Trump e Milei invadiram a campanha eleitoral brasileira. Numa operação coordenada pela Casa Branca, converteram-se em cabos eleitorais de luxo de Flávio Bolsonaro. "Presidente não deve se envolver em eleição de outro país", lembrou Alckmin, em meio ao fogo.

São palavras simples, mas sábias. A interferência veicula desprezo pelo princípio da soberania nacional, que se expressa como soberania popular. Só vale no caso de ditaduras, onde os detentores do poder anularam os direitos do povo. Aí, é quase obrigação a solidariedade com dissidentes perseguidos (uma regra, aliás, que Lula ignora quando se trata de "ditaduras companheiras").

Alckmin não era aliado de Lula em 2006, época em que o PT o qualificava como "fascista". Por isso, não podia tentar evitar a viagem do presidente à Venezuela para participar de comício de campanha de Hugo Chávez, ocasião em que atacou a "imprensa" e as "elites" (ou seja, na linguagem dele, a oposição). Mas já era vice e calou-se em 2023, quando Lula não só declarou apoio a Sergio Massa como, via Sidônio Palmeira, enviou à Argentina um comboio de marqueteiros para reforçar a campanha peronista.

Seria um erro, contudo, concluir que Lula colhe o que semeou. Primeiro, porque a dupla Trump/Milei não precisa de precedentes legitimadores. Segundo, porque a operação em curso ultrapassa o campo do discurso –e mesmo das ofensas vulgares do fanfarrão da Casa Rosada. O que está em curso é uma versão diplomática da Doutrina Donroe.