"Eu pensei que fosse desistir. Depois de mais de dez anos tentando voltar para a Austrália, finalmente consegui uma bolsa para fazer um doutorado sanduíche. Passei em primeiro lugar no processo seletivo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) para uma vaga da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e iria desenvolver parte da minha pesquisa em uma universidade australiana, estudando peixes de ambientes recifais. Mas, para embarcar, eu precisava pagar cerca de R$ 8 mil em taxas para emitir o visto e fazer os exames exigidos. Eu simplesmente não tinha esse dinheiro. Pensei em fazer uma rifa, em vender alguma coisa. Pensei em pedir dinheiro emprestado. Mas eu já estava com o nome sujo. Meu marido também. Meu pai também. Minha mãe já tinha todos os empréstimos que conseguia fazer. Eu não tinha para quem pedir ajuda. A vaquinha foi a minha última alternativa. Fiz sem muita esperança. Eu já tinha colocado no meu coração que talvez precisasse desistir da oportunidade e devolver a bolsa para a Capes. Hoje eu ainda espero a aprovação do visto para embarcar. Se tudo der certo, vou para a Austrália em setembro. Mas, para entender por que essa oportunidade significa tanto para mim, preciso voltar muitos anos. Sempre tive uma conexão muito forte com o mar, desde criança. Ao mesmo tempo, eu era apaixonada por animais. Cresci no interior do Paraná, embora tenha nascido em Barra Mansa, no Rio de Janeiro. Eu dizia que queria ser veterinária, mas também tinha uma ligação muito grande com a água, mesmo sem conhecer de perto a vida marinha. No Ensino Médio, decidi que faria Biologia. Curiosamente, não era a matéria em que eu tirava as melhores notas. Eu escrevia muito melhor do que resolvia provas da disciplina. Mas a paixão pelos bichos falou mais alto. Entrei na Universidade Estadual de Maringá em 2013, justamente no dia em que completei 17 anos. Eu gostava do curso, mas ainda não tinha encontrado aquilo que realmente me encantava. Foi então que vi uma propaganda do Ciência sem Fronteiras na televisão. Na época, eu fazia iniciação científica e recebia R$ 400 por mês. Era com esse dinheiro que eu pagava o curso de inglês, academia, transporte e outras despesas. Eu nem falava inglês direito e, por isso, minha primeira opção era Portugal. Alguns meses depois, recebi uma mensagem informando que havia inscritos demais para Portugal e que alguns estudantes precisariam escolher outro destino. Entre as opções estavam Canadá, Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Itália, França e Austrália. Naquele momento pensei: “Essa é a oportunidade de fazer algo ligado à biologia marinha, que eu nunca tive oportunidade de conhecer”. Escolhi a Austrália. Talita Motta Beneli conhecendo a Grande Barreira de Corais em uma viagem de uma disciplina com a universidade australiana, durante o Ciências sem fronteiras — Foto: Arquivo pessoal Eu sabia que a fauna australiana era muito diferente de qualquer outro lugar do mundo e também gostava da ideia de viver em um país com um clima parecido com o do Brasil. Pela primeira vez, senti que estava escolhendo um caminho que realmente fazia sentido para mim. Quando tudo parecia encaminhado, descobri um nódulo na mama. Durante os exames, apareceram também micronódulos no pulmão. Pensei que perderia o intercâmbio e que começaria um tratamento contra o câncer. Foi um período de muito medo. Fiz a cirurgia, esperei o resultado da biópsia e, felizmente, descobri que era tudo benigno. Pouco tempo depois, consegui embarcar. Foi na Austrália que minha vida mudou. Estudei na James Cook University, referência mundial em pesquisas sobre recifes de coral, em Townsville, diante da Grande Barreira de Corais. Conheci os corais pela primeira vez e foi ali que descobri o que queria fazer. Quando voltei ao Brasil, já sabia exatamente o que queria. Consegui um estágio em Pernambuco e passei dois meses morando sozinha em Tamandaré para desenvolver um projeto que acabou se tornando meu trabalho de conclusão de curso. Eu ainda era uma estudante de graduação, mas mergulhava todos os dias para coletar dados. Era mergulho de apneia, sem cilindro. Eu me joguei na água e aprendi fazendo. Depois voltei ao Paraná para concluir a graduação. Não havia oportunidades na minha área, então fui trabalhar vendendo livros em um shopping de Maringá. Mas eu precisava