Professor de Princeton detecta a falência do ‘mundo cruel’ do Trump 2.0 e duvida que injeção de compaixão cristã proposta por vice em seu novo livro de memórias transformará de fato extrema direita 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Vice americano, JD Vance, com o secretário de Estado Marco Rubio antes da reunião na Casa Branca — Foto: Brendan Smialowski / AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 10/07/2026 - 12:12 Fintan O'Toole: O Futuro do Trumpismo e o Dilema de JD Vance na Extrema Direita Fintan O’Toole analisa o futuro do trumpismo, destacando a tentativa de JD Vance de injetar compaixão cristã na extrema direita, algo que duvida ter sucesso. A disputa entre Vance e Marco Rubio pela liderança republicana é marcada pela conversão ao catolicismo, mas O’Toole questiona se a fé será relevante para a base republicana. Ele observa que o mundo de Trump está se desintegrando, enquanto Vance propõe políticas públicas guiadas pela herança cristã. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Quando o ensaísta irlandês Fintan O’Toole escreve, é bom prestar atenção. Autor de “Fracasso glorioso: o Brexit e a política da dor” [em tradução livre], obra definitiva sobre as raízes e os efeitos do divórcio do Reino Unido da União Europeia, o professor de Princeton foi o primeiro a atentar, ainda em 2019, para aspecto ímpar da “barbárie” embutida no Trump 1.0. As imagens de separação de famílias e a detenção de crianças, filhas de imigrantes sem documentação devida para viver no país, eram, alertou, apenas o começo. A xenofobia posta em prática pelo Faça os Estados Unidos Grandes Novamente (Maga, na sigla em inglês) testava a capacidade de resistência da sociedade civil e das elites do país à implementação de algo ainda mais amplo e sinistro. Deu no que deu. Sete anos depois, O’Toole torna a mirar o futuro. Parte da falência do “mundo cruel, vingativo, cínico e maliciosamente performático” de Trump, com “seus prazeres sádicos que vêm perdendo a graça”. E detecta a busca, a seu ver fadada ao fracasso, de uma espécie de “transplante de coração”, para dar à extrema direita alguma compaixão. É o que enxerga na movimentação do vice-presidente JD Vance rumo às eleições presidenciais de 2028, tal qual exposta em seu segundo livro de memórias, “Comunhão” [em tradução livre], recém-publicado nos EUA. A pouco menos de quatro meses das eleições de meio de mandato, quando as duas Casas do Capitólio estão em jogo, os dois partidos nacionais vivem crises internas. Enquanto o Partido Democrata está cindido entre moderados e socialistas, o fracasso econômico, político e social do governo até o momento, com desaprovação recorde detectada nas pesquisas, apressou a sucessão interna no Partido Republicano. Processo que passa necessariamente pela redefinição do trumpismo. O jornal britânico Observer publicou esta semana a resenha matadora de O’Toole para “Comunhão”. O livro é a continuação, dez anos depois, de “Elegia ao matuto” [em tradução livre]. Com o best seller, Vance ganhou projeção nacional ao revisitar a superação da pobreza, a dependência química da mãe e a ausência do pai. Ron Howard levou a história para o cinema, com Glenn Close e Amy Adams no elenco. Livro e filme retratam o cenário de terra arrasada da desindustrialização no Meio-Oeste do país, majoritariamente branco, cristão e de classe média baixa, fértil para a ascensão do trumpismo. 'Sucessão Apostólica Trumpista’ Há hoje dois sucessores óbvios para o comando do Partido Republicano. Um é o vice, escolhido em 2024 após campanha de Donald Trump Jr., com apoio dos capitães das big tech e acenos ao Maga. Seu rival é o secretário de Estado, Marco Rubio, hoje mais próximo de Trump pai. Inimigo da sutileza, o presidente tem questionado, de bate-pronto, figuras-chave de seu governo: “E aí, vamos de JD ou de Marco?”. Entediante e deliberadamente raso sobre a jornada espiritual do autor, apesar de abordar a conversão de Vance ao catolicismo, “Comunhão” só despertou a atenção de O’Toole por oferecer pistas sobre a estratégia rumo ao topo de um dos incontornáveis protagonistas do trumpismo pós-Trump. Vance se apresenta no livro como “o católico em posição mais alta no governo”. Ora, um degrau abaixo na hierarquia está Rubio, também convertido já adulto, antes enamorado pelo mormonismo e por encarnações do cristianismo evangélico. “O livro é a primeira cartada pública de Vance na disputa com Rubio pela sucessão apostólica trumpista”, ironiza o irlandês. A boutade é ótima, mas exige questionamento do próprio O’Toole: se Trump provou a desimportância de ser um homem pio para liderar o avanço da pauta cristã branca nacionalista, por que a base republicana valorizaria testemunhos de fé ao ungir seu sucessor? O irlandês tateia a resposta, que, escreve, “talvez esteja menos no ditado de Karl Marx de que a religião é o ópio do povo e mais no paradoxo deliberado da afirmação, ou seja, a de ela ser também o coração de um mundo sem coração”. No universo de Trump, escreve O’Toole, não há coração. E ele se desintegra diante de nossos olhos: “A violência interna, a dos agentes de imigração do ICE, foi contida pelos moradores de Minneapolis, enquanto a externa, a da guerra contra o Irã, se dissolve em uma farsa de quinta categoria”. Vance defende no livro uma visão de futuro para os EUA guiada pela “herança cristã da nossa civilização”. É ela, anuncia, que norteará as políticas públicas, inclusive as sobre “salários e política econômica”, para além “da pauta de costumes e do aborto”. Algo não muito distante das movimentações este ano no Brasil do flanco bolsonarista. O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa à nação, ao lado do vice-presidente JD Vance, do secretário de Estado Marco Rubio e do secretário de Defesa Pete Hegseth, na Casa Branca — Foto: CARLOS BARRIA / POOL / AFP Ensinar missa ao vigário O’Toole, no entanto, é cético. Há três meses o vice-presidente ultrapassou de vez a fronteira do ridículo ao tentar ensinar a missa ao Vigário. Nesse caso, a maiúscula é proposital. Irritado com a defesa dos imigrantes pelo Vaticano e a oposição moral pública de bispos locais e do Papa a perversidades do ICE mal disfarçadas de mero cumprimento da ordem, Vance aconselhou o Sumo Pontífice a ser “cuidadoso ao falar sobre questões teológicas”. Pouco mais de 60% dos eleitores americanos se dizem cristãos, 20% deles católicos. Estes últimos, ao contrário dos evangélicos, mostram as pesquisas, um bloco em disputa pelos dois lados da política americana em novembro e especialmente em 2028. O problema para Vance e Rubio é que há hoje, escreve O’Toole, três, e não apenas dois americanos em posição de poder interessados em testar a força do catolicismo no país. Mas só o americano Robert Francis Prevost, o Papa Leão XIV, o faz por razões definitivamente menos terrenas do que a de avançar a agenda ultraconservadora nos EUA.
Trumpismo pós-Trump passa por Vance, Rubio e, para azar deles, pelo Papa também, aponta Fintan O’Toole
Professor de Princeton detecta a falência do ‘mundo cruel’ do Trump 2.0 e duvida que injeção de compaixão cristã proposta por vice em seu novo livro de memórias transformará de fato extrema direita






