"Rito de passagem", espaço de descoberta, dissidência, dissonâncias e ressonâncias, cisão e construção, encontros e embates. Revelações, reivindicações, reafirmações. Disso tudo foram feitas as primeiras 45 edições dos "Cadernos Negros" —publicação criada em 1978 que é referência na literatura brasileira—, espelhadas no documentário homônimo de Joel Zito Araújo, recentemente adicionado ao catálogo do streaming nacional.
Dos seus inícios permeados pela busca de uma voz conjunta que gritasse ao Brasil, em verso e prosa, a realidade das pessoas negras do país à junção com os bailes black e os movimentos e organizações emergentes, a coletânea reúne e encarna debates que são um retrato das tensões, desafios e conquistas da militância negra frente à violência e ao preconceito em tempos de ditadura e democracia.
"Sempre me incomodou como passou despercebido e desvalorizado por outras vanguardas culturais paulistanas o que acontecia no entorno dessa publicação", afirma Joel Zito Araújo à Folha. "Somente a música tinha conseguido furar as bolhas raciais, com o reconhecimento da vanguarda de Itamar Assumpção e de alguns outros músicos e cantores. Mas os poetas e literatos que criaram e passaram pelos 'Cadernos Negros' pareciam ser vistos como uma espécie de estorvo por sua combatividade contra o racismo estrutural e pela insistência na existência e valorização de uma literatura negra no Brasil."Conceição Evaristo: "Rito de passagem"






