Quando Richard Gelfond, CEO da Imax, contratou seu primeiro chefe de gabinete, ele procurava uma "sombra": alguém que pudesse tomar notas durante as reuniões e avisá-lo sobre o compromisso seguinte. Mas, com o tempo, à medida que a companhia canadense de tecnologia para entretenimento se tornou mais complexa — passando de 55 salas para quase 2.000 em mais de 90 países —, os chefes de gabinete que já teve foram ganhando mais importância. — Eles são realmente inestimáveis para me ajudar a pensar no que quero dizer e alcançar, em como colocar isso em prática e, depois, na própria execução — afirmou Gelfond. Raphael Roesler, que foi seu chefe de gabinete na Imax até junho de 2025, trabalhou recentemente em um projeto de grande visibilidade: acompanhou o trabalho da equipe de pesquisa e desenvolvimento para construir a câmera especial usada em “A Odisseia”, sucesso do verão dirigido por Christopher Nolan. Matt Baer, à direita, presidente-executivo da Stitch Fix, com Elliott Glass, seu chefe de gabinete, em Manhattan — Foto: Karsten Moran/The New York Times Gelfond conta com um chefe de gabinete (em inglês, chief of staff) há 16 anos, mas o cargo vem se tornando cada vez mais popular entre outros executivos. Desde o início de 2020, o número de anúncios de vagas para essa função aumentou 85% nos Estados Unidos, segundo o Indeed, um site americano de empregos. É um ritmo superior ao observado nas vagas para assistentes executivos e secretários, profissionais que também ajudam líderes empresariais a administrar o dia a dia. 'Segundo cérebro' do chefe Ao contrário de um assessor especial ou um assistente executivo, o chefe de gabinete costuma ocupar uma posição de nível sênior, segundo dados do Indeed, porque funciona como uma espécie de "segundo cérebro" para o atarefado chefe. — Um assistente executivo decide em que horário alguma coisa entra na agenda, enquanto o chefe de gabinete decide se ela deve ou não entrar na agenda — define Clara Ma, fundadora e CEO da Ask a Chief of Staff, uma plataforma que conecta profissionais da área em diferentes setores. Quanto ganha? De acordo com uma pesquisa realizada por ela, a remuneração anual do cargo varia de US$ 150 mil a mais de US$ 200 mil (de R$ 765 mil a R$ 1,02 milhão) por ano, dependendo da experiência. Empresas de recrutamento de executivos, como a Russell Reynolds Associates, vêm recebendo mais solicitações de companhias interessadas em contratar chefes de gabinete. E elas não estão procurando esses profissionais apenas para o principal executivo. Dirigentes de níveis inferiores, como vice-presidentes das áreas de marketing, comunicação e finanças, também estão passando a contar com eles. O 'orquestrador' Em uma dúzia de entrevistas realizadas para esta reportagem, CEOs, consultores e chefes de gabinete apontaram a crescente complexidade de administrar uma empresa em um momento no qual a inteligência artificial (IA) e a geopolítica ameaçam transformar profundamente os modelos de negócios. É nesse cenário que entra o chefe de gabinete, capaz de atuar como o “orquestrador” que garante uma boa colaboração entre os líderes da companhia, afirmou Catherine Berardi, ex-chefe de gabinete de Mellody Hobson, copresidente-executiva da Ariel Investments. — Quando pensamos nos grandes desafios enfrentados atualmente pelas organizações (IA, segurança cibernética, sucesso do cliente, crescimento), é difícil dizer: ‘isso é responsabilidade apenas sua’ — afirmou Berardi, que dirige a Prime Executive Office, empresa que recruta líderes para gabinetes executivos, entre eles chefes de gabinete — Os CEOs precisam de alguém que garanta que tudo seja coordenado, funcione bem e não se transforme em um pesadelo. O que eles fazem de tão especial? As atribuições de um chefe de gabinete podem variar muito, dependendo do que o chefe deseja ou das necessidades da empresa. Alguns têm subordinados diretos; outros, não. O ponto em comum é que o chefe de gabinete tem um único cliente: o chefe. Essa figura era mais conhecida no setor público, com os chefes de gabinete de autoridades. Os mais conhecidos nos EUA