Discurso de vitória de Mamdani em NYO político de 34 anos prometeu que a cidade natal do presidente americano estará na vanguarda da oposição contra ele. Crédito: AFP TVGerando resumoDez anos depois da entrada de Donald Trump na política americana, a oposição ao republicano finalmente adotou o slogan “America First” (colocar a América em primeiro lugar). Mas a mensagem democrata é diferente: não contém críticas ao sistema migratório americano e sim a enorme desigualdade econômica que afeta os Estados Unidos em meio a guerra iniciada pelo governo Trump contra o Irã. PUBLICIDADEOs políticos democratas que adotaram o discurso alegam que se trata de uma estratégia para explorar o que Trump prometeu em sua campanha presidencial de 2024 e não conseguiu cumprir. O republicano disse que o período de guerras no Oriente Médio tinha acabado, mas iniciou a maior guerra na região desde o conflito no Iraque.Ele também apontou que reduziria o custo de vida dos americanos. Contudo, o fechamento do Estreito de Ormuz aumentou os preços da gasolina e a popularidade do mandatário despencou. PublicidadeSegundo os democratas, colocar a América em primeiro lugar é usar os vastos recursos econômicos americanos para reduzir a desigualdade econômica nos EUA e o custo de vida e não gastar em armamentos para enfrentar ameaças em outra região do mundo. O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, participa de uma coletiva de imprensa em Nova York Foto: Angelina Katsanis/AP“Esse discurso foi adotado pela ala progressista do Partido Democrata e está dando muito certo”, avalia Christian Esperias, um consultor que coordena campanhas democratas na Califórnia e ao redor dos EUA. “Os americanos estão com raiva da maneira que os recursos americanos estão sendo usados. Trump prefere gastar US$ 4 trilhões de dólares em armas para lidar com a guerra do Irã, mas as pessoas não conseguem ter uma casa própria e não tem perspectiva de futuro”. O uso do slogan ressalta uma mudança no Partido Democrata. Propostas focadas em reduzir o custo de vida da população, como o congelamento de aluguéis e serviço de saúde gratuito estão cada vez mais populares e o eleitorado também tem se mostrado cético em relação ao envio de ajuda militar e econômica a Israel. Publicidade“Temos uma nova ala progressista no Partido Democrata, focada na questão da desigualdade de renda”, aponta Esperias. “Eles têm uma oportunidade de crescer, porque essa guerra é muito impopular e as pessoas estão se questionando sobre outras formas que esse dinheiro pode ser investido”. O congressista Ro Khanna participa de uma coletiva de imprensa em Washington Foto: Anna Moneymaker/AFPInsatisfaçãoA popularidade do slogan entre direita e esquerda reflete o tamanho da desigualdade nos Estados Unidos. De acordo com dados do Federal Reserve (Fed, na sigla em inglês), a desigualdade de riqueza nos EUA atingiu a sua maior disparidade em mais de três décadas.No terceiro trimestre de 2025, o 1% mais rico dos Estados Unidos passou a concentrar 31,7% de toda a riqueza do país, o maior patamar desde o início da série histórica do Fed, em 1989. Juntos, esses lares acumulavam cerca de US$ 55 trilhões em patrimônio — praticamente o mesmo valor detido pelos 90% mais pobres da população americana somados. PublicidadeEsse problema afeta todo o território americano e os progressistas estão conseguindo canalizar essa demanda. Abdul El-Sayed, um candidato progressista que tenta vencer as primárias democratas para disputar uma vaga ao Senado por Michigan, afirmou que ele é o candidato que mais defende o princípio de “América em Primeiro Lugar” no país.