Não existe insólito mais insólito na literatura latino-americana do que aquele visto na obra da argentina Mariana Enriquez. As fantasmagorias que assombram seus textos remetem aos horrores históricos e sociais que rondam o passado do continente e persistem na atualidade.
O título de sua nova coletânea, Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria, sintetiza a dualidade presente nos 12 contos que compõem o livro. Os fantasmas estão presentes na maior parte dos textos, e, é claro, correspondem mais a um clima político do que a figuras do terror – ainda que a autora se valha das ferramentas do gênero.
O primeiro conto, Meus Mortos Tristes, se passa em um bairro de classe média que atravessa uma onda de violência atribuída à periferia. O fantasma a atormentar o local é o de um adolescente morto a tiros num roubo.
Em Olhos Negros, funcionários de uma ONG que, à noite, entregam comida a pessoas em situação de rua em Buenos Aires, ficam aterrorizados ao ver uns garotos que lhes parecem estranhos: “Eles estavam mal. Eles eram o Mal”, diz a narradora.
Essa atmosfera do estranho que guarda algo de conhecido, mas, ao mesmo tempo, encerra em si o desconhecido, marca toda a produção da autora. Os corpos, em sua literatura, transformam-se em lugar de disputa.







