Era noite de terça-feira no Brasil e manhã de quarta na Tasmânia, ilha australiana famosa por sua fauna incomum. Mariana Enriquez, que se mudou para lá no ano passado, tinha uma entrevista por vídeo marcada com o GLOBO. Mas nem sinal dela. Um tempo depois, ela mandou uma mensagem: “Aconteceu uma coisa muito estranha: acabou a eletricidade! E só na minha casa”. É o tipo de coisa estranha que acontece nas histórias da escritora argentina, nas quais bairros respeitáveis são invadidos por fantasmas, crianças mutiladas e mendigos aterrorizantes. Autora de volumes de contos como “Os perigos de fumar na cama” e do romance “Nossa parte de noite”, Mariana é capitã de um time de escritoras (da equatoriana Mónica Ojeda à brasileira Ana Paula Maia) que revitalizaram a literatura de horror a partir da experiência latino-americana. Sua obra trabalha os traumas históricos de seu país (e de toda a região), como a violência, a ditadura, o racismo e a insegurança social. Em várias histórias, o horror irrompe do próprio corpo — em especial, do corpo feminino. É o caso de alguns contos de “Um lugar ensolarado para gente sombria”, sua nova antologia: a protagonista de “Metamorfose” recorre a intervenções cirúrgicas insólitas para recuperar o controle sobre o próprio corpo; em “A desgraça na cara”, os rostos das mulheres de uma mesma família começam a se assemelhar à máscara do assassino do filme “Sexta-Feira 13”. A eletricidade de Mariana voltou e a entrevista foi remarcada para dali a algumas horas (depois dos três gols da Argentina contra a Argélia), quando já era dia no Brasil e noite na Austrália. A escritora de 52 anos falou dos horrores do envelhecimento, explicou por que sua obra mistura Stephen King e religiosidade popular e revelou que seleção ela está zicando nesta Copa do Mundo. Está animada com a Copa? Obcecada! Sabemos que a Fifa e os patrocinadores são imorais, que é imoral a Copa nos Estados Unidos, assim como foram imorais as Copas na Rússia e no Catar. Mas a Copa é um mês a cada quatro anos em que temos fé nos nossos países, nos lembramos dos nossos pais e avós e podemos conversamos sobre a falta de jogadores gays e chuteiras cor-de-rosa! É um momento de trocas positivas. Ou talvez eu só esteja atrás de uma justificativa porque gosto muito de futebol. Não sei a Argentina vai ganhar. Se a Espanha não ganhar já está bom. Os argentinos são soberbos, mas os espanhóis estão piores. Você escreve sobre os medos e traumas argentinos. Acredita que a mudança para a Austrália vai impactar sua obra? Acho que não. Passei a vida na Argentina. É lá que estão minhas raízes, o passado para o qual minha literatura se volta para interpretar o presente. Meu marido é australiano, moramos mais de 20 anos na Argentina e achamos mais conveniente viver num país onde ser velho não seja tão difícil. Não é fácil ser velho na Argentina. “Um lugar ensolarado para gente sombria” tem uma epígrafe de Adélia Prado sobre envelhecimento: “Hoje me deu tristeza, sofri três tipos de medo,/ acrescidos do fato irreversível:/ não sou mais jovem”. Um amigo poeta me indicou Adélia Prado. Gosto de poetas que são ao mesmo tempo eróticas e místicas, que falam da experiência com o sagrado a partir do cotidiano feminino. Essa epígrafe representa o atual momento da minha vida. A meia-idade? Ainda não estou velha, mas já me sinto velha. É a neurose da meia-idade (risos). Olha-se pouco para essa etapa da vida, e, quando se escreve sobre ela, é sempre do mesmo jeito. Hoje há muita literatura sobre a menopausa, é interessante, mas já está um pouco cansativo. O mercado editorial quer transformar a menopausa num tema. Me interessam mais as sensações e o novo olhar que essa fase da vida traz. Às vezes, é um olhar neurótico e não tão sábio assim (risos). No conto “Metamorfose”, o horror se manifesta no corpo de uma mulher na menopausa. Nesse conto, quis mostrar como, a partir de certa idade, quando já não podemos nos reproduzir, é como se o corpo, a vida, já não tivesse sentido. O corpo parece que nos diz isso, avisa que a morte está chegando. Dá muito medo! O corpo da mulher velha é considerado horrível. Madonna apresentou seu novo disco dançando na Times Square e o mundo ficou horrorizado. É porque ela está velha. Já os Rolling Stones vão lançar um disco novo, estão aí dançando e todos estão elogiando a disposição de Mick Jagger! Os versos de Adélia Prado