Responsável pela regulação e fiscalização do mercado audiovisual brasileiro, a Agência Nacional do Cinema (Ancine) decidiu autuar a produtora Go Up Entertainment por irregularidades na gravação do polêmico longa-metragem “Dark Horse”, que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. O filme abriu uma crise na campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República após virem à tona mensagens do senador cobrando dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para o financiamento da produção. Documentos sigilosos obtidos pela equipe do blog apontam que a Ancine autuou a Go Up Entertainment em 28 de julho. O auto de infração, emitido pela Superintendência de Fiscalização e Combate à Pirataria, informa a conduta que levou à intervenção da agência: “produzir no Brasil a obra cinematográfica estrangeira DARK HORSE sem comunicar o fato à ANCINE.” Segundo as regras da Ancine, a filmagem de uma produção internacional no Brasil deve ser feita sob a responsabilidade de empresa registrada na própria Ancine, a quem caberá comunicar a agência e apresentar uma série de documentos, como cópia do contrato, plano de filmagem e passaporte de cada profissional estrangeiro contratado. Nada disso, no entanto, foi feito pela Go Up no caso “Dark Horse”. Na prática, com a autuação da produtora Go Up, a Ancine sinaliza a aplicação futura de uma multa que varia entre R$ 2 mil e R$ 100 mil. A decisão caberá à Superintendência de Fiscalização, que deve bater o martelo ainda neste mês. A provável punição da Go Up, no entanto, não impede o lançamento de “Dark Horse” nos cinemas brasileiros, que ainda depende do aval da agência ao registro do longa-metragem. Em 22 de junho, a Europa Filmes entrou com um pedido de “registro de obra estrangeira” (ROE) para lançar “Dark Horse” nos cinemas brasileiros. A distribuidora planeja um lançamento de grande porte para o filme, com a exibição em pelo menos 650 salas – no patamar do fenômeno de bilheteria “Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro” – e cópias dubladas espalhadas por todo o país. Infração grave Segundo relatos obtidos pela equipe do blog, a irregularidade é considerada grave por técnicos da agência e a tendência é a imposição da multa máxima, já que as gravações no Brasil teriam sido feitas de forma “clandestina” – e justamente em São Paulo, maior metrópole do país, com o vazamento de cenas filmadas, como a recriação do atentado à faca contra Bolsonaro nas eleições de 2018. “Não foi uma gravação clandestina na Amazônia, longe de todos”, compara uma fonte que acompanha de perto o assunto nos bastidores. “Não foi uma simples captura de imagem, houve a mobilização de equipamentos e pessoas em um set de filmagens na maior cidade do país, com denúncias de violação da legislação trabalhista.” Por conta disso, a Ancine decidiu cobrar esclarecimentos da Spcine, empresa pública da Prefeitura de São Paulo voltada para o fomento do cinema brasileiro, para saber se as autoridades paulistanas também não foram avisadas da filmagem. Em ofícios enviados à Go Up em fevereiro e março deste ano, a Superintendência de Fiscalização notificou a Go Up a “comprovar a comunicação à Ancine da produção da obra estrangeira Dark Horse” e destacou que a medida “é uma obrigação” prevista em instrução normativa da agência, em vigor desde 2008, que fixa as balizas para a produção de filmes estrangeiros no território nacional. Só em 17 de julho a Go Filmes e a Europa Filmes encaminharam um memorando à Ancine, em que “de forma expressa e para fins de resposta à exigência administrativa”, informam ter conhecimento de que a “produção da obra foi realizada parcialmente no território da República Federativa do Brasil”. Fundo obscuro Não apenas a filmagem e o financiamento de “Dark Horse” são cercados de interrogações. Proprietária da Go Up Entertainment, a jornalista Karina Ferreira da Gama, nunca lançou nenhum filme, nem no Brasil e nem no exterior. Procurada, a Ancine informou que não se manifesta sobre processos em tramitação. Já Karina alegou que não recebeu a autuação da Ancine. “Não tenho ciência, não sei do que se trata. Não tenho nada a dizer”, afirmou. Questionada sobre a produção do longa-metragem, a jornalista alegou que “tudo que a gente tinha de fazer para produzir, a gente fez. Inclusive avisar as autoridades brasileiras”. Segundo ela, as tratativas foram feitas inicialmente com um sindicato de São Paulo, mas ela não especificou qual. Karina entrou no projeto do filme pelas mãos do deputado federal Mario Frias (PL-SP), que assina o roteiro de “Dark Horse”. A jornalista também preside o Instituto Conhecer Brasil, que entrou na mira do Supremo Tribunal Federal (STF) pelo repasse de R$ 2 milhões em emendas enviadas pelo deputado para a produção de filmes. O instituto tem registro na Ancine desde 2020 mas também nunca lançou um filme nem no Brasil nem no exterior. O filme se tornou munição para aliados de Lula – e virou uma dor de cabeça para a campanha do senador bolsonarista, respingando no seu desempenho nas pesquisas de opinião, antes de surgirem as mais recentes revelações de que o líder do governo Lula no Senado Federal, Jaques Wagner (PT-BA), teria recebido um imóvel de R$ 2,45 milhões em Salvador como propina do Master. Após uma série de reportagens do Intercept Brasil, Flávio reconheceu ter captado R$ 61 milhões de Vorcaro, pagos por meio de uma empresa ligada a ele a um fundo administrado pelo advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro. Nenhum deles explicou por que era necessária a intermediação do fundo, o que levantou a suspeita de que o dinheiro na verdade estivesse sendo usado para financiar o autoexílio do filho 03 nos Estados Unidos. O trailer de “Dark Horse” indica que a produção foi filmada no Brasil, com diálogos em inglês e um elenco predominantemente estrangeiro, capitaneado pelo ator americano Jim Caviezel (célebre pelo papel de Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson), que interpreta o ex-presidente Jair Bolsonaro. Papel secundário Conforme informou a equipe da coluna, a dor de cabeça que “Dark Horse” causou a Flávio Bolsonaro é inversamente proporcional ao “espaço” que o longa-metragem reserva ao senador. No filme, o personagem de Flávio é secundário, com pouquíssimos diálogos – diferentemente do espaço reservado à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que tem um papel muito mais relevante na trama. Após conferir o filme, a avaliação do QG da campanha de Flávio é a de que “Dark Horse” está mais para um thriller policial sobre a facada em Jair Bolsonaro em 2018 do que para uma cinebiografia propriamente dita. O personagem de Flávio tem participação discreta na trama, o que na tese de seus assessores deveria esvaziar os argumentos da campanha lulista de que o filme pode ser usado para promover a sua candidatura. Agora, é “Dark Horse” quem enfrenta uma via-crúcis para ser lançado nos cinemas.
Dark Horse: Ancine detecta irregularidade e indica multa para produtora
Go Up foi autuada por filmagem do longa-metragem no Brasil sem conhecimento da agência; punição pode chegar a R$ 100 mil






