Hoje em dia as pessoas até querem que você as escute, mas o que gostam mesmo é que você concorde com elas 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Pessoas se cumprimentando — Foto: Pexels Pela cara, percebo que a pessoa está falando algo supostamente engraçado. Muito engraçado. Ela ri, gesticula, cutuca, faz uma expressão de pretensa cumplicidade para os que estão em volta, cutuca de novo. Porém, estou no meio de uma festa barulhenta, perdido numa rodinha de conversa, e não consigo ouvir nada do que está sendo dito. Não faço ideia se a pessoa está fazendo graça sobre as eleições, a polêmica das bets ou a volta do Vini Jr. com a Virgínia Fonseca. Talvez seja só mais uma piada de tiozão. Não faz diferença. Apenas sorrio e solto um “hahaha, é bem assim...” Não sei se é a idade ou o lugar. O fato é que, em festas, shows, casas noturnas, bares da moda, onde tiver som alto, ouço cada vez menos. Tem muito barulho em volta? Danou-se, não escuto nada do que me dizem. No começo, tentava um “me desculpe, não entendi” educado ou um “HEIN???”, igual àquela velhinha surda da Praça da Alegria, mas isso tornava as coisas ainda mais complicadas. A pessoa repetia várias vezes, sem nenhum resultado: eu continuava sem escutar. No fim, ela ficava muito chateada, como se não ouvi-la fosse uma atitude voluntária, um ato de extrema soberba. Melhor não, né, ainda mais nos dias que correm: poderia acabar cancelado por não me posicionar sobre o que ela estava dizendo. Passei, então, a imitar a expressão da pessoa que fala comigo. Está dando certo. Muito certo, até. Se o assunto é sério, se a pessoa apresenta uma expressão grave, com gesticulação firme, como se estivesse numa tribuna, fico sisudo e, a cada cinco minutos, solto um “difícil, muito difícil”. Se a gesticulação for mais exaltada e ela falar como se estivesse num palanque em frente a uma multidão, eu troco o “difícil, muito difícil” por um “Que absurdo!”, acompanhado por uma cara indignada. Funciona que é uma beleza. Por algum mistério, esse tipo de gente, que se leva muito a sério, nunca desconfia de que não está sendo ouvido. O leitor vai me dizer: pois resolva isso, vá logo a um otorrino, faça uma audiometria para já. Estaria certo, não fosse um bem-vindo efeito colateral da surdez social — a minha vida social tem melhorado muito. Como canta o Zeca Pagodinho, agora sou benquisto por todo mundo. Finalmente. Cada vez me aparecem mais convites para festas e eventos e minha presença, vejam só, é até bem-vinda, quando não celebrada. Quem diria, comentarão meus amigos e conhecidos, habituados às constantes gafes que eu cometia quando de fato escutava o que era dito. Dizem que a escuta e a empatia são qualidades importantes para a vida em sociedade. Sem dúvida, mas cada vez mais penso que isso é coisa do passado. Uma relíquia do século XX. Hoje em dia as pessoas até querem que você as escute, mas o que gostam mesmo é que você concorde com elas. Aí é sucesso garantido. Não à toa, as inteligências artificiais são programadas para acatar e celebrar tudo o que lhes é dito, não importa se quem está falando é o Darth Vader ou a Suzane von Richthofen, se o assunto é o fim da humanidade ou o extermínio dos ursos panda. Para as IAs, como agora para mim, tá tudo certo. Para me tornar um sucesso absoluto, uma unanimidade dentro do meu círculo, estou desenvolvendo outra habilidade social: o mutismo. Não digo mais nada, mas esse é assunto para outra coluna.
O segredo do meu sucesso
Hoje em dia as pessoas até querem que você as escute, mas o que gostam mesmo é que você concorde com elas









