Seguimos ainda incrédulos diante do tamanho da desfaçatez com que as pessoas têm se expressado, sem nos darmos conta exatamente de quando, como e onde essa chave virou e a coisa liberou geral. Um exemplo recente seria a invasão norte-americana à Venezuela, em que Trump e Vance foram direto ao ponto: o petróleo agora é nosso, a América Latina é nosso quintal. É o fim dos discursos que buscavam justificar invasões de territórios com falas sobre direito histórico, defesa da democracia, paz mundial ou ajuda humanitária.
E não se trata de grupos ou personagens específicos, mas de um caldo de cultura que vem sendo cozido desde os anos 1960, com a revolução dos costumes. Revolução que denunciava a hipocrisia do pai de família com suas amantes, do político corrupto, do pastor libidinoso, do empresário filantropo, que devolve migalhas depois de comer o bolo todo. Todos são marcas da hipocrisia moral da família burguesa moderna. Movimento que teve como resposta cínica dos políticos, nos anos 1980, o cada um por si do neoliberalismo.
O último livro da antropóloga argentina Paula Sibilia ("Eu Mereço: da Velha Hipocrisia aos Novos Cinismos", Ubu, 2026) traz essa questão, conhecida do meio acadêmico, para o público leigo. De forma muito oportuna, Sibilia traça o arco que vai da hipocrisia da família burguesa moderna, velha conhecida, até o cinismo atual, que ainda nos deixa perplexos.








