Minha mãe é a mulher mais bonita que eu já conheci. Um dia ela chegou em casa chorando, tinha 53 anos, e me disse: uma hora as pessoas param de te olhar.

Seguia belíssima, charmosa, gata mesmo. Mas me contou que olhou um homem bonito no trânsito, os dois parados no sinal vermelho, e, pela primeira vez, em vez de um sorriso lascivo, recebeu uma cara de desinteresse com notas de escárnio.

A partir daquele dia, mamãe meteu uma tristeza eterna no rosto e eu, muito moderna e feminista, a recriminei fortemente. Que absurdo! Que bobagem! Serei uma pessoa dos livros e uma pessoa dos livros não se importa com nada disso! Pois bem. Não era um absurdo. A mulher sabe quando param de olhar pra ela e, nada a ver com machismo ou feminismo ou livros, isso dói bastante.

Faz uns três meses me tornei invisível ao entrar em restaurantes ou ao tentar colocar uma mala muito pesada no compartimento superior de um avião. Eu ali terminando de rasgar minha L3 e absolutamente invisível. Meu feminismo é contra o camarada que bate na mulher, humilha a mulher, paga mal a mulher, não celebra as vitórias da mulher, mas pode me ajudar segurando a porta do elevador se eu estiver com 56 sacolas, tá? Penso que aos 80 anos talvez eu volte a ser cortejada. Nunca vi uma velhinha carregando sacolas de supermercado passar batido.