Movimento reflete estratégia do Planalto de diversificar o financiamento do Brasil, reduzir dependência do dólar e estreitar laços financeiros com Pequim 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A área do Bund, às margens do Rio Huangpu, na cidade de Xangai — Foto: AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 18/07/2026 - 16:03 Brasil planeja emitir Panda Bonds para fortalecer laços com China O governo brasileiro planeja emitir Panda Bonds na China para diversificar o financiamento, reduzir a dependência do dólar e estreitar laços com Pequim. A meta é captar 10 bilhões de yuans, com a emissão inaugural prevista para este ano. O movimento visa inspirar empresas brasileiras a acessar o mercado chinês. Apesar dos desafios regulatórios, o Brasil busca ampliar suas alternativas financeiras e fortalecer relações comerciais com a China. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO O Brasil tem grandes ambições com seu plano de ingressar no mercado doméstico de títulos da China — desde que as empresas brasileiras embarquem nessa estratégia. O governo pretende captar cerca de 10 bilhões de yuans, e uma emissão inaugural de Panda Bonds pode ocorrer ainda neste ano, disse o secretário do Tesouro Nacional, Daniel Leal, no início deste mês. A emissão seria a primeira de um país latino-americano e integra os esforços do governo para diversificar o financiamento do Brasil, reduzir sua dependência do dólar e estreitar os laços financeiros com a China. A expectativa do governo é que a emissão inaugural de Panda Bonds sirva de referência para empresas brasileiras, abrindo caminho para que elas acessem uma nova fonte de financiamento. Para algumas — especialmente aquelas com receitas ligadas à China, como Vale, WEG, JBS e Embraer — esse mercado pode fazer sentido. Mas uma onda de emissões não deve acontecer da noite para o dia. — Acaba sendo para um público mais específico, para empresas que têm um mercado relevante na China e que conseguiriam capturar essa eficiência via diversificação de bolso — explica Rafael Basso, gestor de crédito internacional na AZ Quest. — Os chineses têm tentado se abrir muito mais para fluxos estrangeiros, tentando trazer o máximo de empresas, mas eles estão indo a passo de formiguinha. Embraer e Vale não comentaram, enquanto WEG e J&F não retornaram. A iniciativa faz parte do movimento mais amplo do governo Lula de estreitar os laços com a China, a maior economia do Brics, e ampliar as alternativas de financiamento do Brasil para além do dólar, sem, no entanto, abandonar a moeda americana. Integrantes da equipe econômica avaliam que há espaço para ampliar a parcela da dívida pública vinculada a moedas estrangeiras, atualmente em cerca de 4%. Este ano, o Brasil já emitiu € 5 bilhões em títulos, na maior operação da história do país nos mercados internacionais e na primeira captação em euros em mais de uma década. Para as empresas brasileiras, um maior uso de moedas estrangeiras, aliado às relações comerciais já estabelecidas, pode ampliar as alternativas de financiamento. Ao mesmo tempo, a aproximação com investidores asiáticos vem ganhando importância. A Eldorado Brasil Celulose, controlada pelos irmãos Batista, da J&F, antecipou essa tendência em 2023 ao realizar uma operação de exportação liquidada em yuans e reais, dispensando o uso do dólar. A operação refletiu a forte relação comercial da empresa com a China e permitiu estruturar oficialmente suas operações em yuan. Mercado crescente Enquanto isso, Pequim busca desenvolver o mercado doméstico de dívida. Em junho, o Banco Popular da China, o BC do país, disse ver com bons olhos a entrada de tomadores brasileiros nesse mercado. As emissões de Panda Bonds dispararam para um recorde de 173 bilhões de yuans até agora neste ano, cerca de 70% acima do mesmo período de 2025, elevando o volume total emitido para mais de 1 trilhão de yuans, segundo dados compilados pela Bloomberg. Embora subsidiárias no exterior de empresas chinesas continuem sendo as principais emissoras, tomadores estrangeiros responderam por um recorde de 36 operações no ano passado, ante apenas seis em 2015. As empresas estrangeiras que emitiram Panda Bonds neste ano pagaram um cupom médio de 1,97%, mínima histórica. Ainda assim, isso representa um prêmio em relação aos títulos corporativos onshore chineses de três anos com classificação máxima, o que os torna atraentes para investidores institucionais. Desafios No entanto, há obstáculos. Empresas que emitem Panda Bonds pela primeira vez enfrentam um processo burocrático que pode demorar de cinco a seis meses. Além disso, as operações costumam ter volumes menores e prazos mais curtos, enquanto os investidores tendem a privilegiar emissores com classificações de risco de maior qualidade. — Navegar pelas complexas exigências regulatórias da China não é tarefa fácil, e o mercado de Panda Bonds continua relativamente pequeno — disse Lynn Song, economista-chefe para a Grande China do ING Bank. Em 2024, a Suzano se tornou a primeira empresa da América Latina a emitir Panda Bonds. Continua a ser a única. — Foi uma estratégia para testar um novo mercado e ajudar a desenvolvê-lo — disse Marcos Assumpção, diretor financeiro da companhia. — Poderíamos fazer isso novamente. Segundo Assumpção, a Suzano fez um swap dos recursos captados para dólares, alinhando a dívida a sua receita, que também é denominada na moeda americana. Mesmo após a operação de swap, o custo total da captação permaneceu inferior ao que teria sido em uma emissão com prazo semelhante no mercado de títulos dos Estados Unidos, afirmou. Impulso para elegíveis O pioneirismo da Suzano também revela o quanto o mercado de Panda Bonds ainda está longe de se consolidar como uma alternativa relevante de financiamento. Segundo Assumpção, trata-se de um mercado menor e com uma base de investidores mais concentrada. Empresas brasileiras com ratings mais baixos também podem ter dificuldade para acessar esse mercado, diante da preferência dos investidores chineses por emissores de maior qualidade de crédito. Isso limita o potencial de alívio para companhias que vêm enfrentando dificuldades para recuperar a confiança dos investidores no mercado de dívida em dólar. — Se você quer captar fora do mercado em dólar, precisa ter grau de investimento ou algum perfil de crédito capaz de atrair investidores que hoje não compram a sua curva em dólar — disse Ricardo Navarro, diretor-gerente do Itaú BBA. — E isso só faz sentido para empresas que exportam para esse mercado. Ainda assim, os esforços do Brasil para fincar pé nesse mercado podem abrir caminho para emissões corporativas, avalia Basso, da AZ Quest: — Se a emissão soberana for bem-sucedida, com demanda forte, preço justo e spread apertado, é provável que sirva de gatilho para empresas com presença ou agenda comercial relevante na China.