Reservadamente, aliadas questionam mudança de planos e dizem que havia opções femininas no próprio partido; em público, Damares e Tereza Cristina minimizam 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Flávio Bolsonaro anuncia Alfredo Gaspar como candidato a vice — Foto: Cristiano Mariz A escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para a vice de Flávio Bolsonaro (PL) provocou frustração entre integrantes da ala feminina do partido, que passaram os últimos meses trabalhando com a expectativa de que uma mulher completaria a chapa presidencial. Reservadamente, aliadas questionam a mudança de planos e avaliam que havia nomes dentro do próprio PL capazes de cumprir funções semelhantes às atribuídas ao novo companheiro de chapa. O incômodo tem como principal argumento o discurso adotado pelo próprio Flávio durante a pré-campanha. Em diferentes momentos, o senador afirmou que gostaria de ter uma mulher como vice, numa estratégia que também era defendida por auxiliares diante da resistência enfrentada pelo candidato entre o eleitorado feminino. Depois que as tentativas de atrair nomes de outras legendas fracassaram, porém, Flávio optou por Gaspar, ex-promotor de Justiça, ex-secretário de Segurança Pública de Alagoas e relator da CPI do INSS. A decisão foi tomada nesta semana em uma articulação restrita ao presidenciável, ao presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e ao coordenador da campanha, Rogério Marinho (PL-RN), com o aval do ex-presidente Jair Bolsonaro. Nos bastidores, mulheres do partido avaliam que a escolha enfraquece um discurso construído durante meses. A queixa é que, mesmo depois de PP e Republicanos fecharem as portas para Tereza Cristina e Daniella Marques, respectivamente, o PL ainda tinha alternativas femininas para uma chapa puro-sangue. Entre os nomes citados estão as deputadas federais Bia Kicis (PL-DF), Julia Zanatta (PL-SC) e Priscila Costa (PL-CE). Aliadas lembram, por exemplo, que Kicis também tem uma trajetória profissional similar a de Gaspar. Ela passou pela Procuradoria do Distrito Federal antes de ingressar na política, tendo se aposentado em 2016. O desconforto, embora mais evidente entre as mulheres do partido, não ficou restrito à ala feminina. Homens próximos a Flávio que, ao longo da pré-campanha, defenderam uma mulher na chapa também passaram a vocalizar, reservadamente, críticas à decisão. Para esses interlocutores, a campanha abandonou, na reta final, uma estratégia que o próprio presidenciável havia apresentado como prioridade. Em público, apoio à escolha Publicamente, porém, lideranças femininas próximas à campanha procuraram minimizar a frustração e demonstrar unidade em torno da decisão de Flávio. A senadora Damares Alves (Republicanos-DF) afirmou que não considera suficiente escolher uma mulher apenas pelo simbolismo e disse que pretende cobrar espaço feminino em um eventual governo. — Uma vice só por simbolismo não me interessa. Agora me interessa quantas mulheres Flávio vai indicar para o STF — afirmou. A senadora Tereza Cristina (PP-MS), que durante semanas foi tratada pela cúpula do PL como a opção preferencial de Flávio e chegou a demonstrar disposição para aceitar a vaga, também relativizou o argumento de que uma mulher necessariamente ajudaria o candidato a conquistar o eleitorado feminino. — Só porque a mulher vai trazer o eleitorado feminino? Não sei. Vice é uma responsabilidade muito grande. Alfredo defende pautas importantes. Segurança. Aquela CPI me fez muito mal, saí de lá arrasada. E o Brasil não pode continuar anestesiado — afirmou. Michelle Bolsonaro também endossou publicamente a decisão. Horas depois do anúncio, a ex-primeira-dama agradeceu às “Mulheres de Bem” que colocaram seus nomes à disposição, desejou que a chapa Flávio-Alfredo seja “vitoriosa” e pregou unidade. — A caminhada está apenas começando e nós estaremos todos unidos pelo bem da nossa Nação — escreveu. De Tereza a Gaspar A escolha de um homem encerrou uma busca que, durante boa parte da pré-campanha, esteve concentrada em nomes femininos. Tereza era a prioridade de Flávio e de Valdemar, mas o PP decidiu manter a neutralidade na eleição presidencial e não autorizou a senadora a integrar a chapa. Depois, a campanha investiu em Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e próxima de Michelle. A alternativa dependia do Republicanos, que também decidiu não aderir formalmente a nenhuma candidatura presidencial. A presidente do Podemos, Renata Abreu, chegou a ser sondada, mas a legenda igualmente optou pela neutralidade. Com as portas do Centrão fechadas, a discussão se voltou para alternativas do próprio PL. Priscila, Bia e Julia entraram nas conversas, mas Gaspar ganhou força apenas nesta semana. A avaliação da cúpula foi de que sua atuação como relator da CPI do INSS permitiria colocar o escândalo dos descontos indevidos de aposentados no centro da ofensiva contra o governo Lula, enquanto sua trajetória como promotor e secretário de Segurança Pública reforçaria uma das principais bandeiras da candidatura. A opção representou uma mudança de prioridade na montagem da chapa. Sem conseguir usar a vice para incorporar outro partido e depois de abandonar a preferência por uma mulher, Flávio escolheu um nome com o qual pretende reforçar temas considerados estratégicos para a campanha