dão a entender que a idade muda nossos medos. Foi assim com você? Sim. Nos anos 1980 e 1990, eu tinha muito medo do futuro, no sentido político, social, econômico. Ainda tenho, mas sem aquele desespero. Não é mais o medo em estado bruto. É triste, mas com a idade a gente se acostuma. É aquela coisa bem latino-americana: dizemos “não há de ser nada” e no dia seguinte há pilhas de mortos nas ruas e um transtornado virou presidente. A literatura de horror de escritoras latinas, como você, a equatoriana Mónica Ojeda e a brasileira Ana Paula Maia conquistou o mundo. O que isso nos diz sobre nossa época? Ana Paula Maia é genial. Fiquei muito feliz com a indicação dela ao (prêmio) Booker. Como fã de “Sexta-feira 13” e Stephen King, me impressiona que o terror tenha virado mainstream. Não estamos no pior momento da Humanidade, a peste negra certamente foi pior, mas a realidade parece estar se desfazendo e isso é psicologicamente insuportável. Precisamos de narrativas que reflitam o medo e o estresse que sentimos. Não sabemos nem mais o que é verdade e o que não é. Parece que vivemos na mente de um ansioso patológico. O horror é a linguagem do presente. A narradora do conto “Meus mortos tristes” diz que os avós europeus de seus vizinhos eram “pobres e ladrões pés de chinelo”, “anarquistas” e comerciantes gananciosos sem responsabilidade ética. Por que atacar o mito da Argentina europeia? Esse é um mito de Buenos Aires. O resto da Argentina não é branco. O racismo argentino não é só contra os afrodescendentes, mas sobretudo contra os morenos, os mestiços de ascendência indígena que são a maioria da população. Nos anos 1940, quando os trabalhadores entraram na política, eles eram insultados, chamados de cabecitas negras. Grandes artistas e escritores eram desse interior mestiço, mas a Buenos Aires “europeia” se faz de cega. Na sua obra, as tradições populares e a religiosidade do interior mestiço se misturam ao rock, a Stephen King e filmes de terror americanos. Minha cultura são essas duas coisas, não posso pensar uma sem a outra. Quando era pequena, lia Edgar Allan Poe e via filmes de Steven Spielberg. Minha avó era do interior e me contava histórias. No meu bairro moravam muitos migrantes que eram devotos da Virgem de Luján (padroeira da Argentina) e também da Difunda Correa, uma santa popular, que, mesmo morta, amamentou seu filho no deserto. Essa santa me dava tanto medo quanto “Contatos imediatos do terceiro grau” (filme de Spielberg)! Essa mistura me constitui, simbólica e politicamente. A Argentina é essa mistura, ainda que, por preconceito, isso não apareça tanto na literatura. Nos agradecimentos de “Um lugar ensolarado para gente sombria”, você lista os artistas que ouvia durante a escrita, de Taylor Swift a Patti Smith. Como a música te influencia? Não sei escrever sem música, ela me ajuda a encontrar o tom da história, a conhecer os personagens. Para escrever cenas mais assustadoras ou violentas, às vezes escuto coisas mais sinistras, como The Carpenters, que me dá medo, não sei por quê, ou black metal. Vou muito a shows, mas já não aguento mais ir a festivais e andar oito quilômetros para ver a banda! Fui jornalista musical. Se não fosse escritora, trabalharia com música, embora tenha zero talento musical. Sua obra é muito política. Acredita que a literatura tem função social? Nenhuma. A arte, em geral, não tem. Toda arte é representação de sua época. Nesse sentido, todo texto é político, pelo que diz e pelo que não diz. Com a inteligência artificial, só o fato de se criar algo como ser humano já é político. Mas forçar a política no texto não dá certo, é ofensivo dizer ao leitor o que ele deve pensar. A política me interessa, mas tento não ser paternalista. Gostaria de ler um bom romance de uma pessoa sinceramente conservadora. Não de um político filho da puta, mas de um bom escritor conservador, que apresente sua visão de mundo com inteligência e sensibilidade. Serviço: ‘Um lugar ensolarado para gente sombria’ Autora: Mariana Enriquez. Tradução: Elisa Menezes. Editora: Intrínseca. Páginas: 224. Preço: R$ 79,90.
Ícone do terror latino, Mariana Enriquez fala de mudança para Austrália, mito da Argentina 'europeia' e função social da literatura: 'Nenhuma'
'Obcecada' pela Copa do Mundo, escritora torce pela derrota da Espanha: 'Os argentinos são soberbos, mas os espanhóis estão piores'