continuar. Prestei seleção para o mestrado na Bahia e em Alagoas. Passei nas duas universidades e escolhi a Universidade Federal baiana. Talita Motta Beneli em um dos mergulhos para a pesquisa de mestrado em Salvador, Bahia — Foto: Arquivo pessoal Em 2017 me mudei para Salvador para pesquisar corais-de-fogo. Eu mergulhava com frequência e estudava os impactos das linhas de pesca nesses organismos. Não havia dinheiro para pesquisa. Tudo era feito com muita criatividade e esforço, como acontece com tantos pesquisadores brasileiros. Quando terminei o mestrado, em 2019, meu plano continuava sendo voltar para a Austrália para fazer um doutorado. Mas veio a pandemia. A Austrália fechou completamente as fronteiras. Eu fui demitida, sobrevivi com o seguro-desemprego, dei aulas de inglês, trabalhei como tutora de ensino à distância e depois me mudei para Florianópolis para trabalhar na indústria farmacêutica. Durante todo esse período, continuei preparando meu currículo e me candidatando a oportunidades na Austrália. Foram muitas tentativas. Em 2023, eu não consegui nenhuma. Era o único plano que eu tinha para a minha vida. Minha saúde mental não suportou e eu precisei desistir desse sonho por um tempo. Foi quando comecei a estudar para concursos, pensando que precisava encontrar um caminho que me desse estabilidade. Mesmo assim, alguma coisa dentro de mim dizia para tentar mais uma vez. Em 2025 comecei o doutorado na UFSC, orientada pelo professor Sergio Ricardo Floeter. Pela primeira vez participei de um projeto que tinha financiamento para pesquisa. Foi também a primeira vez que senti que teria condições de fazer o trabalho que sempre sonhei. Quando abriu o edital do doutorado sanduíche da Capes, resolvi tentar. Mesmo estando apenas no primeiro ano do doutorado, fui aprovada em primeiro lugar. Achei que o caminho finalmente estava livre. Talita Motta Beneli é bióloga e doutoranda em Ecologia na Universidade Federal de Santa Catarina — Foto: Sergio R Floeter Foi quando descobri o valor das taxas para emissão do visto. Eu não tinha como pagar. Criei uma vaquinha de forma muito despretensiosa. Divulguei apenas para familiares, amigos e pedi ajuda a uma influenciadora cujo conteúdo eu admirava. Se não conseguisse arrecadar o valor necessário, devolveria cada contribuição e desistiria da viagem. Jamais imaginei o que aconteceria depois. Pouco tempo depois de enviar a mensagem, a influenciadora publicou um vídeo comentando um caso muito parecido com o meu. Ela não citou meu nome, mas eu reconheci imediatamente que estava falando da minha história. Levei um choque. Respondi ao vídeo e também mandei uma mensagem dizendo que ela poderia ter conversado comigo antes de expor aquela situação daquela forma. Vieram milhares de ataques. Passei a receber mensagens dizendo que eu era oportunista, que precisava trabalhar para bancar meu sonho e que pesquisador não deveria pedir ajuda. Ao mesmo tempo, comunicadoras científicas começaram a procurar minha história completa. Elas quiseram entender quem eu era, qual era a minha pesquisa e por que aquele doutorado sanduíche era importante. Depois que elas contaram essa história, pessoas de todo o Brasil começaram a contribuir. Em menos de 24 horas, consegui atingir a meta da vaquinha. Hoje continuo ansiosa. Enquanto o visto não é aprovado, minha cabeça está ocupada com documentos, aluguel, contas e tudo o que ainda preciso resolver antes da viagem. Acho que só vou acreditar que esse sonho está acontecendo quando estiver com a passagem comprada e embarcando. O que ficou de toda essa história foi algo que eu nunca imaginei receber. Pela primeira vez na vida, ouvi tantas pessoas dizendo que meu trabalho era importante. Recebi mensagens de gente que decidiu voltar para a faculdade, que desistiu de desistir de um intercâmbio ou de um sonho depois de conhecer minha história. É por isso que aceitei contar tudo isso. Não porque eu ainda precise da visibilidade. A vaquinha já cumpriu seu papel. Mas espero que alguém leia esta história e entenda que vale a pena insistir. Eu mesma pensei em desistir muitas vezes. Ainda não embarquei para a Austrália. Ainda espero a aprovação do visto. Mas, olhando para trás, vejo que todas às vezes em que encontrei um obstáculo, também encontrei uma forma honesta de continuar tentando. * Em depoimento à repórter Lívia Nani