A perda da voz, no Afeganistão, não vem de doença. Vem de decreto oficial: lá, cantar ou responder alguém na rua virou crime para uma mulher. E, não, não é imaginação. É rotina para mais de 20 milhões de mulheres proibidas de existir em público com o corpo inteiro, incluindo a voz.

Desde que o Talibã retomou o poder, em 2021, mais de 230 decretos cortaram pedaços dessa vida, um de cada vez. Primeiro, a escola depois dos 12 anos, depois, o emprego, depois, o acesso à rua sozinha, o rosto descoberto e agora, a voz. A ONU (Organização das Nações Unidas) chama isso de apartheid de gênero.

É fácil sentir o estômago revirar e seguir rolando o feed, aliviado por morar longe demais para temer isso, mas essa distância é ilusão. Enquanto o mundo se choca com o Talibã, o Brasil bateu, neste ano, seu maior recorde.

No primeiro trimestre de 2026, 399 mulheres morreram por feminicídio no país, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o maior número desde que a série histórica começou, em 2015. Uma mulher morta a cada cinco horas. Alta de 7,5% sobre o ano anterior, num país sem Talibã, sem lei de vício e virtude, sem polícia religiosa nas esquinas.

A diferença entre lá e aqui não está na dor, está na assinatura. No Afeganistão, o controle sobre o corpo da mulher virou artigo de lei, público e orgulhoso de si. Aqui, o mesmo controle mora dentro de casa, sem testemunha, disfarçado de amor, ciúme, cuidado.