Em um aniversário, recentemente, conheci uma artista plástica que me disse: "Voltei a pintar só agora, depois de 30 anos". Eu perguntei o que havia acontecido e ela me contou traumatizada: "Uma pessoa disse que eu era ruim". Uma pessoa? Pensei na quantidade de gente que já fez textão pra me detonar e queria rir.
A artista contou que só conseguiu voltar porque "mudou completamente". Entendo. Eu começo a digitar meia palavra numa crônica e fico meio enjoada. Até quando eu vou escrever como eu escreveria? Daí tento ser diferente e acho tão chato que preciso comer absolutamente tudo que tem em minha casa. "Mais séria", vai a geladeira inteira. "Mais controlada", vai a despensa inteira. "Mais metida a intelectual", vai um ovo de Páscoa vencido e esquecido na gaveta do quarto da minha filha. "Menos autorreferente", já estou no supermercado enchendo o carrinho de novo. Engordo cinco quilos a cada tarde que tento ser outra.
Itamar Vieira Junior, que eu conheci na Flip, me falou: "É preciso seguir escrevendo, é preciso não parar, vai ter gente querendo que você pare, não pare, escreva". Mas e quando você mesma começa a querer que você pare?
Uma semana antes da Flip, eu acordei desejando profundamente que algo acontecesse e eu me visse livre da viagem. Podia inundar a cidade, pegar fogo na pousada que me receberia, ter algum desmoronamento na estrada. Lembrando que pensamentos intrusivos não fazem de mim uma má pessoa. Outras coisas, sim.








