Rafael Miotto, presidente da CNH na América Latina, campeã do ranking 2026: agenda de inovação não para mesmo em períodos de baixa no mercado — Foto: Keiny Andrade/Valor As empresas mais inovadoras do país compartilham um mesmo perfil: a inovação é encarada como peça central na estratégia de negócios e não se limita a iniciativas isoladas. Por isso, a destinação de recursos para a área segue uma lógica de longo prazo, menos sensível a oscilações conjunturais da economia. Reflexo dessa visão, a pesquisa “Valor Inovação Brasil” de 2026 mostra um aumento de 17% no total investido na área pelas empresas participantes, na comparação com a edição anterior. Ao todo, 270 companhias, de 26 setores, direcionaram R$ 82 bilhões para inovação em 2025. O estudo também apontou maior capacidade de transformar essas iniciativas em resultados tangíveis. O levantamento, realizado pelo Valor e pela “Época Negócios” em parceria com a Strategy&, consultoria estratégica da PwC, analisou cerca de 540 cases dessas 270 empresas, para chegar a um ranking das 150 companhias mais inovadoras do país. A campeã deste ano, com nota mais alta nos quesitos analisados, foi a fabricante de máquinas agrícolas e para a construção CNH. Em seguida, aparecem Einstein, Claro, Robert Bosch, Natura, Baterias Moura, Axia Energia, Embraer, Grupo Boticário e Andrade Gutierrez. Essas dez companhias e aquelas que lideraram os 26 setores estudados foram premiadas na noite desta segunda-feira (3), no hotel Unique, em São Paulo. “As corporações mais avançadas tratam a inovação como um investimento estratégico e criam um orçamento protegido, vinculado a metas de resultado”, afirma Willer Marcondes, sócio para serviços financeiros na Strategy&. Entre as 20 companhias mais inovadoras do ranking, a parcela que investe mais de 5% da receita líquida em inovação passou de 45% para 80% nesta edição da pesquisa, na comparação com o estudo do ano passado. O planejamento financeiro sólido nessa área tem o potencial de alavancar o crescimento e economizar recursos, que posteriormente podem fazer parte de novos ciclos de investimento. “A pesquisa mostra que, para cerca de 38% das participantes, mais de 10% das reduções de custos no último ano fiscal resultaram de inovações implementadas nos últimos três anos”, compara Marcondes. “Em 12,5% dos casos, essas inovações foram as responsáveis por corte superior a 30% dos custos.” Na abertura da premiação, a diretora de redação do Valor e das marcas segmentadas de economia e negócios da Editora Globo, Maria Fernanda Delmas, destacou a importância de a inovação não ser relegada apenas ao caixa disponível. “Deve vir primeiro, não depender do dinheiro que sobra. O risco de não fazer isso é a empresa perder competitividade no longo prazo”, afirmou, citando os requisitos das empresas inovadoras apontados pelos especialistas que avaliaram as companhias. “A inovação também está intrinsecamente ligada à incerteza. Por isso, o aval e o comprometimento da alta liderança são fundamentais.” Marcondes, da Strategy&, diz que em momentos de volatilidade e pressão, as companhias que mais inovam conseguem integrar essa prática no dia a dia e priorizam iniciativas com retorno em eficiência e produtividade, sem abandonar as apostas de longo prazo. “O interesse passa a ser [garantir] menos volume e mais qualidade nas iniciativas em andamento.” É o caso da CNH, primeira colocada no ranking geral e vencedora na categoria automotiva e de veículos de grande porte. “Em momentos de crise, ao invés de simplesmente cortar despesas, o time propõe projetos para aumentar a eficiência e baixar os custos fixos”, diz Rafael Miotto, presidente da CNH na América Latina. “Desenvolvemos ideias que podem ‘entregar’ melhorias ou que renderão frutos quando o mercado voltar [a crescer].” Miotto explica que os períodos de baixa nos negócios podem provocar uma pressão maior nos projetos, mas a agenda de inovação não para. Manter as discussões com os times e as lideranças dá tranquilidade para as pessoas continuarem pensando em inovação, garante. “Falamos para todos: ‘tragam ideias para melhorar a nossa competitividade e não se preocupem com o momento do mercado ou com a capacidade de investimento. Esse é um problema que eu e o pessoal de finanças temos que resolver.’” Sidney Klajner, presidente do Einstein Hospital Israelita, vice-líder do ranking geral e vencedor em serviços médicos, fala da necessidade de enxergar a inovação de uma maneira transversal, que envolva toda a organização. “Deixar de inovar tem um custo. Processos de trabalho podem se tornar obsoletos e as oportunidades de melhorar desfechos clínicos são perdidas”, avisa. “Por isso, a gestão da inovação não pode se resumir à definição de um orçamento, mas à construção de um portfólio de iniciativas.” João Paulo Ferreira, CEO da Natura, campeã na categoria cosméticos, higiene e limpeza, observa que justamente em momentos de mais volatilidade a