubro de 2024. Segundo a denúncia do Ministério Público, policiais militares tentaram abordar um Hyundai HB20 branco que desobedeceu à ordem de parada e fugiu. Durante a perseguição, os agentes afirmaram que um dos ocupantes do carro atirou contra a viatura, atingindo o retrovisor do veículo. Os policiais reagiram a tiros. Os quatro ocupantes do automóvel foram baleados. Pablo Roberto da Silva Barbosa morreu após dar entrada no hospital. Falhas na investigação Ao analisar o recurso da Defensoria Pública, os desembargadores entenderam que não havia elementos suficientes para sustentar a acusação de tentativa de homicídio. No voto, o relator, desembargador Marcius da Costa Ferreira, destacou que não foi realizada perícia no local da ocorrência, nem na viatura policial ou no HB20. E observou que a arma que, segundo a acusação, teria sido usada pelos ocupantes do veículo nunca foi localizada. "O acervo probatório não é robusto para indicar que os réus atiraram contra os policiais com o dolo de matá-los", escreveu o relator. O magistrado também afirmou que a acusação não comprovou que o disparo que atingiu o retrovisor da viatura partiu dos ocupantes do carro. O que mostraram as câmeras Um dos principais elementos apresentados pela defesa foi um relatório elaborado pelo Projeto Mirante, iniciativa do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni-UFF) em parceria com núcleos da Defensoria Pública do Rio e de São Paulo, especializada na reconstrução técnica de casos envolvendo violência de Estado. O estudo foi produzido pela arquiteta forense Flávia Palladino a partir da análise quadro a quadro das imagens registradas pelas câmeras corporais dos próprios policiais envolvidos na ocorrência. Segundo o relatório, a perseguição durou cerca de dois minutos e dez segundos e, nesse intervalo, o policial militar Leandro Hardoim da Silveira efetuou ao menos dez disparos de fuzil contra o HB20. A reconstrução técnica concluiu que o tiro que atingiu o retrovisor direito da viatura partiu da arma do próprio policial durante a perseguição, e não dos ocupantes do carro. Imagens das câmeras corporais registram marcas de tiros no HB20 onde estavam os quatro jovens — Foto: Reprodução A análise também apontou que o veículo não apresentava danos visíveis na parte frontal compatíveis, segundo o relatório, com a versão apresentada pelos policiais de que teria rompido duas barricadas durante a fuga. As imagens ainda mostrariam que Alessandro Soares Bandeira dirigia o carro e que Douglas Mendes da Silva ocupava o banco do passageiro, diferentemente da versão apresentada em depoimento pelos policiais, que identificaram Alessandro como o ocupante que teria efetuado o disparo contra a viatura. Outro ponto destacado pelo relatório é que nenhuma arma foi encontrada durante a revista no carro, com os ocupantes ou ao longo do trajeto percorrido pela perseguição. O documento também registra que as imagens mostram apenas um atirador durante toda a ação: o policial que ocupava o banco do passageiro da viatura. Embora o acórdão não adote expressamente todas as conclusões da reconstrução técnica, os desembargadores destacaram que a investigação não reuniu provas suficientes para sustentar a acusação, diante da ausência de perícias e da falta de elementos que comprovassem que o disparo contra a viatura partiu dos ocupantes do carro. O que muda agora Com a decisão, Renan, Douglas e Alessandro deixam de responder por tentativa de homicídio perante o Tribunal do Júri. O processo continuará na Vara Criminal em relação aos demais crimes apontados pelo Ministério Público. Renan e Douglas responderão em liberdade. Alessandro permanecerá preso porque também responde à acusação de corrupção ativa e possui condenação anterior por crime patrimonial, segundo o documento. Em nota, o defensor público Rodrigo Azambuja afirmou que a decisão reforça a importância das câmeras corporais como instrumento de produção de prova: "As imagens das câmeras corporais permitiram reconstruir a ocorrência com precisão e revelaram inconsistências que não poderiam ser ignoradas. A decisão reafirma que ninguém pode responder por uma acusação tão grave quando as provas objetivas apontam em sentido contrário", disse. Paralelamente ao processo criminal, o Núcleo de Defesa dos Direitos Humanos (Nudedh), da Defensoria Pública, move uma ação para responsabilizar o Estado pela morte de Pablo Roberto da Silva Barbosa. Como foi feita a reconstrução da perseguição O relatório foi elaborado pela arquiteta forense Flávia Palladino, do Projeto Mirante. A análise técnica sincronizou as imagens captadas pelas câmeras corporais dos dois policiais envolvidos na ocorrência e fez uma avaliação quadro a quadro das gravações, com uso de ferramentas de ampliação, ajuste de velocidade e outros recursos de tratamento de imagem. O estudo também confrontou os vídeos com documentos da investigação, depoimentos prestados e dados de geolocalização, permitindo reconstruir a dinâmica da ação. A perícia se concentrou em quatro momentos principais: a perseguição ao veículo, a sequência dos disparos, a abordagem aos ocupantes do HB20 e a revista realizada no automóvel.