Ao longo das últimas décadas, Mariana Enriquez tem sustentado uma das mais impressionantes produções de contos da literatura latino-americana. Publicou "Os Perigos de Fumar na Cama" em 2009, "As Coisas que Perdemos no Fogo" em 2016, e "Um Lugar Ensolarado para Gente Sombria" em 2024, que sai agora no Brasil pela Intrínseca.
Enriquez escreve em um novo gênero literário para o qual ainda não existe nome convencionado. Ela certamente é uma autora de terror, mas um terror que não acontece mais em castelos europeus, ou em pequenas cidades do Maine, e sim aqui, na nossa desigual e violenta América Latina, marcada pela herança maldita de ditaduras e golpes de Estado, hiperinflação e desigualdade.
Além disso, não é mais um terror visto pelos olhos dos homens, mas atravessado pela especificidade das vivências femininas. Por fim, é uma literatura ancorada no presente, que menciona recentíssimos programas de televisão e aplicativos de celular, onde personagens de identidades fluidas frequentam cenas underground e ainda lembram a pandemia do Covid-19.
O sentido de atmosfera em Enriquez é imbatível. Ela é a rainha do "unheimlich", aquela sensação de irrealidade tão bem estudada por Freud e traduzida às vezes como "o infamiliar" ou "o estranho", onde o horror fica latente e sufocante, quase acontecendo, bem ali na superfície do possível.