inovação se torna mais estratégica para gerar valor e reduzir custos. “A adoção de plataformas tecnológicas escaláveis e compartilhadas entre Natura e Avon, implementada em 2025, reduziu entre 20% e 40% o ‘time-to-market’ e os custos de desenvolvimento”, exemplifica. A empresa investiu R$ 1,4 bilhão em inovação em 2025, 40% mais que no ano anterior, abrangendo pesquisa e desenvolvimento, tecnologia, operações, logística e sustentabilidade. Para 38% das empresas, mais de 10% das reduções de custos vieram de inovações dos últimos três anos” Na mesma área, o Grupo Boticário, que também figura entre as dez companhias mais inovadoras em 2026, ressalta a necessidade ainda maior de inovar em tempos de incerteza. “O comportamento do consumidor continua evoluindo, novas tecnologias surgem e o mercado segue em transformação”, diz Gustavo Dieamant, diretor de pesquisa e desenvolvimento da companhia. “Em 2025, parte significativa do crescimento da empresa veio da inovação. Cerca de 27% das vendas do grupo originaram de produtos lançados há menos de um ano, foram cerca de 5 mil novos produtos e 2 mil reformulados.” Na operadora Claro, terceira empresa mais inovadora de 2026 e premiada na categoria de telecomunicações, a inovação ajuda a melhorar a qualidade dos serviços para os clientes e a produtividade geral do negócio, analisa o CEO Rodrigo Marques. “Contribui para que tenhamos uma rentabilidade sustentável e ajuda a gerar novas oportunidades e receitas”, diz. Na fabricante de aeronaves Embraer, entre 40% e 50% da receita anual é gerada por produtos desenvolvidos nos cinco anos anteriores. A empresa organiza o portfólio com uma visão de curto, médio e longo prazo. “No nosso ambiente de negócios, a inovação é condição básica de competitividade”, sustenta Leonardo Garnica, líder de inovação corporativa. “É com esse foco que conseguimos conquistar contratos, como o fornecimento de 19 aeronaves para atuar no aeroporto de Aspen [EUA], num negócio de US$ 500 milhões.” Na Andrade Gutierrez, do setor de construção e engenharia, a decisão de investir em inovação não é afetada por turbulências externas, como as altas nos juros ou disputas geopolíticas, diz João Martins, CEO da Consag, empresa do grupo. “A inovação já está enraizada na companhia como uma questão de ganho de produtividade, competitividade e excelência operacional”, ressalta. “E nós crescemos ao longo dos anos porque optamos por esse caminho.” Para Carolina Sevciuc, vice-presidente de estratégia e transformação digital da Pepsico, primeira colocada em alimentos, bebidas e ingredientes, é preciso equilibrar duas frentes de gestão para conquistar bons resultados. “A primeira é a de eficiência operacional, com o aproveitamento do modelo atual [de negócios]; e a outra é a inovação, com a capacidade de explorar novos mercados e tecnologias”, observa. Na visão de Ricardo Guerra, chief information officer (CIO) do Itaú Unibanco, destaque no setor de bancos, independentemente do cenário econômico, não é possível deixar de pensar no consumidor. “Corremos o risco de parar no tempo, ainda mais em um mundo com inteligência artificial [IA] e vários produtos financeiros sendo lançados”, afirma. “O desenvolvimento de produtos é feito com um ‘balanceamento’, que inclui adaptar as novidades à realidade econômica e gerar satisfação ao cliente.” Na Cargill Nutrição e Saúde Animal, líder da categoria agronegócio, a inovação atua para manter a relevância no mercado, gerando valor para o cliente, observa Marcelo Dalmagro, diretor de tecnologia, marketing estratégico e inovação da companhia. “Inovar faz parte da estratégia, como um objetivo a ser alcançado”, afirma. “Envolve indicadores, disciplina na gestão de projetos e suporte da liderança.” O Mercado Livre, referência na categoria comércio, também encara a inovação com um viés estratégico. “As lideranças definem prioridades, enquanto as equipes têm autonomia para testar soluções e decidir com agilidade”, detalha Roberta Donato, vice-presidente de marketplace do Mercado Livre no Brasil. “Esse modelo é sustentado por cerca de 600 ações de capacitação em IA, realizadas apenas no último ano, e o treinamento de mais de 80% das equipes de tecnologia e produto.” Na Vitru, vencedora no setor de educação, preservar a inovação mesmo em períodos de incerteza econômica significa incorporá-la às linhas de frente do negócio - e não tratá-la como um projeto isolado. Segundo o CEO Aroldo Alves, é possível trabalhar com flexibilidade financeira para mudar o ritmo dos investimentos de acordo com as oscilações de mercado. “Mas sem abandonar o rigor de entregar soluções para o negócio”, pondera. A cerimônia de premiação teve patrocínio prata do Itaú, do Governo do Rio Grande do Sul e da Visa, patrocínio bronze de Bradesco Seguros, Omoda Jaecoo como carro oficial e apoio da Strategy&.
Inovação ganha mais peso e foco em resultados mensuráveis
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