trabalharam na Casa Branca, atuando como guardiões do acesso ao presidente e também como figuras poderosas por mérito próprio. Mas o mundo corporativo americano está aderindo à ideia. Valerie Jarrett, atual presidente-executiva da Fundação Obama, foi a assessora sênior que permaneceu por mais tempo na Casa Branca e contou com chefes de gabinete tanto na política quanto no setor privado. Ela própria foi chefe de gabinete adjunta de Richard M. Daley quando ele era prefeito de Chicago. Do ponto de vista do executivo, afirmou Jarrett, o chefe de gabinete é alguém sem responsabilidades operacionais ou departamentais específicas, mas cujo “trabalho sou eu”. Conquista e articulação Depois de conquistar a confiança do líder, o chefe de gabinete precisa ganhar o respeito dos demais executivos. Cabe a ele assegurar que as diferentes unidades de negócios — e seus respectivos líderes — se comuniquem adequadamente e concluam as tarefas que o CEO deseja executar em toda a empresa. Ao avaliar opiniões divergentes, os líderes recorrem ao chefe de gabinete em busca de uma perspectiva neutra. Trampolim para o topo Muitas pessoas procuram esse cargo quando desejam usá-lo como trampolim para uma posição de maior senioridade ou de gestão. Um chefe de gabinete da IBM entrevistado para esta reportagem decidiu abrir mão de uma pós-graduação em administração para aceitar o emprego. Outros já contavam com uma década de experiência profissional. A função proporciona contato com toda a organização — e, consequentemente, uma oportunidade natural de ampliar a rede de relacionamentos. Vikram Arumilli trabalhou na consultoria McKinsey e estudou na Wharton School antes de se tornar chefe de gabinete de Gelfond, na Imax, em 2019. Ele permaneceu no cargo até 2022, durante um período de grandes transformações para o setor de salas de cinema. Gelfond, que normalmente troca de chefe de gabinete a cada dois anos, colocou Arumilli em uma força-tarefa sobre a Covid-19, ao lado do diretor de recursos humanos e do diretor financeiro em 2020. Arumilli também passou um período na Índia pesquisando como a Imax poderia ampliar sua presença no país e ajudou a companhia a adquirir uma empresa de software. Mais tarde, Arumilli tornou-se gerente-geral da divisão de streaming e tecnologia para consumidores da Imax. Neste verão, aceitou o cargo de CEO de uma empresa de software sediada na Nova Zelândia. Outros ex-chefes de gabinete entrevistados para esta reportagem passaram a ocupar cargos como vice-presidente de receita e operações do Yahoo Search e presidente da Thrive Global, empresa de saúde e bem-estar de Arianna Huffington. Nem todo chefe quer um 'braço direito'... Nem todos os altos executivos, porém, estão convencidos de que precisam de um chefe de gabinete. — Sempre enxerguei essa função como uma espécie de guardião, alguém que fica entre o executivo e todas as outras pessoas — diz Spencer Rascoff, CEO do Match Group, proprietário dos aplicativos de relacionamento Tinder e Hinge. — Esse não é o meu estilo. Não quero ninguém entre mim e minhas equipes. ... mas talvez adote um assistente digital Ele recorre a agentes de IA para ajudá-lo a organizar o dia e executar tarefas que às vezes cabem aos chefes de gabinete, como a preparação para reuniões. Ainda assim, entende o apelo de ter um assessor adicional ao lado. — Acho que existe uma diferença entre a IA ajudar alguém a fazer melhor seu trabalho e substituir o discernimento e a capacidade de construir relacionamentos que um bom líder, ou um bom chefe de gabinete, realmente oferece — admitiu Rascoff. Gelfond disse não ter refletido muito sobre como a IA poderia modificar essa função em seu caso. Seus chefes de gabinete dominam a tecnologia melhor do que ele e lhe apresentam ideias de como ela pode ser utilizada na organização. “Talvez eles me ensinem o suficiente para que eu possa substituí-los”, afirmou Gelfond. “Mas ainda não fizeram isso.”
CEO que se preza tem ‘sombra’: o que fazem e quanto ganham os chefes de gabinete que líderes de empresas estão contratando
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