“Quando você mantém nosso dinheiro aqui em vez de enviá-lo para a máquina de guerra de outro país, isso é ‘América em Primeiro Lugar’”, disse o candidato. Abdul El-Sayed participa de um debate nas primárias democratas para o Senado em Michigan, em Southfield Foto: Robin Buckson/APOutras figuras progressistas, como os congressistas Ro Khanna e Alexandria Ocasio-Cortez também estão adotando o rótulo. Khanna apresentou um projeto para proibir a exportação de gás durante períodos de preços elevados do produto. PublicidadePUBLICIDADE“Existe um questionamento muito grande sobre como o dinheiro do contribuinte está sendo gasto”, avalia Esperias. “As pessoas querem melhores serviços. Estão tentando sobreviver enquanto tem uma guerra que ninguém pediu acontecendo”. Os Socialistas Democráticos da América (DSA, na sigla em inglês) são a organização que mais está se beneficiando deste momento dos Estados Unidos. Eles atuam como um grupo ativista que faz parte da ala mais progressista do Partido Democrata e tem o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, e a congressista Alexandria Ocasio-Cortez como principais ativos. O movimento foi criado formalmente em 1982, durante o governo do presidente Ronald Reagan e ganhou um maior destaque durante a campanha presidencial do senador Bernie Sanders em 2016 e 2020. Sanders perdeu nas primárias para Hillary Clinton e Joe Biden, mas construiu um movimento sólido que varreu uma série de incumbentes em primárias democratas pelo país. PublicidadeA congressista Alexandria Ocasio-Cortez discursa no comício de Abdul El-Sayed, em Detroit, Michigan Foto: Sarah Rice/AFPA guerra entre Israel e o grupo terrorista Hamas na Faixa de Gaza aumentou a tração do movimento. O conflito atraiu uma grande quantidade de novos membros, a maioria jovens que participaram de protestos universitários em defesa dos palestinos. Os socialistas contam com 120 mil membros, metade deles ingressou a partir do final de 2024. Eles têm uma grande capacidade de mobilização e entusiasmo e souberam tirar proveito de um Partido Democrata que se mostrou apático e sem rumo após a vitória de Trump. Nos últimos meses, candidatos da organização apoiados por Mamdani venceram diversas primárias em Nova York e em outros Estados como Colorado. A plataforma do grupo idealiza um mundo sem capitalismo, com uma jornada de trabalho de 32 horas, educação gratuita, saúde universal e controle de aluguéis. Os socialistas também desejam a abolição da polícia e do ICE e destacam que Israel deixaria de receber ajuda econômica e militar de Washington. O senador Bernie Sanders participa do comício de Abdul El-Sayed, em Detroit, Michigan Foto: Sarah Rice/AFPDe acordo com Doug Wilson, um consultor democrata que trabalha em campanhas em Charlotte, na Carolina do Norte, a ascensão dos socialistas explora a mesma insatisfação do movimento Make America Great Again (MAGA, na sigla em inglês) de Donald Trump.“São movimentos diferentes, mas tem a similaridade de representarem uma ruptura em relação ao capitalismo”, destaca Wilson. “A promessa do capitalismo sempre foi que, se você trabalhasse duro e cumprisse sua parte, o resultado viria. Mas isso não acontece e muitas vezes uma remuneração não consegue nem cobrir as despesas básicas”.PublicidadeO movimento é mais popular em redutos democratas como Califórnia e Nova York e ideias como acabar com a polícia e o sistema prisional são consideradas impossíveis até por quem é da organização e está no poder, como Zohran Mamdani. Mas candidatos democratas de outros Estados como Wisconsin e Michigan, que são swing states, e Nebraska e Missouri, Estados republicanos, estão adotando ideias como serviço de saúde gratuito, taxação de super ricos e o fim da ajuda econômica e militar a Israel. Eles estão tendo bons resultados e podem ganhar. Em Michigan, Abdul El-Sayed alega que é capitalista e não faz parte dos Socialistas Democráticos da América, mas ele defende grande parte da plataforma da organização e lidera as pesquisas para conseguir a nomeação democrata para disputar uma vaga no Senado. PublicidadeO candidato Abdul El-Sayed participa de um compromisso de campanha em Ferndale, Michigan Foto: Emily Elconin/AFP“Os socialistas não conseguem ganhar em Estados-pêndulo, mas os candidatos desses Estados podem aproveitar algumas propostas e adaptá-las às suas realidades”, destaca Wilson. O consultor usa o exemplo de seu próprio Estado para provar seu ponto de vista. Um democrata não pode concorrer na Carolina do Norte como socialista, mas os eleitores do Estado enfrentam