Evento realizado na cidade de São Paulo premiou as dez companhias que obtiveram a nota mais alta na pesquisa anual, além das líderes em 26 setores da economia — Foto: Gabriel Reis/Valor Os resultados de 2026 da pesquisa “Valor Inovação Brasil”, realizada pela consultoria Strategy&, da PwC, indicam que a inovação eficaz costuma combinar três elementos no planejamento das empresas. A estratégia, que define a direção e as prioridades dos projetos; a cultura organizacional, capaz de habilitar padrões de comportamento e de produtividade; e a presença de times multidisciplinares, responsáveis por executar as ideias propostas. “O que diferencia as companhias mais maduras do setor é a existência de uma governança que conecta todas essas dimensões, garantindo alinhamento entre intenção estratégica e execução prática”, analisa Willer Marcondes, sócio para serviços financeiros na Strategy&. A diretriz é adotada pela Axia, campeã na categoria energia elétrica e quinta mais inovadora em 2026. “As metas são fixadas pelo conselho e há uma ambição constante de ir além delas”, diz o vice-presidente de inovação, Juliano Dantas. “As dores do negócio passam a ser o foco da inovação e os investimentos, de caráter perene, são usados como ferramenta de competitividade.” Carlos José Bastos Grillo, vice-presidente de tecnologia da WEG, líder na categoria eletroeletrônica, defende que a participação das lideranças é fundamental para “proteger” a agenda de inovação na empresa. “Os gestores engajam equipes e identificam oportunidades”, afirma o executivo. “Ao mesmo tempo, a cultura organizacional cria um ambiente em que os times se sentem encorajados a propor ideias e testar soluções.” A opinião é seguida por Rodrigo Cury, presidente da Visa, vencedora em serviços financeiros. “A liderança tem o papel de organizar um ambiente que favoreça a escuta ativa e a colaboração entre diferentes departamentos”, concorda. “Mais do que direcionar a estratégia, os gestores se aproximam dos desafios do dia a dia e criam espaço para que mais soluções sejam escaladas com agilidade.” Alessandro Pena da Gama, diretor-executivo de engenharia, planejamento, tecnologia e inovação da VLI, vitoriosa no segmento de logística, também destaca o papel das chefias no fluxo de inovação. “Cabe aos líderes estimular a experimentação responsável e criar um ambiente em que as pessoas se sintam seguras para propor melhorias”, destaca. A aplicação prática dessa integração entre liderança, cultura e execução também é defendida por Antonio Júnior, diretor-presidente da fabricante de baterias Moura. Para ele, a inovação deve operar como resposta aos desafios diários. “O método parte de problemas concretos: a liderança garante direção e recursos, os gestores conectam os desafios às metas e as equipes operacionais - que conhecem a fundo o dia a dia - transformam a prática em soluções aplicáveis”, explica o executivo, reforçando que inovar exige testar, corrigir rotas e escalar o que funciona. Willer Marcondes, sócio para serviços financeiros na Strategy&, diz que o diferencial das organizações mais maduras na área não está no tamanho das equipes, mas na composição. “Elas têm times multidisciplinares que combinam competências de negócio, tecnologia e produto, com forte orientação a resultados”, avalia. “Em muitos casos, a inovação deixa de estar concentrada em uma área específica e é ‘distribuída’ em ‘squads’ ou iniciativas integradas às unidades de negócios.” Na Vale, vencedora no setor de mineração, o objetivo é reforçar práticas de monitoramento e de execução de projetos. “Hoje, todos eles estão em uma plataforma on-line, com informações sobre o estágio do trabalho, por quem são liderados e quanto estão consumindo em recursos”, conta o vice-presidente executivo técnico Rafael Bittar. No Aché Laboratórios, que lidera a categoria farmacêuticas e ciências da vida, manter o fluxo dos aportes mesmo em tempos incertos na economia já virou regra. “As necessidades dos pacientes não diminuem diante de cenários desafiadores”, observa Wilson Júnior, diretor-presidente da companhia, que destinou, em 2025, 8% da receita líquida para pesquisa e desenvolvimento, TI e transformação digital. Rafael Rossi, diretor de engenharia da Aegea, primeira colocada em infraestrutura, destaca que não inovar no setor de saneamento pode representar um risco operacional