Mercado de títulos da dívida de governos e empresas de fora da China é alternativa para poupadores chineses aplicarem recursos diante da crise do setor imobiliário 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Panda Bonds são negociados diretamente no mercado financeiro doméstico da China, como a Bolsa de Xangai — Foto: Raul Ariano/Bloomberg O Tesouro Nacional trabalha para fazer ainda este ano a primeira emissão de panda bonds — os títulos da dívida de governos e empresas de fora da China lançados no mercado chinês, na moeda local — e não está só na estratégia. Esse mercado está em crescimento acelerado, atraindo governos de países emergentes e empresas de diversas nações em busca de juros baixos e da maior poupança do mundo, nas mãos de investidores chineses. No primeiro semestre deste ano, foram 160 bilhões de yuans (R$ 121 bilhões) em títulos emitidos, segundo dados do PBOC, o Banco Central da China, citados pelo jornal China Daily, salto de 69% ante um ano antes. Rússia, Hungria, Paquistão, Indonésia, Cazaquistão e Quênia estão entre os países que fizeram operações nos últimos meses ou estudam lançar panda bonds em breve, segundo a agência Bloomberg News, que compilou 36 operações em 2025, entre títulos públicos de governo e privados de empresas. Em 2015, foram apenas seis operações. O movimento faz parte de uma estratégia de Pequim de internacionalizar o yuan, mas também responde a medidas de incentivo ao mercado chinês, com facilitação das operações, segundo especialistas que participaram de um seminário on-line promovido ontem pelo Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Os panda bonds, voltados para investidores chineses, entram no segundo aspecto, que tem a ver com a crise no mercado imobiliário. Os poupadores chineses sempre preferiram aplicar em imóveis. Com a crise, os preços despencaram, afetando as economias de famílias e empresas e moderando o consumo. Mas os poupadores continuam precisando investir suas economias — e isso é muito dinheiro; a taxa de poupança da economia chinesa ficou em 42,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2025, segundo o FMI. — O consumidor chinês não gasta e busca onde colocar suas reservas. No passado, ele tinha o setor imobiliário, mas os preços de imóveis caíram. Onde o chinês coloca seus recursos, num país que é fechado e o controle de capitais é muito restrito? A China foi encontrando formas de oferecer aos investidores locais alternativas de ativos que remunerem seus recursos. Os panda bonds entram aí — disse Fabiana D’Atri, economista-chefe da Bradesco Asset e diretora de Economia do CEBC, que mediou o seminário. O Brasil fez apenas um lançamento, da fabricante de papel e celulose Suzano, em três operações, entre 2024 e 2025, somando 2,6 bilhões de yuans (R$ 2 bilhões). O governo poderá levantar de 5 bilhões a 10 bilhões de yuans (R$ 3,8 bilhões a R$ 7,6 bilhões), segundo já disseram funcionários do Tesouro. No seminário, o subsecretário da Dívida Pública, Francisco Segundo, reafirmou a meta de fazer a primeira operação ainda este ano. A expectativa é que a emissão do Tesouro incentive companhias brasileiras. Segundo Alexandre Lowenkron, presidente do banco BoCOM BBM, que também participou do debate do CEBC, os investidores chineses são conservadores e buscam empresas conhecidas e de baixo risco. Por isso, as candidatas naturais são grandes companhias com negócios na China, como Vale, Petrobras, JBS e WEG. Os juros mais baixos são um atrativo a mais, ajudando a reduzir custos financeiros. A Suzano conseguiu taxas de juros 0,5 ponto percentual abaixo da média dos papéis que emite em dólar. — Para as indústrias de capital intensivo, o mercado de capitais chinês se apresenta como uma ótima alternativa de financiamento e de diversificação. Enquanto no mundo se fala de alta de juros, o movimento aqui é justamente o oposto, mostrando taxas extremamente atrativas para financiamento — disse Emilio Chen Yeh, CFO (diretor financeiro) da Suzano Ásia, que fica em Xangai.
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