os mesmos problemas relacionados ao custo de vida que em locais como Nova York. “Em Charlotte o aluguel também está alto e os produtos estão caros. Todos esses problemas existem”. Segundo Esperias, esse fenômeno mostra que as ideias socialistas são populares, mas não a organização propriamente. “O Partido Democrata está muito mais progressista do que jamais esteve, mas as ideias são mais populares do que a palavra socialismo”.Publicidade“Bernie Sanders consegue propagar essas ideias em redutos republicanos porque a vida da classe trabalhadora está difícil”, completa Esperias. O prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, participa de um evento em Nova York Foto: Al Bello/AFPQuestão geracionalOs dois consultores democratas entrevistados pelo Estadão concordam que a popularidade destas ideias faz parte de uma mudança geracional.De acordo com um estudo divulgado pelo Instituto Brookings, os millenials devem ultrapassar os baby boomers e se tornar o maior bloco de eleitores nos EUA nas eleições presidenciais de 2028. PublicidadeEsse grupo representa pessoas que têm de 30 a 45 anos, exatamente o perfil do eleitorado que relata dificuldades econômicas. “Essas são as pessoas que não têm condições de comprar a casa própria e, na maioria dos casos, nunca experimentaram o conforto de uma vida de classe média”, relata Esperias. Os questionamentos sobre o relacionamento entre Estados Unidos e Israel também passam por isso. Adultos que cresceram nos anos 80 e 90 tinham uma visão mais positiva de Israel, principalmente em relação aos esforços para um processo de paz com os palestinos.“O conflito em Gaza é devastador e afetou o apoio bipartidário a Israel”, avalia Wilson. “No futuro, o relacionamento entre os dois países será complicado, principalmente quando a geração Z começar a assumir cargos públicos e se tornar maioria entre os políticos”.PublicidadeO presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversa com o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, em Mar-a-Lago Foto: Alex Brandon/AP Tea party democrata?A insatisfação com o status quo levantou questionamentos sobre a possibilidade de a legenda estar passando por um Tea Party democrata. A expressão Tea Party vem do movimento ocorrido no Partido Republicano em 2009, que balançou o pêndulo da legenda ainda mais para a direita e modificou as elites do partido depois da derrota para Barack Obama nas eleições presidenciais de 2008.A intenção dos Socialistas Democráticos da América é fazer o mesmo com o establishment democrata e tornar o partido mais de esquerda. A organização tem se concentrado em disputas menores, mas está começando a avançar na hierarquia eleitoral. A ala progressista do partido já conseguiu alterar o debate da legenda sobre Israel. Existe uma visão que é quase senso comum entre congressistas e senadores de que o relacionamento entre Washington e Tel-Aviv precisa ser reavaliado. De acordo com uma pesquisa da Associated Press (AP) no mês de junho, 58% dos democratas apontaram que os EUA apoiam Israel de forma excessiva. Em janeiro de 2024, 45% tinham essa opinião.Saiba mais O Tea Party democrata chegou? O que a ascensão de Zohran Mamdani significa para o partidoOnde estão os democratas? Sem líder, oposição a Trump está perdida e teme ‘revolução’ no partidoAscensão de esquerdista na campanha em NY evidencia crise de identidade do Partido DemocrataRuptura O momento democrata deve aumentar as divergências dentro do partido entre progressistas e moderados. Muitos políticos socialistas que venceram suas primárias são ferrenhos opositores da Hakeem Jeffries e Chuck Schumer, os atuais líderes do partido na Câmara e no Senado.Além disso, as primárias presidenciais de 2028 serão decisivas para o futuro do partido.Alexandria Ocasio-Cortez ventila uma candidatura presidencial e deve enfrentar outros políticos mais moderados e tradicionais como o governador da Califórnia, Gavin Newsom, e a ex-vice-presidente americana Kamala Harris.“O país pode estar em um estado de espírito tão ruim em 2028 que tudo pode acontecer”, aponta Wilson.