Parceiro do Poeta da Vila em 'Feitio de oração' e 'Conversa de botequim', paulista que trabalhou nos EUA com Carmen Miranda e com a Disney tem partituras descobertas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O pianista, arranjador e compositor Vadico, parceiro de Noel Rosa — Foto: Divulgação Parceiro de Noel Rosa (1910-1937), o poeta da Vila e um dos maiores nomes da história do samba em 12 composições — entre elas, os clássicos “Feitio de oração”, “Feitiço da Vila” e “Conversa de botequim” —, o paulistano Oswaldo Gogliano, o Vadico, permaneceu por anos como um enigma. Exímio pianista, compositor, arranjador, regente e diretor musical, com pouco mais de 20 anos ele já tinha sido gravado por Francisco Alves. Em 1939, após a morte do parceiro (nascido no mesmo ano que ele), Vadico aceitou um convite para se apresentar no Pavilhão Brasileiro da Feira Mundial de Nova York e sumiu. Sua vida tomaria um novo rumo. Nos Estados Unidos, além de trabalhar com Carmen Miranda e com a Disney, ele participou da gravação de vários discos e ainda fez a direção musical da companhia da bailarina Katherine Durham, uma pioneira na luta pelos direitos civis dos negros americanos. Esse Vadico para além de Noel, que voltou ao Brasil em 1953, onde realizou mais alguns trabalhos (e lutou para ter reconhecida a coautoria nos sambas do parceiro), até morrer de infarto, em 1962, é revelado na caixa de três CDs “Vadico”, que o Selo Sesc acaba de lançar e será celebrada com shows no Sesc Pinheiros (em São Paulo) sábado e no domingo, com músicos que participaram da gravação como o pianista Cristóvão Bastos e a cantora Ná Ozzetti. A caixa de CDs "Vadico" — Foto: Reprodução O estopim para o projeto, executado pelo violonista, arranjador, produtor e pesquisador paulista Franco Galvão, 37, foi a descoberta, por ele, de 541 páginas de partituras inéditas de Vadico nos arquivos da Southern Illinois University, nos Estados Unidos, produzidas durante as décadas de 1940 e 1950. A partir daí, Franco partiu para um intenso trabalho de catalogação, restauração e análise do material, complementado por pesquisas em instituições como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, o Instituto Moreira Salles, o Instituto Memória Musical Brasileira, o Instituto Brasileiro de Piano e diversos acervos particulares. — Muito antes da bossa nova, o Vadico já propunha com a sua música algumas inovações e aprimoramentos que têm a ver tanto com a influência do clássico quanto com a do jazz. E ele também traz uma proposta da intersecção entre os mundos da música de concerto e da música brasileira, é um compositor que arrisca e que dilui essas fronteiras — analisa Franco, que coordenou as gravações das 37 faixas da caixa, feitas mais de 170 músicos, entre os quais o violonista Guinga, o pianista Cristóvão Bastos e os cantores Zé Renato e Ná Ozzetti. O violonista Guinga, em gravação para a caixa de CDs "Vadico" — Foto: Divulgação Cada CD de “Vadico” evidencia uma faceta do criador musical. O primeiro traz as peças instrumentais, para grandes formações, populares e de concerto. O segundo concentra as obras instrumentais para pequenas formações, como regional de choro e trio de jazz. E o terceiro reúne as canções, jogando luz tanto sobre o Vadico carnavalesco, das marchinhas e de maxixes, quanto sobre o compositor cosmopolita, recém-retornado dos EUA. — Na volta ao Brasil, o Vadico tocou piano com Roberto Carlos. Foi convidado para fazer o primeiro disco do Cartola, que nunca se realizou. Foi chamado pelo Vinicius de Moraes, que ele tinha conhecido em Los Angeles, para compor o “Orfeu da Conceição”, antes do Tom Jobim. E entregou uma música para o João Gilberto (“Filho de bacana”), que eu encontrei no Instituto Antônio Carlos Jobim, uma música que a gente gravou — conta Galvão. Para o produtor de “Vadico”, o grande desafio, nesse seu trabalho que lhe tomou seis anos, foi o de dar um tratamento digno para “um patrimônio histórico dessa envergadura” sem transformá-lo “numa peça de museu que vai ficar lá atrás de um vidro”. — Fiz escolhas e organizei formações musicais de modo a contemplar pessoas de diversas regiões, com diferentes cores de pele, pessoas em diferentes momentos na carreira, com diferentes idades, com paridade de gênero. Aí você tem uma produção mais voltada para a atividade criativa de hoje, com diferentes pontos de vista — diz.