e financeiro. “Assim, a definição dos nossos projetos é feita a partir do mapeamento dos desafios estratégicos”, informa. “Já as soluções tecnológicas são selecionadas para resolver os problemas ‘reais’ da operação.” Os líderes devem estimular a escuta ativa e contribuir para um ambiente em que as pessoas se sintam seguras para se manifestar Na Motiva, gigante do setor de infraestrutura de logística, o compromisso é investir R$ 1 bilhão em inovação e tecnologia até 2035, tendo como alvo soluções alinhadas ao conceito de indústria 5.0 e de infraestrutura inteligente, como os pedágios eletrônicos “free flow” (sem paradas). “A inovação é tratada como uma alavanca de resiliência empresarial, submetida ao mesmo crivo de qualquer outra decisão de capital”, argumenta Pedro Sutter, vice-presidente de inovação, tecnologia e riscos. Já para Gastón Diaz Perez, presidente e CEO da Robert Bosch América Latina, a chave está na ambidestria organizacional: manter a excelência nas operações tradicionais enquanto se financiam novas frentes. “Para manter a relevância no mercado, precisamos inovar. Quem não inova pode até ser relevante hoje, mas não vai ser amanhã”, pondera o executivo, reforçando que a concorrência e o mercado não param em tempos de crise. Na opinião de Márcio Yamachira, diretor global de planejamento estratégico e inovação da Votorantim Cimentos, referência no setor de materiais de construção, um dos segredos é manter a capacidade de investimento e o baixo endividamento para não comprometer os lançamentos do portfólio. “É isso que nos permite atravessar períodos de incerteza sem abrir mão do futuro”, diz. Carlos Aníbal, vice-presidente executivo para novos negócios na Europa, FuturaGene e suprimentos da Suzano, destaque na categoria papel e celulose, afirma que o avanço da empresa vem da capacidade de adaptar a carteira de ideias ao contexto do mercado. “Em momentos de maior incerteza, a estratégia é balancear prazos, dando mais espaço a iniciativas que geram retorno ou redução de custos no curto prazo. Mas sem interromper os projetos estruturantes, de longo prazo”, ensina. Na Petrobras, líder na categoria petróleo, gás e petroquímica, ações de inovação antecipam riscos e oportunidades, garante a diretora de engenharia, tecnologia e inovação, Renata Baruzzi. “Foi por meio dela que passamos a produzir petróleo em campos offshore e nos tornamos líder mundial em águas profundas”, lembra. Andrea Soares, vice-presidente sênior de negócios, marketing e inovação na Indovinya, divisão de negócios da Indorama Ventures, campeã no setor de química, o método tradicional de trabalhar com a inovação, apenas com governança dedicada e indicadores, não se sustenta sozinho. “Depende também de cultura, de times que trabalham em colaboração, com uso de dados e abertura para novas ideias”, recomenda. Na avaliação de Edilson Reis, diretor de TI, digital, CRM, inovação e experiência do cliente da Bradesco Seguros, destaque na categoria seguros e planos de saúde, investir em inovação tornou-se uma condição essencial para manter a competitividade no mercado. “O comportamento dos consumidores muda rapidamente e cresce a necessidade de oferecer jornadas digitais mais simples, com atendimento ágil e soluções personalizadas”, afirma. Henrique de Moraes, CEO da Equifax, na dianteira da categoria serviços, assinala que a empresa usa indicadores na área desde 2017, para medir quanto da receita vem de novos produtos e inovações lançados a cada três anos. “Seguimos esse índice no mundo inteiro, com a mesma atenção dada a parâmetros financeiros, como receita e rentabilidade”, conclui. Marcelo Braga, presidente da IBM Brasil, campeã no setor de TI, observa que vantagens competitivas tradicionais estão resistindo por menos tempo no mercado e a inovação será o principal fator de competitividade para as corporações. “Modelos de negócio, processos e até setores inteiros estão sendo transformados pela inteligência artificial (IA) e, em breve, pela computação quântica”, enumera. “Nesse contexto, inovar deixa de ser uma escolha. É uma condição para permanecer relevante.”
Governança alinha estratégia, cultura e execução para inovar
Lideranças têm papel fundamental para ‘proteger’ agenda de inovação, engajar equipes e criar um ambiente em seja possível testar ideias
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